Havia diversas pessoas saindo e entrando do castelo, damas com os seus vestidos espalhafatosos e cabelos de ninho de pássaros. Cavaleiros com os seus ternos de cores escuras e feitos do tamanho do corpo, uns carregavam ostentosos bigodes, óculos de um só olho, relógios de bolso, luvas de seda.
Em cinquenta anos o castelo ainda estava como sempre foi. Excerto pelo jardim, o castelo do passado era apenas um longo campo verde, com umas raras árvores distantes.
E havia uma enorme torre no centro do castelo, mas não era como as outras de vigilância. Essa tinha uma janela de madeira tão pequena que só se podia enxergá-la se forçasse a vista.
Elisie se aproximou da rainha que a aguardava sentada à mesa saboreando seu chá. A rainha do passado era deslumbrante, os cabelos loiros ondulados, olhos verdes como esmeraldas. Porém, não parecia muito amável, e gentil.
Era do tipo venenosa, Elisie constatou, assim que se apresentou, e a rainha lançou-lhe um afiado olhar de desinteresse.
― Não precisa dessa formalidade, senhorita Ubert. Sente-se. ― As criadas serviam chá para Elisie antes de se afastarem. A rainha recomeçou:
― Ainda deseja que eu incrimine o seu querido Ezenkiel? Como sabe, o rei desconfia de que eu o traí com alguém, e como trouxe essa bruxa na última viagem, creio que a sua vingança não será branda. Por alguma razão sinto que essa criança nascerá com cabelos escuros. ― A rainha revirou os olhos.
Elisie tentou se manter calma, mas saber que Ezenkiel foi traído pela mulher que mais amava, e essa mulher fora ela do passado, a deixava com vergonha de si mesma. Como poderia ter sido tão baixa, tão c***l com alguém que só queria o seu bem?
― Não, majestade, a sua serva implora para que esqueça meu pedido mesquinho e c***l. ― Elisie deixou as palavras saírem.
― Odeio negociar com covardes.
― Lamento, majestade. Se eu pudesse reparar os meus erros... eu os repararia. ― A rainha curvou os lábios num sorriso c***l.
― Bom, se a criança que carrego nascer com cabelos loiros perdoarei a sua insolência. Porém, se nascer com cabelos negros como só os bastardos nascem, então o seu querido Ezenkiel será punido como amante da rainha. E eu, é claro, terei partido para bem longe desse imundo reino.
― Por favor, majestade, eu imploro, não faça isso. O seu filho sofrerá. Esse bebê não tem culpa de nada. Por favor, não destine essa criança a uma vida infernal e um final amargo.
― Você fala como se soubesse do final dessa criança. E sim, eu sei que o meu filho não tem culpa, mas o que posso fazer? É o rei quem decide se eu o trai ou não baseado simplesmente na cor dos seus cabelos.
― ... Perdoe-me, majestade, me excedi.
― Estou cansada, pode ir. ― Ordenou a rainha.
Elisie seguiu pelo mesmo caminho, a garganta ardia de mágoa por Ezenkiel, ele teria o seu fim trágico de uma forma ou de outra.
― Posso fazer o cabelo dele ser dourado. ― Sussurrou a bruxa no ouvido de Elisie, que se tremeu pelo susto.
― Você pode fazer isso?
― Não, estou sem um corpo. Mas a outra eu, pode. Vamos atrás de Beatrice.
― Ela não é má?
― Não, a bruxa nunca é má. Só a minha irmã, que é um fragmento meu, ela é a parte má da minha alma. Ou talvez eu seja a parte maligna da minha alma, não vamos esquecer que eu matei muitos homens. ― Sua voz vacilou quando afirmou aquela desastrosa verdade.
― Vá, procure ela. Diga para ela me encontrar no primeiro corredor, ao lado da cozinha. ― Ordenou Elisie, atenta aos guardas em cada canto do castelo.
Ela já ficava impaciente, quando saltos ressoavam atrás dela. Uma jovem de pele escura e brilhante, como só a pele dos deuses era, e os cabelos enrolados como nuvens banhadas pela noite escura. De fato, os bruxos e a bruxa eram os seres mais magníficos do mundo. Elisie se pegou desejando ver um deus na sua forma divina e eterna.
― Beatrice. ― Sussurrou Elisie.
― Explique o que foi isso. Como... a minha alma flutua por aí?
― Viemos do futuro, senhorita Beatrice, o filho deformado do seu irmão, que vive no vulcão de Saranta foi quem concedeu esse desejo.
― Entendo, mas para que você precisa voltar ao passado? Não é bom mexer com o passado.
― Para evitar uma tragédia. ― Beatrice a observou com mais atenção, Elisie pegou nas mãos da bruxa antes de começar:
― O rei exigirá de você uma maldição. Destinará um bebê a uma vida infernal com uma criatura presa ao seu coração.
