Continua.....
— O que ela te contou?
— Que sente dor.
— Só isso?
— Só.
Eleonor assentiu.
— Então eu explico.
Maphis ficou completamente atento.
— O corpo dela funciona em ciclos.
— Ciclos?
— Sim.
Eleonor falou com calma.
Sem pressa.
— Todos os meses, o corpo dela passa por mudanças.
Maphis ouviu.
Sem interromper.
— Em alguns dias, ela está mais forte, mais disposta.
— Eu vejo isso.
— Em outros… o corpo pede descanso.
— E dói.
— Sim.
Maphis franziu levemente o cenho.
— Por quê?
Eleonor pensou na melhor forma de explicar.
— Porque o corpo dela se prepara para gerar vida.
O silêncio caiu.
Maphis absorveu aquilo.
— Mesmo que ela não vá gerar?
— Mesmo assim.
— Então essa dor…
— Faz parte desse ciclo.
Maphis ficou em silêncio por alguns segundos.
— E não tem como evitar?
— Não completamente.
— Mas pode ajudar.
Eleonor assentiu.
— Pode.
Maphis se endireitou.
— Como?
Eleonor sorriu de leve.
— Agora você está fazendo a pergunta certa.
Ele começou a explicar.
Sobre descanso.
Sobre calor.
Sobre cuidado.
— Ela não precisa fazer tudo nesses dias.
— Ela já faz pouco.
— Ainda assim, pode fazer menos.
Maphis assentiu.
— E a dor?
— Às vezes, calor ajuda.
— Como?
— Água morna. Compressas. Chá.
Maphis guardava cada palavra.
— E emocionalmente?
Eleonor olhou para ele.
— Ela fica mais sensível.
— Eu percebi.
— Então não é hora de exigir.
— Eu nunca exijo.
— Eu sei.
Uma pausa.
— Mas é hora de estar mais presente.
Maphis assentiu.
— Eu já faço isso.
— Então continue.
O silêncio veio novamente.
Mas agora…
Mais claro.
— Quando ela for sua esposa… — começou Eleonor.
Maphis levantou o olhar.
— Você vai precisar entender isso melhor ainda.
— Eu quero.
— Então comece agora.
Uma pausa.
— Com respeito.
— Sempre.
— E com paciência.
— Eu tenho.
Eleonor o observou por mais um momento.
— Então você vai dar conta.
Maphis voltou caminhando mais devagar.
Pensativo.
Mas agora…
Com direção.
Quando chegou na casa dela, encontrou Lia sentada.
Envolta em uma manta.
Mais quieta.
Mas tranquila.
— Você saiu… — disse ela.
— Fui falar com seu pai.
Ela arregalou levemente os olhos.
— Sobre o quê?
Maphis se aproximou.
— Sobre você.
Lia ficou vermelha na hora.
— Maphis…
Ele se sentou ao lado.
— Eu queria entender.
Ela desviou o olhar.
— E agora entende?
— Um pouco mais.
Ela respirou fundo.
— E?
Maphis olhou para ela.
— Você não precisa passar por isso sozinha.
O coração dela apertou.
— Eu já disse…
— Eu sei.
Ele interrompeu com calma.
— Mas agora eu sei mais.
Ela o olhou.
— Você foi perguntar pra ele mesmo…
— Fui.
Ela cobriu o rosto por um instante.
— Eu vou morrer de vergonha.
Ele segurou levemente a mão dela.
— Não precisa.
Ela abaixou as mãos.
— Pra você é fácil.
— Não.
— Não?
— Eu estou aprendendo.
Ela ficou em silêncio.
— E você quer mesmo saber disso tudo?
— Quero.
— Por quê?
Ele respondeu sem hesitar.
— Porque você importa.
O silêncio que veio depois…
Foi diferente.
Mais profundo.
Mais verdadeiro.
Lia apertou levemente a mão dele.
— Então tá…
Uma pausa.
— Eu vou deixar você aprender.
Maphis sorriu de leve.
— Obrigado.
Ela inclinou a cabeça.
— Mas vai com calma.
— Sempre.
E, naquele momento…
Ele entendeu algo que nunca havia aprendido em guerras.
Cuidar…
Às vezes…
É aprender o que nunca foi ensinado.
E escolher ficar…
Mesmo quando não se entende tudo ainda.
Entre Força e Cuidado
O reino florescia.
Já não era apenas um abrigo para sobreviventes.
Era um lugar com estrutura, com ordem, com vida pulsando em cada canto. As crianças corriam pelas ruas de terra firme, os adultos trabalhavam com propósito, e os mais jovens… treinavam.
No campo aberto, próximo às muralhas ainda em construção, o som de madeira contra madeira ecoava.
Golpes.
Passos.
Respiração controlada.
Maphis estava ali.
No centro.
— De novo.
A voz dele era firme.
Sem dureza desnecessária, mas sem espaço para distração.
Os jovens ao redor repetiam os movimentos.
Alguns erravam.
Outros acertavam.
Mas todos aprendiam.
— Defesa não é só força — continuou ele. — É atenção.
Um dos rapazes avançou rápido demais.
Maphis desviou com facilidade.
— Você se expôs.
— Achei que ia conseguir—
— Achou.
Ele interrompeu.
— Pensar antes é o que mantém você vivo.
O jovem assentiu, um pouco envergonhado.
Maphis não o repreendeu mais.
Apenas voltou a observar o grupo.
Mas, por um instante…
Seu olhar desviou.
E encontrou ela.
Lia.
Parada um pouco afastada.
Observando.
Ela estava ali há alguns minutos.
Em silêncio.
Assistindo.
