Capítulo 10

1447 Words
Os dias começaram a passar mais rapidamente. Comecei a participar de alguns ensaios da banda como ouvinte e conselheira, apontando erros e fazendo sugestões. Nicolas sempre me ouvia e, por isso, mesmo os outros nem sempre entendendo, acatavam. Embora minha proximidade com o grupo tivesse aumentado, continuava sendo excluída das atividades esportivas. Mesmo quando me colocavam nos times, evitavam passar a bola para mim e eu não fazia questão alguma de correr atrás também. A primeira semana de provas havia passado, dando lugar aos famosos trabalhos em grupo. Ninguém além de Annie queria fazer grupo comigo. Isso era bom, significava que eu teria menos peso para carregar! — Você é muito inteligente! — Annie estava ao meu lado na frente do computador, observando a rapidez com que eu pesquisava e digitava o trabalho. — Está quase pronto! — Falei enquanto começava a fazer a conclusão. — Mas é para semana que vem! — Mais tempo livre para a gente! — Sorri ao imaginar que teria que passar menos tempo nessa escola por alguns dias. Eu costumava terminar meus deveres entre uma aula e outra, ou enquanto meus colegas ainda faziam exercícios que eu já havia acabado, então dificilmente levava coisas da escola para fazer em casa. — Quando tivermos que trabalhar com os velhos livros na biblioteca ano que vem, não vai ser assim. — Annie disse pensativa. — Por que precisaríamos trabalhar com livros? — Perguntei intrigada. — Por causa das disciplinas extras para os recém-nascidos lobos. As informações só estão nos livros. Eu não tinha pensado nisso até o momento. A maioria dos alunos completava dezoito anos até o final do segundo ano, começando a partir dali a sua jornada de lobo. Assim sendo, havia aulas específicas que iam desde a história dos lobos, geografia das fronteiras sombrias, descrição dos tipos de monstros que vinham de lá e o sistema de defesa adotado pelos clãs. Além disso, havia treinamento em combate duas vezes por semana e aulas sobre o regimento interno dos clãs. — Você ainda tem dezesseis, não é? — Assenti. Eu faria dezessete só no comecinho do próximo ano. Era uma idade muito precoce para o segundo ano de qualquer colégio em Siram. — Por que não pede dispensa da disciplina de controle e treinamento do lobo? — Uhn... Acha que vão me conceder? — A ideia me soou ótima. Como ninguém sabia que eu já tinha minha loba, eu poderia tentar apelar para isso. Dizer a verdade seria como admitir a todos que tenho sangue de outro clã, o que poderia gerar ainda mais comoção a meu respeito. Além disso, seria muito chato fazer treinamento com lobos recém-despertos e inexperientes. Terminei o trabalho e fui até a secretaria do colégio conversar com a diretora Silvia. Ela me recebeu prontamente com um enorme sorriso no rosto. — Eliza, vem! Entre! — Obrigada! — Sentei-me de frente para ela. Ela usava um conjunto social azul. Seus cabelos estavam amarrados em um coque, as rugas em seu rosto denunciavam o estresse de dirigir uma escola como essa ao longo dos anos. Seu batom vermelho escuro contrastava com sua pele branca e seus olhos castanhos claros. — Vim fazer um pedido. — Comecei educadamente. — Qualquer coisa para a melhor aluna da nossa escola! — Ela estava aberta demais, o que me deixou desconfiada e franzi a testa. Essa consideração não fazia muito sentido para mim já que eu estava nessa escola há menos de dois meses. — Recebi as notas da primeira semana de provas e seu nome está no topo. Você fechou em todas as disciplinas. Não podia esperar menos considerando o seu histórico incrível na Genius School. “Ela deveria mesmo te passar essa informação?” — Questionou minha loba. Eu mesma me fiz a mesma pergunta. Meu desempenho acadêmico em uma das escolas mais prestigiadas do mundo foi o motivo pelo qual consegui a vaga nesse colégio. Resolvi me explicar logo: — Bem, é sobre a minha idade e esse negócio de treinamento de lobo que haverá no próximo ano. É possível conseguir dispensa dessa disciplina ou trocar por outra? — Bem, o seu caso é mesmo excepcional. — Ela me olhou com um pouco de seriedade. — Acho que não haverá problemas se o seu professor de combate te dispensar da disciplina. Precisará falar