― O feitiço da união de Almas. ― Exclamou Beatrice horrorizada.
― Sim, você unirá a alma de dois jovens ao coração do filho da rainha: ele nascerá com cabelos escuros, o que para o rei é a evidência da traição. Mas a criança é realmente filho do rei.
― Você veio até aqui para me pedir que não faça esse feitiço?
― Não, vim aqui para pedir que faça outro feitiço. Mude a cor do cabelo do filho da rainha. Tente fazer isso antes que ele nasça. Se o rei ver a criança com cabelos loiros, o destino não se realizará. E... sei que é c***l pedir algo como isso para você que a concubina do rei. Mas, ajude para que o relacionamento dela com sua majestade, o rei seja bom.
― Você consegue fazer isso? ― Perguntou Briana, ansiosa.
― Sim, posso fazer uma poção e colocar no chá da rainha.
― Por favor, Beatrice, mude o desastroso destino. No passado sofreu muito, se culpou até o último dia da sua vida. ― Beatrice suspirou, no seu rosto estava claro que acreditava em tudo o que Elisie falava. ― Obrigada, devo ir agora.
Ezenkiel voltou com Elisie para a casa dos Ubert. Seu olhar caloroso se voltava para ela toda hora, como se quisesse perguntar algo. Ou dissipar aquele silêncio preguiçoso. Por fim, a ansiedade o dominou, Ezenkiel se voltou para Elisie e perguntou o que dava voltas na sua mente desde que entrou na carruagem:
― Você ama o senhor Macléia, não é? Fugiram juntos. Eu vi... ― Ele parou engasgado com a mágoa doendo na sua garganta, os olhos azuis brilharam com as lágrimas presas. ― Eu vi quando vocês se beijaram.
― Ezenkiel...
― Você nem me chama mais de Zen, apenas Ezenkiel, nem olha nos meus olhos como antes. Embora eu pense que nem antes você me amava.
― Desculpe. ― Elisie pediu, sentindo-se mortalmente culpada, não iria tirar aquela dor do seu peito até que Mercúrio nascesse e o destino fosse mudado. Ela abraçou-o, pegando-o de surpresa. ― Eu realmente, do fundo do meu coração peço-te perdão.
― Serei um bom marido, darei todo o meu salário para você. Posso não ser filho de um barão como você, mas um general ainda é uma boa posição. Não passará necessidades. ― Elisie queria revelar que ela não era a Laura, que não podia prometer ficar com ele, pois daqui alguns dias ou mês voltaria para seu tempo e a verdadeira Laura fugiria com o noivo da irmã. Mas vê-lo frágil, deprimido e a deriva da ansiedade que o consumia, ela não conseguiu fazer nada além de o abraçar mais apertado.
― Podemos dar um passeio amanhã pela tarde? ― Sugeriu Ezenkiel na porta da casa dos Ubert.
― Não acredito que eu tenha tempo.
― Irmãzinha, por que rejeita o seu noivo? Zen, vamos todos os quatro no campo das azaleias.
― Campo das azaleias? ― Lorelai lançou uma cara estranha para Elisie, como se dissesse quem é você que não se lembra de algo tão comum.
― O que me diz, Laura?
― Tudo bem, vamos. ― Lorelai abriu um largo sorriso, enlaçou o seu braço ao de Elisie e a arrastou para dentro da casa. A amizade entre as irmãs parecia superficial. Era como se fingissem que se davam bem, porém por dentro se odiavam com todas as forças.
― Briana? ― Elisie a chamou olhando pela janela do quarto de Laura.
― Sim, o que foi?
― Será que... Dixon vive nesse tempo?
― Ninguém sabe, os deuses não gostam muito de ter trabalho, e apenas vão revivendo quem morreu. Ele pode viver nesse tempo, mas não sabemos se ele é uma criança ou um idoso.
― Não me importa se ele é um idoso ou uma criança. Só queria encontrá-lo.
― Ma... Elisie, não tem intenções de viver aqui, não é? Você já não é Laura Ubert, é Elisie Allen.
― Você fala como se se eu ficasse no meu antigo corpo o mundo entraria em caos.
― Pode entrar. Os deuses odeiam quando são contrariados. ― Elisie suspirou, os deuses, os seres que não se importavam com os humanos, se incomodavam demais para quem não se importava. Era certo, os humanos eram seus brinquedos. Elisie mordeu o lábio inferior, devia ter escolhido voltar no passado mais distante, em um passado onde a deusa Bruxyns e o seu irmão foram colocados na terra.
Se ela tivesse voltado nesse tempo, impediria que a bruxa e os bruxos existissem.
