Sem Medo do Toque
O campo afastado onde treinavam já era familiar.
Ali não havia olhares curiosos.
Nem julgamentos.
Nem distrações.
Era só eles.
O vento passava entre as árvores, trazendo o cheiro da terra e do tempo que mudava.
O chão já guardava as marcas dos treinos anteriores — passos, giros, quedas leves.
E, naquele dia…
Havia algo diferente.
Lia estava pronta.
Mas não como antes.
Ela vestia roupas diferentes.
Mais largas.
Mais firmes.
Mais… masculinas.
Calças ajustadas.
Tecido resistente.
Camisa simples.
Cabelos presos.
Não era por esconder quem era.
Era por se mover melhor.
Por se sentir mais segura.
Maphis a observava.
Em silêncio.
Não com estranhamento.
Mas com atenção.
— Você mudou.
Ela olhou para si mesma.
— Achei que ia ser mais fácil assim.
Ele assentiu.
— É.
Ela deu um pequeno giro.
— E?
Ele a analisou.
— Funciona.
Ela sorriu.
— Então tá bom.
O treino começou como sempre.
Postura.
Respiração.
Movimento.
Mas, dessa vez…
Havia algo diferente no ritmo.
Mais intensidade.
Maphis percebeu.
— Você tá mais firme.
— Eu quero melhorar.
— Está.
Ela avançou.
Um golpe leve.
Ele desviou.
— De novo.
Ela tentou outra vez.
Mais rápido.
Mais confiante.
Mas, no último momento…
Parou.
O punho ficou no ar.
A poucos centímetros dele.
Maphis não se moveu.
— Por que parou?
Ela abaixou o braço.
— Eu não quero te machucar.
O silêncio caiu.
Simples.
Mas carregado.
Maphis a olhou com mais atenção.
— Você acha que consegue me machucar assim?
Ela franziu levemente o cenho.
— Não é isso.
— Então o que é?
Ela desviou o olhar por um instante.
— Eu só…
Uma pausa.
— Eu não quero te acertar de verdade.
Ele respirou fundo.
— Lia.
Ela levantou o olhar.
— Isso aqui não é sobre não acertar.
— Eu sei.
— É sobre aprender.
— Eu sei.
— Então por que está segurando?
Ela hesitou.
— Porque é você.
O silêncio veio.
Mas não foi desconfortável.
Foi… verdadeiro.
Maphis deu um passo à frente.
— Justamente porque sou eu.
Ela não entendeu de imediato.
— Como assim?
— Porque eu posso te ensinar sem você ter medo.
Ela ficou em silêncio.
— E você pode tentar sem se segurar.
— E se eu errar?
— Você vai errar.
— E se eu acertar?
— Você também vai acertar.
Ela apertou levemente os dedos.
— E se eu te machucar?
Maphis deu um pequeno sorriso.
— Então eu vou saber que você aprendeu.
Ela soltou um leve suspiro.
— Isso não me tranquiliza muito.
Ele se aproximou mais.
— Confia em mim?
Ela não hesitou.
— Confio.
— Então ataca.
O silêncio caiu novamente.
Mais intenso.
Mais direto.
Lia respirou fundo.
Sentiu o corpo.
A posição.
O espaço entre eles.
E, pela primeira vez…
Ela não pensou em parar.
Ela avançou.
Rápida.
O golpe veio mais firme.
Maphis desviou.
— Melhor.
Ela girou.
Tentou de novo.
Mais confiança.
Mais precisão.
Ele bloqueou.
— De novo.
O ritmo aumentou.
Passos.
Desvios.
Toques.
Lia começou a entrar no movimento.
Esquecendo o medo.
Focando no aprendizado.
Mas, em um momento…
Ela acertou.
Um toque real.
No braço dele.
Não forte.
Mas… verdadeiro.
Ela parou imediatamente.
— Eu—
Maphis não se afastou.
Nem demonstrou dor.
Apenas a olhou.
— Foi bom.
Ela piscou.