Seus olhos acompanhavam cada movimento.
Cada instrução.
Não era curiosidade simples.
Era vontade.
Maphis percebeu.
Claro que percebeu.
Mas não comentou.
Não naquele momento.
O treino continuou por mais algum tempo.
Até que ele levantou a mão.
— Por hoje é suficiente.
Os jovens relaxaram.
Alguns riram.
Outros se jogaram no chão.
— Descansem. Amanhã tem mais.
Eles começaram a se dispersar.
Lia continuava ali.
Esperando.
Maphis caminhou até ela.
— Você ficou observando.
Ela cruzou os braços.
— Fiquei.
— Por quê?
Ela o olhou diretamente.
— Porque eu quero aprender.
O silêncio caiu.
Maphis não respondeu de imediato.
Ele já sabia que aquilo viria.
Só não sabia quando.
— Aprender o quê?
— Isso.
Ela apontou para o campo.
— Lutar.
A resposta foi simples.
Direta.
Mas carregada.
Maphis respirou fundo.
— Não.
A palavra veio rápida.
Sem espaço.
Lia piscou.
— Não?
— Não.
Ela descruzou os braços.
— Por quê?
— Porque é perigoso.
— Tudo aqui já foi perigoso.
— Isso é diferente.
— Por quê?
Ele manteve o tom firme.
— Porque isso exige exposição.
— E eu não me exponho todos os dias?
— Não assim.
O silêncio caiu.
Lia o encarou.
E, pela primeira vez…
Havia algo ali.
Não era raiva.
Era… mágoa.
— Então eu não posso aprender?
Maphis percebeu.
Na hora.
A forma como os olhos dela mudaram.
Como o tom suavizou… mas ficou mais distante.
Ele hesitou.
Por um instante.
Porque sabia…
Que aquela resposta não era suficiente.
— Lia…
Ela desviou o olhar.
— Tá tudo bem.
Mas não estava.
Ele deu um passo à frente.
— Não é isso.
— Parece que é.
O silêncio ficou mais pesado.
Maphis passou a mão pelo rosto.
Pensando.
Ele não queria negar.
Mas também não queria colocar ela em risco.
E, ainda assim…
Sabia que negar daquele jeito…
Doía.
— Eu só quero te proteger.
Lia soltou um pequeno suspiro.
— Eu sei.
Uma pausa.
— Mas eu não sou fraca.
A frase não foi dita com desafio.
Foi… verdade.
E isso atingiu ele.
Maphis a olhou com mais atenção.
Ela não estava pedindo permissão.
Estava pedindo confiança.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos.
Pensando.
Avaliando.
Sentindo.
E então…
Mudou.
— Eu posso ensinar.
Lia levantou o olhar imediatamente.
— O quê?
— Eu posso ensinar você.
Ela deu um passo à frente.
— Mesmo?
— Mas não aqui.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Como assim?
— Não com eles.
Ele indicou o campo.
— Por quê?
— Porque aqui eu preciso dividir atenção.
Uma pausa.
— E você merece atenção inteira.
O olhar dela suavizou.
— Então…
— Só nós dois.
O coração dela respondeu antes das palavras.
— Você vai mesmo?
Maphis assentiu.
— Vou.
O sorriso que surgiu no rosto dela…
Foi imediato.
Verdadeiro.
— Então eu aceito.
Ele não conteve o leve sorriso.
— Eu imaginei.
No dia seguinte, o treino começou cedo.
Mas não no campo principal.
Maphis levou Lia para um espaço mais afastado.
Um lugar aberto, mas silencioso.
Seguro.
— Aqui.
Ela olhou ao redor.
— Só nós.
— Como prometido.
Ela respirou fundo.
Animada.
— Por onde começa?
Maphis a observou.
— Pela base.
Ele se posicionou.
— Postura.
Ela tentou imitar.
— Assim?
— Não.
Ele se aproximou.
E, com cuidado…
Ajustou a posição dela.
Sem ultrapassar limites.
Sempre atento.
— Equilíbrio.
Ela corrigiu.
— Melhor?
— Melhor.
Ela sorriu.
— Eu aprendo rápido.
— Eu sei.
O treino começou simples.
Movimentos básicos.
Passos.
Defesa.
Lia errava.
Corrigia.
Tentava de novo.
E não desistia.
— De novo.
— Já fiz três vezes.
— Então faz quatro.
Ela riu.
— Você é exigente.
— Só com quem pode mais.
Ela levantou o queixo.
— Então eu posso mais.
— Pode.
Com o tempo…
Ela melhorou.
Não era força bruta.
Era atenção.
Era adaptação.
Era… inteligência.
Maphis percebeu.
— Você não luta com força.
— Eu sei.
— Você luta com leitura.
Ela sorriu.
— Isso é bom?
— É essencial.
O sol já estava mais alto quando eles pararam.
Lia estava cansada.
Mas feliz.
— Eu gostei.
Maphis assentiu.
— Eu também.
Ela se sentou na grama.
— Você não devia ter dito não daquele jeito.
Ele sentou ao lado.
— Eu sei.
— Eu fiquei chateada.
— Eu percebi.
Ela olhou para ele.
— Mas você consertou.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Estou aprendendo também.
Ela sorriu.
— Então a gente aprende junto.
— Sempre.
O vento soprou leve.
E, ali…
Naquele espaço só deles…
Não era apenas um treino.
Era confiança sendo construída.
Era respeito sendo aprofundado.
Era escolha sendo reafirmada.
Porque Lia não queria apenas ser protegida.
Ela queria ser forte.
E Maphis…
Finalmente entendeu.
Que ensinar…
Também era uma forma de cuidar.