― Elisie, você acha que Beatrice irá fazer o que pedimos?
― Você disse que a bruxa não é má.
― Eu sei..., mas ela pode amar o rei. Quem ama costuma se tornar perverso.
― Se isso acontecer, então mataremos Mercúrio. ― O corpo de Briana se tornou translúcido por uns instantes, devido ao impactante que foram essas palavras, Elisie não se importou, sabia da maldade de Mercúrio, por essa razão não tremia ao pensar em m***r um pequeno bebê.
Gargalhou, gargalhou tanto que suas bochechas ficaram vermelhas e dos olhos saíram lágrimas.
― Você tem razão, Briana. Quem ama se torna perverso.
***
― Minha querida Laura, você está adorável hoje. Sinto que as azaleias ficarão com inveja. ― Elisie sorriu sem mostrar os dentes.
― Obrigada, Ezenkiel. ― Elisie agradeceu finalmente desvencilhando suas mãos. Trocou um breve olhar com Alex que era arrastado para um canto e para outro com Lorelai.
Sabia que Briana já contara tudo o que acontecera no dia anterior, porém, ela queria conversar sobre isso com ele pessoalmente.
― O clima está divino, não é? ― Insistiu Ezenkiel em iniciar um longo diálogo.
― Sim, muito agradável. Podemos encontrar logo um local para sentarmos? ― Ficaram debaixo de um salgueiro. Talvez o maior salgueiro que Elisie já tenha visto.
― Irmã, vamos pedir ao papai que nos casemos juntas? ― Lorelai se agarrava no braço de Alex com uma possessão óbvia. Elisie forçou um sorriso, nem mesmo as concubinas de Alex se mostravam tão agressivas e hostis. Ezenkiel pegou um pedaço da torta de morango e a ergueu para Elisie:
― Diga ah.
― Desculpe, sinto-me um pouco sufocada, vou caminhar um pouco. ― Disse praticamente correndo para longe de onde estavam. Ezenkiel ia segui-la, porém Alex o impediu fazendo perguntas que só eles sabiam a respeito.
― Nunca soube de um campo de azaleias... Provavelmente não exista mais no meu tempo. ― Murmurou Elisie acreditando que Briana estaria ao seu lado, porém não obteve resposta. ― Ele nunca plantou azaleias...
― Você gosta? ― Perguntou alguém atrás dela. Ele estava de costas para o sol, Elisie forçou a vista para ver além daquela silhueta. Ele deu um passo para perto.
― Eu mesmo os plantei. ― Continuou ele, carregando um largo sorriso.
Elisie cobriu o soluço com uma das mãos.
― Senhorita, está se sentindo m*l? ― Embora ele fosse uns vinte anos mais velho, mais musculoso, a sua pele fosse mais bronzeada, os cabelos castanhos e os olhos pretos mais comuns que Elisie já vira. No seu coração ela sentia conhecer aquela pessoa.
Ele aproximou-se ainda mais, o rosto tomado pelo pânico.
― Senhorita, por favor, diga algo. Estou ficando preocupado.
― Q-qual o seu nome? ― As sobrancelhas dele se curvaram.
― Meu nome? Lamento, comecei a falar e nem me apresentei. Senhorita, eu sou Caled, um simples plebeu, trabalho com flores.
― Caled... aquele que dura para sempre.
― Que?
― Seu nome significa aquele que dura para sempre. ― Ele sorriu sem graça, levando uma mão aos cabelos curtos.
― Quem dera durar para sempre. Eu poderia cuidar do meu campo de azaleias por muitos e muitos anos. E a senhorita? Como se chama?
― Elisie.
― Lindo nome.
― Suas flores são lindas. É difícil ver azaleias aqui no reino.
― Não é? Eu acho as flores cheias de vida, embora seja trabalhoso cuidar delas.
― É romântico. Você se acha um romântico, Caled?
― Se eu me acho um romântico? Quem no mundo não é um tanto romântico? ― Elisie assentiu com um sorriso. Caled não conseguia olhar nos olhos dela por muito tempo, hora ou outra desviava, constrangido. Por fim, ele suspirou e despediu-se:
― Feliz em conhecê-la, senhorita Elisie. Aproveite o campo, e cuidado para não ir muito para aquele lado, senão vai acabar entrando na floresta e se perderá. ― Ele pegou o seu material de jardinagem e seguiu para longe cantarolando.
― Laura? Demorou tanto que resolvi vir atrás de você.
― Ah! Zen... ― Elisie se lançou nos braços calorosos dele e chorou, era o que queria fazer com Caled, o seu Dixon. Seu amor.
― O que foi? Por que está chorando?
― Estou feliz, estou muito feliz.
Durante a tarde da quinta semana receberam a notícia:
A rainha entrara em trabalho de parto.