Lia respirou fundo quando chegaram.
— Eu gosto daqui.
— Eu sei.
Ela se aproximou da margem.
A água corria limpa.
Transparente.
Refletindo o céu que começava a mudar de cor.
Lia se ajoelhou.
Molhou as mãos.
Levou ao rosto.
Suspirou.
— Isso ajuda.
Maphis a observava.
Ainda atento.
Ainda com aquela preocupação silenciosa.
Ela percebeu.
E sorriu.
— Você ainda tá pensando nos hematomas.
Ele não negou.
— Estou.
Ela levantou.
Ficando de frente para ele.
— Eles vão sumir.
— Eu sei.
— E vão aparecer outros.
Ele soltou um pequeno suspiro.
— Isso não ajuda muito.
Ela riu baixo.
— Faz parte do processo.
Uma pausa.
— Assim como você já passou por isso.
Ele ficou em silêncio por um instante.
— Passei.
— E você tá aqui.
— Estou.
Ela deu um pequeno passo mais perto.
— Então confia.
O olhar dele suavizou.
— Eu confio.
O silêncio veio.
Mas agora…
Mais tranquilo.
Lia olhou para a água novamente.
E então…
Sorriu de leve.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Pode.
Ela inclinou levemente a cabeça.
— Você nunca quis entrar?
Ele arqueou a sobrancelha.
— No riacho?
— É.
— Já entrei.
— Mas comigo?
O silêncio veio.
Pequeno.
Mas cheio de intenção.
Maphis a observou.
— Não.
Ela sorriu.
— Então podia.
Ele não respondeu de imediato.
Apenas a observou.
E, naquele instante…
Percebeu.
Não era apenas sobre a água.
Era sobre proximidade.
Sobre confiança.
Sobre dividir algo simples.
Mas íntimo.
— Você quer que eu entre?
Ela deu de ombros, leve.
— Eu gosto daqui.
Uma pausa.
— E gosto quando você tá comigo.
O coração dele respondeu.
Mas o rosto permaneceu calmo.
— Então eu fico.
Ela sorriu.
— E pode se refrescar comigo.
A frase saiu leve.
Mas carregada de algo novo.
Maphis hesitou por um segundo.
Não por dúvida.
Mas por respeito.
Pelo espaço.
Pelo momento.
E então…
Ele deu um passo à frente.
Tirou as botas.
Aproximou-se da margem.
E entrou.
A água fria subiu pelos pés.
Subindo devagar.
Mas não incomodou.
Porque o momento…
Era maior que a sensação.
Lia entrou também.
Rindo baixo.
— Tá fria?
— Um pouco.
— Você acostuma.
Ela caminhou um pouco mais.
A água chegando até as pernas.
Maphis ficou próximo.
Sempre atento.
Mas agora…
Mais relaxado.
Ela molhou o rosto novamente.
Os cabelos.
Deixando algumas mechas soltas.
A água escorria pela pele.
E, por um instante…
Ela parecia leve.
Sem preocupações.
Sem peso.
Maphis a observava.
E, pela primeira vez naquele dia…
A preocupação diminuiu.
Porque ela estava bem.
De verdade.
— Viu?
Ela disse, olhando para ele.
— Não é tão r**m.
— Não é.
Ela sorriu.
— Eu gosto quando você relaxa.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Eu também.
O silêncio caiu.
Mas não vazio.
Era cheio.
De presença.
De escolha.
Lia deu um passo mais perto.
A água se movendo ao redor.
— Obrigada.
— Pelo quê?
— Por cuidar de mim.
Ele a olhou.
— Sempre.
— Mesmo quando eu digo que não precisa.
— Principalmente quando você diz isso.
Ela riu baixo.
— Você não muda.
— Nem quero.
O céu já começava a escurecer.
Mas nenhum dos dois parecia com pressa de sair.
Porque ali…
Não havia guerra.
Não havia responsabilidades.
Apenas…
Eles.
E, naquele momento…
Os hematomas não importavam.
O cansaço não importava.
Nada além daquilo importava.
Porque, às vezes…
Cuidar não é impedir.
É estar junto.
Mesmo quando o outro escolhe crescer.
E confiar…
Que ele sabe até onde pode ir.
E Maphis sabia.
Lia não era frágil.
Mas, ainda assim…
Era preciosa.
E ele estaria ali.
Sempre.
Não para impedir.
Mas para acompanhar.
Cada passo.
Cada escolha.
Cada mergulho.
O reino nascente já não podia mais ser chamado apenas de promessa.
Ele era realidade.
As construções se firmavam.
As estradas ganhavam forma.
As pessoas já não falavam apenas de sobreviver… falavam de viver.
E, no centro de tudo aquilo…
Lia e Maphis.
Eles não usavam coroas.
Mas eram reconhecidos.
Respeitados.
Seguidos.
Não por imposição.
Mas por escolha.
Naquela manhã, o movimento no reino era intenso.
Carregamentos de madeira.
Trocas de mercadorias.
Crianças correndo entre os adultos.
Mas, um pouco mais distante…
Havia um lugar mais silencioso.
Um espaço escolhido com cuidado.
Uma casa.
Ainda em construção.
Ou melhor…
Quase pronta.
Lia havia escolhido aquele lugar.
Mais afastado.
Não isolado.
