Capítulo 27

1862 Words
Onde o Futuro Começa O tempo seguia. Não apressado. Não lento. Mas constante. O reino crescia a cada dia, ganhando forma não apenas nas construções, mas nas escolhas que seus líderes faziam. E, entre todas essas escolhas… Maphis carregava uma nova. Uma que não envolvia batalhas. Nem estratégias. Nem proteção contra inimigos. Mas ainda assim… Era uma das mais importantes. Ele estava em sua casa. Simples. Funcional. Era o lugar onde ele dormia, descansava, organizava seus pensamentos. Mas… não era um lar. Não ainda. Ele caminhava pelo espaço em silêncio. Observando. A mesa. As cadeiras. A lareira. Tudo ali tinha utilidade. Mas faltava algo. Faltava vida. Faltava… ela. Maphis parou no centro da sala. Respirou fundo. — Isso precisa mudar… — murmurou. Não era uma dúvida. Era uma decisão. Ele sabia. O tempo estava passando. Lia estava crescendo. Mudando. Se tornando ainda mais presente em sua vida. E eles já não eram apenas dois caminhos que se cruzaram. Eram… um caminho sendo construído juntos. Mas havia algo que ainda não tinham definido. Onde esse caminho levaria. Ele passou a mão pelo rosto. Pensativo. — Ela vai morar comigo… A frase saiu baixa. Mas, ao mesmo tempo… Ele hesitou. — Ou eu vou morar com ela? O silêncio respondeu com mais perguntas. Não era apenas uma questão de espaço. Era sobre construção. Sobre escolha. Sobre o início de algo novo. Maphis sabia lutar. Sabia proteger. Sabia liderar. Mas construir um lar… Era diferente. E, pela primeira vez… Ele precisava perguntar. Lia estava na casa dela, organizando algumas coisas. Tecidos dobrados. Utensílios alinhados. Ela gostava de manter tudo em ordem. Não por obrigação. Mas porque aquilo trazia paz. Seus movimentos eram tranquilos. Mas, como sempre… Sua mente estava ativa. Pensando. No reino. No futuro. E nele. Uma batida leve na porta interrompeu seus pensamentos. — Pode entrar. A porta se abriu. Maphis. Ela sorriu imediatamente. — Você sempre aparece. — Eu sempre quero aparecer. Ela riu de leve. — Isso é bom. Ele entrou. Mas, dessa vez… Havia algo diferente. Mais sério. Mais… consciente. Lia percebeu. — O que foi? Maphis respirou fundo. — Eu preciso conversar com você. Ela inclinou levemente a cabeça. — Tá. Ele olhou ao redor. A casa dela. Simples. Mas cheia de detalhes. Coisas feitas por ela. Organizadas por ela. Vivas. Diferente da dele. — Sobre o quê? Ele voltou o olhar para ela. — Sobre nós. O coração dela respondeu antes da mente. — Nós? — Sim. Ele deu um passo à frente. — O tempo está passando. Ela assentiu. — Eu sei. — E a gente também está mudando. — Eu sei. O silêncio ficou mais atento. — E eu comecei a pensar… Ele hesitou por um instante. Mas continuou. — Onde a gente vai viver. Lia piscou. Surpresa. — Viver? — Quando a gente casar. O silêncio caiu. Mas não pesado. Profundo. Lia sentiu o coração acelerar. Não era a primeira vez que pensava nisso. Mas ouvir dele… Era diferente. — Você já pensou nisso? Ela demorou um segundo. — Já. — E? Ela respirou fundo. — Eu não sei. Ele assentiu. — Eu também não. Eles ficaram em silêncio por um momento. — Eu olhei minha casa hoje. — E? — Ela não parece um lar. Lia suavizou o olhar. — Porque você mora sozinho. — Não é só isso. — O que mais? — Falta você. A frase foi simples. Mas direta. E tocou. Lia desviou o olhar por um instante. — Minha casa tem você… mesmo quando você não tá. Maphis observou. — Eu sei. — Eu faço coisas