— Eu te acertei.
— Acertou.
— Desculpa—
— Não pede desculpa.
A voz dele veio firme.
— Isso é o que você tem que fazer.
Ela ficou em silêncio.
Processando.
— Eu posso mesmo?
— Pode.
— Sem medo?
— Sem medo.
O treino continuou.
E, aos poucos…
Lia mudou.
Seus movimentos ficaram mais soltos.
Mais reais.
Mais… dela.
Ela caiu algumas vezes.
Se levantou.
Errou.
Acertou.
E, a cada tentativa…
Ficava mais confiante.
Maphis observava.
Corrigia.
Mas, acima de tudo…
Confiava.
Quando o treino terminou, o sol já começava a descer.
Lia estava ofegante.
Cansada.
Mas sorrindo.
— Eu consegui.
Maphis assentiu.
— Conseguiu.
Ela passou a mão no rosto.
— E não te machuquei.
Ele sorriu de leve.
— Nem chegou perto disso.
Ela riu.
— Ainda bem.
Uma pausa.
— Mas eu acertei.
— Acertou.
Ela olhou para as próprias mãos.
— É estranho.
— O quê?
— Não ter medo.
Ele a observou.
— Não ter medo não significa não se importar.
Ela levantou o olhar.
— Então o que significa?
— Significa confiar.
O silêncio veio.
Mas agora…
Leve.
— Eu confio em você.
— Eu sei.
Ela deu um pequeno passo mais perto.
— E você confia em mim.
— Sempre.
O vento soprou entre eles.
E, naquele espaço…
O treino tinha sido mais do que luta.
Tinha sido sobre entrega.
Sobre deixar o medo de lado.
E aprender…
Que confiança também se constrói assim.
Entre tentativas.
Entre erros.
Entre acertos.
E, principalmente…
Sem recuar.
Nem quando o coração hesita.
O dia havia sido intenso.
O sol já começava a perder força no céu, mas ainda deixava no ar o calor de horas de treino, esforço e movimento.
Lia caminhava devagar.
O corpo sentia.
Cada passo lembrava o quanto havia se dedicado.
Os braços.
As pernas.
Os ombros.
E, em alguns pontos…
Marcas.
Pequenos hematomas espalhados pela pele clara.
Nada grave.
Mas visíveis.
Ela não reclamava.
Não era dor que a incomodava.
Era apenas… consequência.
De estar aprendendo.
De estar crescendo.
Maphis caminhava ao lado.
Em silêncio.
Mas não distraído.
Seus olhos passavam por ela com atenção.
E, quando notou…
Parou.
— Lia.
Ela virou o rosto.
— Hm?
Ele indicou com o olhar.
— Seu braço.
Ela olhou.
Um leve tom arroxeado começava a aparecer próximo ao pulso.
Ela deu de ombros.
— É do treino.
Ele franziu o cenho.
— Eu sei.
— Então…
Ela tentou sorrir leve.
— Faz parte.
Mas ele não sorriu.
— Eu que estou te treinando.
— E?
— E você está se machucando.
Ela parou.
Virou-se para ele.
— Maphis.
O tom dela era calmo.
— Eu escolhi isso.
Ele sustentou o olhar.
— Eu sei.
— Então não faz essa cara.
Uma pequena pausa.
— Eu não sou feita de vidro.
O silêncio caiu.
Mas não era confronto.
Era… ajuste.
Maphis respirou fundo.
— Eu só não gosto de ver você assim.
Ela suavizou o olhar.
— Eu sei.
— E se eu estiver passando do limite?
— Você não está.
Ela respondeu com firmeza.
— Eu confio em você.
O silêncio mudou.
Mais leve.
Mais próximo.
— Vamos até o riacho.
Ela sugeriu.
— Eu quero me refrescar.
Maphis assentiu.
— Vamos.
O caminho até o riacho era conhecido.
Cercado por árvores.
Sombras suaves.
O som da água vinha antes da visão.
Calmo.
Constante.