Mas tranquilo.
— Eu quero ouvir o vento — ela tinha dito.
— E ver o céu sem tanto movimento.
Maphis não questionou.
Apenas concordou.
Porque entendia.
Ela precisava disso.
E, de alguma forma…
Ele também.
Agora, ele estava ali.
Organizando.
Ajustando.
Preparando.
Cada detalhe.
Porque o tempo estava chegando.
O aniversário de Lia se aproximava.
E, com ele…
Mais do que uma comemoração.
Um marco.
Maphis caminhava pela casa.
A estrutura já estava firme.
As paredes erguidas.
O telhado completo.
Mas ainda faltavam coisas.
Detalhes.
Coisas que transformavam um espaço…
Em lar.
Ele colocou algumas tábuas no lugar.
Ajustou uma janela.
E parou.
Observando.
— Aqui…
Ele falou baixo.
— Vai ser nosso.
O silêncio respondeu.
Mas não vazio.
Cheio de expectativa.
Ele saiu.
Do lado de fora, o espaço era amplo.
Algumas árvores.
Um pequeno caminho que levava de volta ao reino.
E, mais ao fundo…
Um ponto onde o sol se punha perfeitamente.
Maphis olhou.
E imaginou.
Ela ali.
Sorrindo.
Vivendo.
— Falta pouco… — murmurou.
Enquanto isso, no reino, Lia caminhava entre as pessoas.
Cumprimentava.
Ajudava.
Organizava.
Mas sua mente…
Estava em outro lugar.
Na casa.
Na escolha que tinha feito.
No que aquilo significava.
Ela parou por um instante.
Observando o movimento ao redor.
E sorriu de leve.
— Tá tudo mudando…
Uma das mulheres se aproximou.
— Lia, precisa ver isso aqui.
Ela voltou ao presente.
— Já vou.
Mas, no fundo…
Ela sabia.
Não era só o reino que estava mudando.
Era a vida dela.
Mais tarde, quando o sol já começava a descer, Lia decidiu ir até o lugar.
Sozinha.
Queria ver.
Sentir.
O caminho era tranquilo.
E, à medida que se aproximava…
O coração respondia.
Mais forte.
Mais presente.
Quando chegou…
Parou.
A casa estava ali.
Quase pronta.
Mais do que ela lembrava.
Mais do que imaginava.
— Maphis…
Ela sussurrou.
E entrou.
Ele estava dentro.
Organizando algumas coisas.
Quando a viu…
Parou.
E sorriu.
— Você veio.
— Eu queria ver.
Ela caminhou lentamente.
Observando cada detalhe.
As paredes.
A luz entrando pelas janelas.
O espaço.
— Tá lindo…
Ele não respondeu de imediato.
Apenas a observou.
— Eu ainda estou terminando.
— Já tá perfeito.
Ela parou no centro.
Girou devagar.
— Eu consigo imaginar.
— O quê?
Ela olhou para ele.
— A gente aqui.
O silêncio caiu.
Mas não vazio.
Cheio.
Maphis se aproximou.
— É pra isso que eu tô fazendo.
Ela sorriu.
— Eu sei.
Uma pausa.
— Você pensou em tudo?
Ele deu de ombros.
— Tô tentando.
— Eu gostei daqui.
— Eu também.
Lia caminhou até a janela.
Olhou para fora.
O sol já estava mais baixo.
Colorindo o céu.
— Dá pra ver tudo daqui.
— Foi por isso que você escolheu.
Ela assentiu.
— Eu queria sentir… espaço.
— Você vai ter.
O silêncio voltou.
Mas agora…
Mais suave.
Mais íntimo.
— Falta pouco pro meu aniversário.
Ela disse, sem olhar para ele.
— Falta.
— Você tá preparando isso por causa disso?
Ele hesitou.
Mas não negou.
— Tô.
Ela virou o rosto.
— Você não precisava.
— Eu quis.
O olhar dela suavizou.
— Por quê?
Ele se aproximou mais.
— Porque é um momento importante.
Uma pausa.
— E eu quero que você tenha um lugar.
Ela sorriu de leve.
— Eu já tenho.
— Agora vai ter mais um.
O silêncio caiu.
Mas não pesado.
Apenas… sentido.
Lia deu um passo mais perto.
— Nosso.
Ele assentiu.
— Nosso.
O vento entrou pela janela.
Movendo levemente o tecido que ainda não estava preso.
E, naquele momento…
A casa deixou de ser apenas construção.
Começou a ser… começo.
— Eu quero ajudar.
Ela disse.
— Vai ajudar.
— Quando?
— Sempre.
Ela riu baixo.
— Então tá bom.
Eles ficaram ali.
No meio da casa.
Ainda inacabada.
Mas cheia de intenção.
Porque, às vezes…
O que faz um lugar existir…
Não são as paredes.
Nem o teto.
Nem o chão.
É quem está ali.
E o que decide construir.
E Lia e Maphis…
Já estavam construindo muito antes daquela casa.
Agora…
Apenas estavam dando forma.
Ao que já existia.
E, com o aniversário se aproximando…
O tempo parecia dizer:
— Está quase na hora.
Mas, no fundo…
Eles já sabiam.
Não era sobre o dia.
Era sobre tudo o que vinha depois.
E isso…
Já tinha começado.