Capítulo 32

1149 Words
O Que Ainda Não Foi Vivido A noite estava tranquila. Depois do ritual, depois do cansaço, depois da intensidade… Veio o silêncio. Lia estava sentada ao lado de Maphis. Perto do riacho. A água corria suave, refletindo a luz da lua que ainda dominava o céu. O ar estava frio. Mas não o suficiente para incomodar. Porque ali… Havia calor. O tipo de calor que vinha da presença. Lia mantinha as mãos apoiadas sobre o próprio colo. Ainda sentia o corpo um pouco pesado pelo ritual. Mas não era isso que ocupava seus pensamentos. Era ele. Sempre ele. Mas, dessa vez… De um jeito diferente. Ela olhou de lado. Maphis estava ali. Calmo. Atento. Mas também… distante em pensamento. — Maphis… A voz dela foi baixa. Ele virou o rosto. — Hm? Ela hesitou. Mas não recuou. — Posso te perguntar uma coisa? — Pode. O silêncio ficou. Pequeno. Mas significativo. — Você já… tocou? A pergunta saiu. Simples. Mas carregada. Maphis não respondeu de imediato. Apenas a observou. Sem julgamento. Sem surpresa. Apenas… presente. — Lia… A voz dele veio calma. Mas ele não desviou. — Olha pra mim. Ela virou o rosto. Os olhos encontraram os dele. Verdes. Claros. Mas agora… Cheios de algo novo. Algo que ela ainda estava aprendendo a entender. — Você é o meu presente. Ele disse. A frase foi firme. — E o meu futuro. O coração dela respondeu. Mais rápido. Mais forte. Ele continuou. Sem fugir. — E eu já estive com outras mulheres. O silêncio caiu. Mas não foi pesado. Foi… verdadeiro. Lia não desviou o olhar. Mesmo sentindo algo apertar dentro do peito. Não de dor. Mas de novidade. — Mas o que eu sinto por você… Ele deu um leve passo mais próximo. — Eu nunca senti por ninguém. A respiração dela mudou. Mais curta. Mais consciente. — Nunca. Ele reforçou. O silêncio que veio depois… Não precisava de mais palavras. Mas Lia ainda não estava em silêncio por dentro. Havia algo. Algo que crescia. Algo que precisava sair. — Maphis… Ela chamou. A voz mais baixa. Mais vulnerável. — Eu tô com medo. A frase saiu. Sem proteção. Sem esconder. Ele não se moveu. Mas ficou ainda mais atento. — Do quê? Ela respirou fundo. E, pela primeira vez… Sentiu o rosto esquentar. As bochechas ficando vermelhas. — Nosso casamento tá chegando… Uma pausa. — E eu não sei se estou pronta. O silêncio caiu. Mas não pesado. Profundo. Maphis viu. O rosto dela. Vermelho. O olhar firme… Mas com algo novo. Insegurança. Ele se aproximou mais. Com cuidado. Como sempre fazia. — Pronta pra quê? Ela engoliu seco. Mas respondeu. — Pra tudo. A palavra ficou no ar. Cheia de significado. — Eu nunca… Ela parou. As palavras não saíam completas. Mas ele entendeu. E não pressionou. Não apressou. Apenas ficou ali. — Lia… A voz dele veio mais suave. — Você não precisa estar pronta agora. Ela olhou para ele. — Mas o casamento— — Não é sobre isso. Ele interrompeu, com calma. — Não é sobre pressa. — Não é sobre obrigação. — Não é sobre provar nada. O olhar dela começou a suavizar. — Então o que é? Ele respondeu sem hesitar. — Sobre nós. O silêncio voltou. Mas agora… Mais leve. — Sobre o que a gente construiu. — Sobre o que a gente sente. — Sobre o que a gente escolhe. Ele segurou a mão dela. Devagar. Como sempre. — O resto… Uma pausa. — Vem no tempo certo. Lia respirou fundo. Sentindo. Processando. — E se eu demorar? A pergunta veio baixa. Mas honesta. Maphis não hesitou. — Eu espero. O coração dela apertou. Mas de um jeito bom. — Você já esperou tanto… — E espero mais. — Sem problema? Ele deu um leve sorriso. — Sem problema. O silêncio caiu novamente. Mas agora… Cheio de segurança. Lia apertou levemente a mão dele. — Eu não quero te decepcionar. — Você não vai. — E se eu não souber? — A gente aprende. — Juntos? — Sempre. Ela abaixou o olhar por um instante. E depois… Voltou. Mais calma. Mais segura. — Eu fico pensando… — No quê? — Em como vai ser. Ele inclinou levemente a cabeça. — E? Ela respirou fundo. — Eu não sei. Uma pequena pausa. — Mas eu quero descobrir. O silêncio respondeu. Mas não com dúvida. Com certeza. Maphis levou a mão dela até os lábios. E beijou. Como sempre fazia. Mas, dessa vez… Com mais significado. Porque aquele gesto… Carregava mais do que carinho. Carregava promessa. Lia fechou os olhos por um instante. Sentindo. Guardando. Porque sabia. O beijo que ela tanto pensava… Aquele que ainda não tinham vivido… Viria. Mas não agora. E isso… Não diminuía nada. Apenas tornava tudo… Mais especial. Ela encostou levemente no ombro dele. Sem medo. Sem dúvida. — Obrigada. — Pelo quê? — Por não me apressar. Ele olhou para ela. — Eu não quero te apressar. — Eu quero te acompanhar. O silêncio que veio depois… Foi o mais bonito de todos. Porque não havia mais medo. Nem dúvida. Nem pressa. Apenas… Dois caminhos. Que continuavam juntos. No tempo certo. Do jeito certo. E com tudo… Ainda por viver. A noite ainda os envolvia com sua calma. O riacho seguia seu curso, como se nada no mundo pudesse apressá-lo. A lua permanecia alta, silenciosa, testemunha de tudo o que era dito… e do que não precisava ser dito. Lia ainda estava próxima de Maphis. Sentindo o calor dele. Sentindo a segurança. Mas, acima de tudo… Sentindo algo novo crescendo dentro dela. Não era apenas amor. Isso ela já conhecia. Era coragem. A coragem de responder. De se aproximar. De fazer também. Ela olhou para a mão dele. A mesma mão que tantas vezes segurou a dela. A mesma que a guiou, protegeu… esperou. E, por um instante… Ela apenas observou. Maphis percebeu. Mas não interrompeu. Apenas deixou. Porque já entendia. Lia não fazia nada sem sentir. E, quando fazia… Era verdadeiro. Devagar… Ela moveu a própria mão. Tocou a dele. Não com força. Mas com intenção. Maphis olhou. E não disse nada. Porque naquele gesto… Já havia palavras suficientes. Lia entrelaçou os dedos nos dele. Como ele sempre fazia. Como já era natural entre eles. Mas, dessa vez… Ela não parou ali. O coração dela acelerou. Não de medo. Mas de consciência. Do que estava prestes a fazer. Ela puxou a mão dele levemente. Aproximando. E, sem desviar o olhar… Inclinou o rosto. E beijou. O dorso da mão dele. O gesto foi suave. Mas carregado. Profundo. Cheio de tudo o que ela sentia… E ainda estava aprendendo a entender. O tempo pareceu parar. O som da água ficou distante. O vento ficou leve. E tudo se concentrou naquele instante. Maphis não se moveu. Não recuou. Mas também não interrompeu. Porque aquilo… Era dela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD