Capítulo 1

1270 Words
A Máscara da Verdade O amanhecer naquele reino distante parecia mais pesado do que de costume. O céu, tingido em tons de dourado e lilás, anunciava não apenas um novo dia, mas o início de algo muito maior — algo que mudaria destinos, reinos e, principalmente, o coração de Lia. A jovem de dezesseis anos estava ajoelhada ao lado de um baú antigo, cuidadosamente dobrando suas roupas. Cada peça parecia carregar memórias: dias simples, risadas com o pai, treinos exaustivos e noites em que o silêncio da ausência de uma mãe pesava mais do que qualquer feitiço. Lia nunca conheceu sua mãe. Eleonor, seu pai, raramente falava sobre ela. Tudo o que sabia vinha de fragmentos — palavras soltas, olhares distantes e uma história que sempre terminava cedo demais. — Sua mãe era linda — ele costumava dizer. — E corajosa… mais do que qualquer pessoa que já conheci. E então, o silêncio tomava conta. Lia suspirou, fechando o baú com firmeza. Aquela não era hora para pensamentos melancólicos. Eles estavam partindo para o reino dos elfos — um lugar que ela só conhecia através de livros antigos e histórias mágicas. E estavam indo para a guerra. Do lado de fora, o vento dançava entre as árvores, carregando consigo um presságio inquietante. Lia se levantou, ajeitando sua capa escura, quando ouviu passos atrás de si. — Já terminou? — a voz grave de Eleonor ecoou pelo quarto. Ela se virou, encontrando o olhar firme do pai. Ele estava como sempre: imponente, com suas vestes de mago adornadas por símbolos antigos e um cajado que parecia pulsar com energia própria. — Sim — respondeu Lia, tentando parecer mais confiante do que realmente se sentia. Eleonor a observou por alguns segundos, como se quisesse dizer algo… mas não disse. Em vez disso, caminhou até ela e colocou a mão em seu ombro. — Hoje, você não é apenas minha aprendiz — disse ele. — Você é uma peça fundamental no que está por vir. Lia engoliu em seco. Ela sabia disso. Todos sabiam. Desde que a máscara a escolheu. A máscara. Ninguém sabia de onde ela havia surgido. Alguns diziam que era um artefato dos deuses antigos. Outros acreditavam que era uma criação proibida de magos que ultrapassaram os limites do conhecimento. Mas uma coisa era certa: a máscara não escolhia qualquer um. E havia escolhido Lia. Ela lembrava perfeitamente do dia. Estava treinando sozinha na floresta quando encontrou a máscara caída entre raízes antigas de uma árvore gigantesca. Era simples à primeira vista — branca, lisa, sem expressão. Mas quando Lia a tocou… Tudo mudou. A máscara brilhou. E, sem que ela entendesse como, encaixou-se em seu rosto. Naquele momento, Lia viu coisas que jamais esqueceria. Viu o mundo como ele realmente era. Pessoas que pareciam boas mostravam rostos distorcidos, sombrios, cheios de intenções ocultas. Outras, simples e esquecidas, brilhavam com uma beleza que não vinha da aparência, mas do coração. E quando ela retirou a máscara… percebeu algo ainda mais assustador. A máscara não apenas revelava a verdade. Ela a conectava à verdade. Desde então, Lia nunca mais foi a mesma. — Está com medo? — perguntou Eleonor, quebrando o silêncio. Lia hesitou. — Um pouco. Ele assentiu. — Isso é bom. Ela franziu a testa. — Bom? — O medo mantém você viva — respondeu ele. — Mas não deixe que ele te paralise. Lia respirou fundo, absorvendo aquelas palavras. — Pai… — começou, mas parou. Eleonor inclinou a cabeça. — O que foi? Ela hesitou novamente. — Por que eu? O mago permaneceu em silêncio por um momento. — A máscara não erra — disse por fim. — Mas por quê eu? Eleonor desviou o olhar, como se procurasse respostas em algum lugar distante. — Porque você vê o