Capítulo 11

991 Words
Liberei minhas garras numa transformação incompleta enquanto subia agilmente em uma árvore. Num hábil movimento, saltei usando o galho da frente para impulsionar o salto seguinte, mirando uma árvore mais fina a alguns metros de mim. Transformei ligeiramente minhas pernas em patas e concentrei a força de Lisa nelas, com o intuito de destroçar meu alvo. Senti mais o impacto do que a própria árvore, e permiti-me transformar por completo para amenizar a queda. Não consegui ficar de pé. Mudei ligeiramente para a forma humana, colocando o tornozelo deslocado de volta ao lugar, e retornei para a forma de lobo para me curar mais rapidamente. Mesmo com a cura acelerada, passaria algumas horas mancando ainda com o pé direito. “Isso dói.” — Reclamou Lisa. Deitei-me no chão, olhando para a árvore ainda de pé, mas com uma rachadura de ponta a ponta no tronco. Acredito que, para a maioria dos lobisomens, a escolha se limita entre permanecer na forma humana ou na forma de lobo. Como me empenhei desde cedo em manter o controle, aprendi a usar a força de Lisa sem ceder meu corpo, o que me permitia transformar-me parcialmente. Mais do que uma parte de mim, minha loba era também minha melhor amiga, então o diálogo era sempre estabelecido com respeito, visando uma cooperação cada vez mais firme e forte. — Vamos ficar fortes de todas as formas possíveis. Obrigada pelo seu esforço hoje! Por enquanto, vamos parar. Como recompensa, vou te deixar caçar um pouco. — Senti-a se agitar de alegria por dentro. — Desde que fique dentro dos limites que estabeleci. Quando a dor ficou suportável, Lisa começou a correr e ficamos farejando até encontrar um possível alvo. Assim que o detectamos, fomos à caça juntas e conseguimos a****r um cervo com sucesso. Assim como era ela que suportava a maior parte da dor na forma de lobo, também era ela que teria que suportar o gosto da carne crua, algo que ela amava. Deixei que se esbanjasse antes de voltar para casa. Adentrei sorrateiramente pela janela do meu quarto, como de costume. Fui furtivamente pelo corredor em direção ao banheiro e, após um banho rápido, retornei ao quarto e vesti um short simples com uma camiseta azul escuro. Meu quarto ficava voltado para os fundos e havia pertencido anteriormente à minha mãe. Sempre que eu fechava a porta, colocava uma placa de "ocupado". — Estava dormindo? — Perguntou minha avó assim que me sentei em frente a ela na sala. Ela estava sentada em uma velha poltrona amarela, tricotando um cachecol vermelho. — Estava estudando. — Respondi. Não era totalmente mentira, já que treinar é uma forma de estudo. — Mas você nem me respondeu quando te chamei para lanchar. — Desculpa, vó, é que eu gosto de estudar ouvindo música. Estava com fones de ouvido, então não ouvi nada. — Esses jovens de hoje em dia... — Ela riu suavemente, sem concluir onde queria chegar. Sentei-me ao lado dela, peguei um pedaço de papel e comecei a compor uma nova música. Era um típico e agradável dia de domingo. Passamos a tarde concentradas em nossos hobbies, sem deixar de desfrutar da companhia uma da outra. Minha tia não estava, já que nos fins de semana trabalhava no restaurante no centro da vila. Era início da noite quando meu celular tocou. — Alô! — Atendi, colocando a letra da música parcialmente pronta sobre a mesa. — Oi, Eliza! Aqui é o Nicolas. A banda recebeu um chamado de última hora para tocar no jantar da casa principal do clã. Bora lá pegar um rango grátis e você aproveita para conhecer o alfa. — Um jantar na casa do alfa? — Olhei de relance para minha avó, que tinha parado de tricotar e me encarava com um sorriso no rosto. — Vai ser uma boa oportunidade para você se apresentar ao alfa e ele ir conhecendo a sua história. Assim, vai ficar mais fácil para você conseguir permissão para sair a trabalho. — Não sei... — Minha avó ficou acenando com as mãos como se dissesse para eu ir. — Tem certeza? — Perguntei para ela, tapando o microfone do meu celular. — Vai! É uma honra poder participar de um jantar na casa do alfa. — Ok! — Respondi tanto para ela quanto para o Nicolas. — Liam e Annie vão passar para te pegar daqui a pouco. Até mais! Ele desligou antes que eu tivesse tempo de mudar de ideia. Fui para o quarto me arrumar o mais rápido que pude. Coloquei uma calça jeans comum, uma camisa branca com bordados florais delicados e um sobretudo bege. Enquanto me maquiava, ouvi o som de batidas na porta da frente. Enquanto terminava o que estava fazendo, minha avó veio até o meu quarto e penteou meus cabelos delicadamente enquanto eu concluía a maquiagem. — Seus amigos estão te esperando na sala. — Obrigada! — Agradeci. Assim que entrei na sala, Liam e Annie me cumprimentaram cordialmente. — Estou tão animada! — Exclamou Annie enquanto eu calçava minhas botas. — Vou te apresentar aos meus pais. Minha mãe é a cozinheira chefe da casa e a comida dela é maravilhosa. Você precisa experimentar! — Claro! Mas não vou conseguir comer muito. Estou cheia! — Respondi enquanto colocava meu cachecol quentinho e minhas luvas. — Isso não é verdade! Ela passou a tarde inteira estudando e não comeu nada. Pode tratar de comer direitinho enquanto estiver lá. — Sorri sem jeito para minha avó. Eu não poderia contar a ela, nem a ninguém, que quase comi um cervo inteiro na minha caçada. Afinal, para um cidadão de Siram, eu não tinha idade para ter minha loba. — Pode deixar, senhora Nilza. Agradeço por deixá-la vir conosco! — Depois a traremos de volta. — Disse Liam. Eles se despediram educadamente da minha avó, que estava toda sorridente. — Eu que agradeço por serem amigos da minha netinha.
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