diretamente com ele. — Está um pouco cedo para eu falar com ele? Devo esperar até o fim do ano? — Oh, não querida. Aproveite que as coisas estão calmas por agora e resolva isso de uma vez. — Certo. Agradeço! — Despedi-me após pegar as informações necessárias. Seguindo o trajeto que me foi instruído, andei pelos ladrilhos que havia atrás da escola e segui em direção à mata. Era minha primeira vez aqui. Toda a área à frente estava impregnada por um forte cheiro de lobos, o que irritava meu nariz sensível. Escondi-me atrás de uma árvore enquanto observava um homem solitário guardando alguns equipamentos em uma caixa próxima a uma cabana de madeira de tamanho médio. “Pelo visto a aula acabou mais cedo.” — Disse-me Lisa. “Imagino que ele seja o professor.” — Respondi mentalmente a ela, dando um passo à frente para me aproximar. O vento estava a favor dele, levando meu cheiro e fazendo-o virar a cabeça em minha direção. Assim que nossos olhos se cruzaram, minha loba o reconheceu imediatamente. “Companheiro!” Ignorei-a e dei mais alguns passos à frente. Tinha algo mais importante para fazer. Foi então que seu cheiro amadeirado me atingiu como uma flecha, fazendo meu coração disparar. Fiquei perplexa quando ele franziu a testa e voltou ao que estava fazendo, ignorando-me completamente. Isso foi bom, deu-me tempo suficiente para me recuperar psicologicamente. — Você é o professor de combate? — Perguntei timidamente. Ele continuou o que estava fazendo sem me responder. Parecia fingir que eu não existia, e isso era muito desrespeitoso. Me aproximei mais alguns passos cautelosamente e atenta. Eu faria a pergunta novamente. Algo dentro de mim preferia acreditar que ele simplesmente não tinha ouvido. — Por que quer saber? — Respondeu num tom ríspido quando eu estava a cerca de dois metros dele. O desespero em meu coração por saber mais sobre ele desapareceu. Senti meus punhos se fecharem frente à inquietação no coração de Lisa e resolvi ir direto ao assunto. — Sou do segundo ano. Vim pedir dispensa da sua disciplina para o ano que vem. — Respondi em um tom sério e frio. Não queria demonstrar o quanto a presença dele me afetava. Não havia a menor possibilidade de ele não saber que eu era a companheira predestinada dele. Sua frieza era proposital, fazendo minha loba ficar ainda mais ansiosa, e isso me deixava desconfortável. Eu precisava sair daqui o quanto antes. Já que ele não queria nada comigo, não era eu que iria ficar me jogando para cima dele. Eu não precisava disso! Ele parou o que estava fazendo e levantou-se ficando de frente para mim. Era mais alto e mais forte do que eu imaginava. Observei seus músculos bem construídos e seu rosto que parecia ter sido esculpido por um excelente artesão. Era inegavelmente bonito, mas a frieza e a crueldade estavam visivelmente estampadas em seu olhar. — Qual é a sua idade? — Perguntou-me secamente. — Dezesseis. — E o seu nome? — Não queria dizer para ele... não para ele! De qualquer forma, para conseguir a dispensa, eu precisava fornecer as informações que ele queria, e sendo o professor, ele poderia descobrir facilmente se assim desejasse. — Eliza Singer. — Respondi com o mesmo tom de impaciência que ele. — É só uma criança! Dispensada. Resolverei esse assunto mais tarde! — Ele virou-se de costas, tornando a me ignorar, e pegou aquela caixa de equipamentos pesada, carregando-a para dentro da cabana. “Ele nos ignorou mesmo, Eliza? Por que estava com tanta pressa para se livrar da gente?” — Senti minha loba se contorcer por dentro. Suas palavras chegaram a mim em choro enquanto eu saía a passos rápidos dali. — “Por que ele não nos quer? Ele não hesitou nem por um segundo em te tirar das aulas dele.” As reclamações dela não cessavam em minha cabeça e eu não consegui controlar a dor de Lisa invadindo o meu coração. “Você viu claramente!” — Respondi duramente a ela. — “Apenas ignore-o como ele escolheu fazer conosco!” Era fácil falar, mas é brutal para qualquer lobo superar uma rejeição de um companheiro predestinado, mesmo que indiretamente. Fui para casa e deixei que ela colocasse para fora todo o lamento de seu coração e chorei com ela.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD