― Esses brincos são aqueles a falar sobre a alma gêmea?
― Sim, comprei quando fui à cidade com Alex. Não acredito que funcionem.
― Funcionam, pois, eles são reais. Os únicos que existem. Fico perplexa como as coisas caem nas suas mãos, majestade. ― Briana os colocou nas orelhas de Elisie. ― Já pensou se ao chegar no reino de Darkeng e eles gritarem para o príncipe Dixon?
― Não acredito nessas coisas. ― Briana sorriu brincalhona e voltou para a cama.
― Bom que tudo que ficou no navio não mudou. Embora os criados não comentem, penso que eles também não esqueceram. ― Comentou mexendo na mala com os poucos vestidos que Elisie havia-lhe dado. Eram grandes demais para seu corpo infantil.
Elisie não se importou muito com essa revelação, a maioria dos servos que estavam no navio eram bruxos e antes, na outra vida juraram lealdade a ela e Dixon, mesmo que lembrassem, não sairiam por aí falando coisas que ninguém entenderia. Ela seguiu até a pequena cômoda em que uma carta com o símbolo de Margoth brilhava chamando a sua atenção.
― Ah! Essa carta chegou enquanto ainda estávamos a subir no vulcão. É de antes da magia acontecer. ― Explicou Briana ao ver a carta nas mãos de Elisie.
Era de Elena Allen, Elisie se sentou na poltrona, começou a ler silenciosamente:
Minha filha, Elisie Allen.
Sei que guarda muito rancor de mim e do seu pai, não pedirei para nos perdoar, ele foi errado em submeter-te a um casamento forçado, apenas por seus interesses próprios, confesso que ele já não é o homem pelo qual me apaixonei.
Depois de nossa conversa sobre o seu sequestro, pensei muito sobre isso e decidi escrever essa carta. Cassio pediu-me desesperadamente que nunca contasse isso para você, mas não dá para guardar isso para sempre.
A verdade é que você nunca foi sequestrada, nem a sua memória foi apagada pelo medo. Apagamos propositalmente uma parte dos seus doze anos. Fugiu quando o seu pai sugeriu um casamento diplomático entre o reino de Alexander.
Você seria a esposa de Alexyan Leican, o que por uma desgraça do destino foi o que no fim aconteceu.
Desde pequena os bruxos desejam você, isso você já sabe. Eles viam-na como a sua alma gémea, e por isso tinha medo dos homens bonitos, jurava que todos os homens lindos fossem bruxos cruéis. Na sua desastrosa fuga você escondeu-se numa caverna, nessa caverna havia na parede um lindíssimo quadro de uma mulher idêntica a você ao lado de um homem ruivo. Tentamos encontrar informação sobre eles, e como colocaram um quadro de tão boa qualidade em uma caverna escura e sinistra, mas não conseguimos descobrir nada.
Bom, para não prolongar mais essa carta, o fato é que você se encontrou com Alexyan nessa caverna. E quando ambos tocaram as mãos diante do quadro, memórias da suas vidas passadas voltaram. Vocês se lembram de como morreram.
Morreram juntos. Não odeie o rei Alexyan por nunca revelar que ele era o seu querido Cássio. Sim, sabíamos que vocês trocavam lindas cartas de amor. Espero que após saber o que de fato ocorreu, possam recomeçar e viver o amor que não puderam viver em outra vida.
Elisie amassou a carta, e com os olhos nublados correu como uma adolescente sem modos até o quarto de Alex.
― Elisie. ― Arfou ele, pelo susto. Ela estapeou seu rosto. Em seguida jogou a carta para ele, que leu apenas algumas palavras antes de murchar diante da fúria da princesa. ― É verdade. ― Admitiu se sentando na cama.
― Cássio? Você deve ter rido muito da minha cara de boba naquele dia três anos atrás, chorando por sua carta. E durante todos esses anos, casado comigo. Era isso que queria, não era? Todo esse tempo a única coisa que queria era casar comigo. O orgulho devia estar muito ferido, os homens não gostam de ser rejeitados. Principalmente os príncipes que já nascem com as estrelas nas mãos.
― Eli...
― Eu ainda não acabei. Quando chegarmos em Vrisan, seguirei o meu caminho para Margoth e você para o lugar que quiser. Mas bem longe de mim. Entendeu? Nunca mais quero ter nada a ver com você.
― Foi para o seu bem...
― Ocultar quem você era, enganar-me por três anos foi tudo pelo meu bem? Não creio que isso tenha sido pelo meu bem.
― Você não entende. Lembrar do passado, fez o nosso amor despertar, lindo como era, mas lembramos também da nossa morte. Elisie, a nossa morte foi h******l, você sofreu por muito tempo, até que eu fui atrás de bruxos para criar uma poção para apagar essa lembrança. ― Ele aproximou-se de Elisie, as mãos agarram nas bochechas dela, e as testas tocaram-se. ― Eu fiz tudo isso para não ver você chorar, meu amor.
― Não sou seu amor, Alex. Eu amo o Dixon, não pense só por que fomos amantes em outra vida, que seremos nessa também.
― Não peço que seja. Embora eu deseje que você me beije e diga que dessa vez não terá mais discórdia entre nós, nem tapas no rosto, nem asco pelos meus beijos roubados. Mas sabe, todas essas aventuras que vivemos ensinaram-me algo. Quem ama, não necessariamente deseja o toque. Quem ama de verdade, só quer a felicidade de quem ama. Eu te amo, Elisie Allen, pode ser por quem você é agora ou por quem você foi quando Laura, não importa, só importa que lhe amo e quero que seja feliz... sem mim. ― As palavras de Alex conseguiram tocar no mais profundo do coração dela.
Elisie enxugou as lágrimas do rosto dele com os polegares, tirou os cabelos negros de cima dos olhos, acariciou a sua bochecha e o abraçou. Um abraço que durou um longo e silencioso minuto. Naquele abraço um amor de vidas passadas despediu-se sem deixar mágoas.
― Eu agradeço por seu amor, agradeço por cuidar de mim. Agradeço pelos três anos que vivemos juntos. Mas nessa vida há apenas alguém que eu quero amar. ― Ela saiu do quarto, fechou a porta atrás de si e sentou-se no chão. O seu coração batia desesperado, levou a mão trêmula até os brincos que não paravam de gritar é ele… é ele...
Ela os arremessou no mar.
― Eu disse que não queria saber... eu não queria saber sobre almas gêmeas. Isso… é culpa dos deuses. Só Dixon pode ter o meu amor.