mundo como ele realmente é — respondeu. — E isso… é mais poderoso do que qualquer magia. Lia não parecia convencida. Mas não insistiu. A viagem começou pouco depois. Eles partiram com um pequeno grupo — guerreiros, magos e mensageiros. Todos com o mesmo destino: o reino dos elfos. O caminho era longo. E perigoso. À medida que avançavam, a paisagem mudava. As árvores se tornavam mais altas, os rios mais cristalinos, e o ar… diferente. Mais leve. Mais antigo. — Estamos entrando nas terras élficas — disse um dos guardas. Lia observava tudo com atenção. Era lindo. Mas havia algo estranho. Algo que ela não conseguia explicar. Instintivamente, levou a mão até a bolsa onde guardava a máscara. — Não — disse Eleonor, como se tivesse lido seus pensamentos. — Ainda não. — Mas… — Você vai saber a hora certa. Lia assentiu, embora não estivesse totalmente tranquila. Eles chegaram ao reino dos elfos ao entardecer. Era mais magnífico do que qualquer história poderia descrever. Torres feitas de madeira viva se erguiam entre as árvores, pontes de luz conectavam estruturas e criaturas mágicas circulavam livremente. Mas o que mais chamou a atenção de Lia… foram os rostos. Os elfos eram belos. Perfeitos. Mas algo dentro dela dizia que nem tudo era o que parecia. — Seja respeitosa — murmurou Eleonor. — Estamos em território aliado. Lia assentiu. Mas sua mão continuava próxima à máscara. Foram recebidos no grande salão. O rei dos elfos, de aparência serena e olhar penetrante, observava o grupo com atenção. — Eleonor — disse ele. — Há muito tempo. — Majestade — respondeu o mago, com uma leve reverência. Os olhos do rei então se voltaram para Lia. — E esta deve ser… a escolhida. Lia sentiu um arrepio. — Sim — disse Eleonor. — Minha filha. O rei se aproximou lentamente. — Posso? — perguntou, indicando a máscara. Lia hesitou. Mas assentiu. Com mãos firmes, colocou a máscara no rosto. E então… O mundo mudou. Ela olhou para o rei. E viu… Luz. Pura. Intensa. Ele era exatamente o que aparentava ser. Um líder justo. Um coração verdadeiro. Mas quando Lia desviou o olhar para os outros ao redor… Seu coração disparou. Alguns elfos… Não eram o que pareciam. Rostos distorcidos. Sombras escondidas sob beleza perfeita. Traição. Mentiras. Perigo. Lia recuou, retirando a máscara com um movimento brusco. — Pai… — sussurrou. Eleonor já a observava. — Você viu, não foi? Ela assentiu, assustada. — Nem todos aqui são aliados. O silêncio tomou conta do salão. O rei dos elfos franziu o cenho. — O que ela viu? Eleonor respondeu, sério: — A verdade. Naquela noite, Lia não conseguiu dormir. As imagens não saíam de sua mente. A guerra que se aproximava não era apenas contra inimigos externos. O perigo estava dentro. Ela se levantou, caminhando até a varanda. O céu estava coberto de estrelas. — Difícil, não é? Lia se virou, surpresa. Era o rei. — Ver o que ninguém mais vê — continuou ele. Ela hesitou. — Eu não queria isso. Ele sorriu, com certa tristeza. — Ninguém quer o peso da verdade. Lia olhou para suas mãos. — E se eu não for forte o suficiente? O rei se aproximou. — Força não é não sentir medo — disse. — É seguir em frente apesar dele. Ela respirou fundo. — Então… o que eu faço agora? O rei olhou para o horizonte. — Você decide em quem confiar. E isso… Vai definir o destino de todos nós. Lia apertou a máscara contra o peito. Ela não era apenas uma aprendiz. Não era apenas uma filha. Ela era a escolhida. E, pela primeira vez… Ela entendeu o que isso realmente significava. A batalha estava apenas começando. Mas a verdadeira guerra… Era pela verdade. E Lia… Era a única capaz de enxergá-la.
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