pensando na gente. — Eu percebo. O silêncio voltou. Mas agora… Mais íntimo. — Então? Ela olhou para ele. — Então o quê? — Onde a gente constrói isso? Lia pensou. De verdade. — Não precisa ser sua casa. — Nem a sua. Ela assentiu. — Pode ser outra. Maphis considerou. — Uma nova? — Nossa. A palavra ficou no ar. E fez sentido. Maphis se aproximou mais. — Você quer isso? — Quero. — Construir do começo? — Com você… sim. O silêncio veio novamente. Mas agora… Mais firme. Mais decidido. — Então a gente faz assim. Lia inclinou levemente a cabeça. — Assim como? — A gente constrói. — Juntos? — Sempre. Ela sorriu. — Eu gosto disso. — Eu também. Ele olhou ao redor novamente. — Mas, até lá… — A gente continua assim. — Assim? — Indo e vindo. — Estando. — Sendo. Ele sorriu de leve. — Isso a gente já faz bem. Ela riu. — Faz. O silêncio caiu mais uma vez. Mas agora… Leve. Tranquilo. Porque algo havia sido decidido. Não com pressa. Mas com certeza. Maphis deu um passo mais próximo. — Eu só não quero que isso fique no pensamento. — Não vai ficar. — Eu quero fazer. — Então a gente faz. Ela estendeu a mão. Ele segurou. Como sempre. Mas, agora… Com algo a mais. Um futuro. Porque não era apenas sobre onde morar. Era sobre onde viver. E, mais do que isso… Com quem construir. E eles já sabiam. Não era sobre a casa. Era sobre o que colocariam dentro dela. Cuidado. Presença. Escolha. E amor… Que já existia. Só estava esperando… Ganhar forma. O dia estava tranquilo no reino. O vento passava leve entre as construções, carregando o som da vida que seguia firme — martelos ao longe, vozes, passos, risos. Mas, dentro da casa de Eleonor… O tempo parecia mais lento. Lia estava sentada próxima à mesa. As mãos apoiadas, os dedos entrelaçados sem perceber. Ela havia ido até ali com um pensamento simples. Falar com o pai. Mas, como muitas vezes acontecia… Os pensamentos cresceram. Ganharam peso. E se tornaram perguntas. Perguntas que ela nunca havia feito antes. Eleonor estava diante dela, observando. Ele conhecia aquele silêncio. — O que foi, filha? Lia respirou fundo. — Eu queria te perguntar uma coisa. — Pergunte. Ela hesitou. Não por medo. Mas porque… Aquilo importava. — Sobre mim… e o Maphis. Eleonor assentiu. — O que tem vocês dois? Ela abaixou o olhar por um instante. — No futuro… Uma pausa. — Eu posso ter um filho com ele? O silêncio caiu. Mas não foi surpresa. Eleonor apenas… Pensou. Com cuidado. Porque sabia… Que aquela pergunta não era leve. E a resposta… Também não seria. — Lia… Ele se aproximou um pouco mais. — Eu não posso te dar uma resposta certa. Ela levantou o olhar. — Como assim? — Você é de uma espécie. Uma pausa. — E ele é de outra. O coração dela desacelerou por um instante. — Isso impede? — Não necessariamente. — Mas? Eleonor sustentou o olhar dela. — Só o tempo pode dizer. O silêncio que se seguiu… Foi pesado. Diferente de todos os outros. Mais frio. Mais real. Lia sentiu. Como um impacto. Um baque silencioso. Algo que ela nunca tinha considerado. Nunca. — Eu… Ela tentou falar. Mas as palavras não vieram de imediato. — Eu achei que… Ela parou. Porque não sabia o que tinha achado. Nunca tinha pensado nisso. Nunca tinha questionado. Para ela… Era natural. Eles. O futuro. Uma vida juntos. Mas, agora… Havia uma incerteza. Uma que ela não controlava. Eleonor se aproximou mais. — Isso não significa que não pode acontecer. Ela não respondeu. — Significa apenas que não sabemos. Lia assentiu levemente. Mas o olhar… Ainda estava distante. — Eu nunca pensei nisso… — Eu sei. — Eu só… Ela respirou fundo. — Eu só achei que seria possível. Eleonor suavizou o olhar. — E pode ser. — Mas também pode não ser. Ele não negou. — Pode. O silêncio voltou. Mas agora… Pesado. Mais consciente. — Você ainda quer isso? A pergunta veio calma. Mas direta. Lia não respondeu de imediato. Porque agora… Ela precisava sentir. Pensar. Entender. — Eu não sei. A sinceridade saiu. Sem defesa. — Eu nunca pensei nisso antes. — E agora está pensando. — Estou. Ela apertou levemente as mãos. — Eu preciso falar com ele. Eleonor assentiu. — Precisa. Naquele momento… Uma batida leve na porta. — Posso entrar? A voz. Maphis. Lia sentiu o coração reagir. Mais forte. Mais confuso. — Pode. Ele entrou. E, ao olhar para os dois… Percebeu. Algo estava diferente. — Aconteceu alguma coisa? Eleonor olhou para Lia. — É com você. E saiu. Deixando os dois. O silêncio ficou. Mais intenso do que o normal. Maphis deu um passo à frente. — Lia? Ela levantou o olhar. E ele viu. Algo ali. Que não estava antes. — O que foi? Ela respirou fundo. — Eu preciso falar com você. — Fala. Ela hesitou. Mas não recuou. — Eu perguntei uma coisa pro meu pai. — Sobre o quê? — Sobre nós. Ele ficou mais atento. — E? Ela engoliu seco. — Sobre o futuro. Uma pausa. — Sobre… ter filhos. O silêncio caiu. Maphis não demonstrou surpresa. Mas ficou completamente presente. — E o que ele disse? Lia sustentou o olhar. — Que não sabe. Uma pausa. — Porque eu sou de uma espécie… Outra pausa. — E você de outra. O silêncio ficou mais profundo. Mas não distante. Maphis não desviou. — E isso te abalou. Não foi uma pergunta. Ela assentiu. — Eu nunca pensei nisso. — Eu sei. — Pra mim era natural. — Pra mim também. Ela respirou fundo. — E agora não é mais. — Agora é uma possibilidade. — Uma incerteza. Maphis deu mais um passo à frente. — E o que você sente com isso? Ela demorou um pouco. — Eu não sei. A sinceridade veio novamente. — Eu nunca imaginei um futuro sem isso. — E agora você está imaginando. — Estou tentando. O silêncio ficou. Mas não quebrado. Apenas… sendo sentido. — E você? Ela perguntou. — Você já pensou nisso? Maphis pensou. De verdade. — Não dessa forma. — E agora? Ele olhou para ela. — Agora eu penso. — E? Ele respirou fundo. — Eu não sei o que o tempo vai dizer. Uma pausa. — Mas eu sei o que eu escolho. Ela ficou em silêncio. — Eu escolho você. A resposta veio firme. Sem dúvida. Sem hesitação. Os olhos dela suavizaram. — Mesmo sem saber? — Mesmo sem saber. Uma pausa. — Porque isso não muda o que você é pra mim. O coração dela apertou. Mas não de dor. De algo mais profundo. — E se nunca acontecer? A pergunta veio baixa. Mas necessária. Maphis não desviou. — A gente vive. — Só nós dois? — Nós dois… e tudo que a gente construir. O silêncio que veio depois… Foi diferente. Mais calmo. Mais firme. Lia respirou fundo. — Eu precisava ouvir isso. — Eu precisava dizer. Ela deu um passo à frente. E segurou a mão dele. Como sempre. Mas agora… Com algo a mais. Consciência. — Eu ainda tenho medo. — Pode ter. — Mas eu não quero fugir disso. — Nem eu. Eles ficaram ali. Entre dúvidas. Entre possibilidades. Mas, acima de tudo… Entre escolha. Porque o futuro… Ainda não estava escrito. Mas o presente… Já estava decidido. E, às vezes… Isso é o que mais importa.
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