A SINFONIA DO ABATE: O ATO DO PREDADOR
(Narrado por: Henrique "Maestro" Falcão)
O som do metal batendo contra o concreto era o meu metrônomo matinal, uma percussão seca e rítmica que anunciava o despertar de um novo movimento na minha ópera de sangue. O pavilhão acordou com aquele cheiro de café ralo, que mais parece água de batismo de mendigo, misturado com o pavor que eu deixei pairando no ar desde o espetáculo com o Silva. O medo tem um cheiro específico, tá ligado? É um odor ácido, metálico, que gruda nas paredes e faz os ratos de farda tremerem antes mesmo de abrirem o primeiro portão.
Eu não dormi. Eu não preciso de sono quando a sinfonia está no clímax, quando cada nervo do meu corpo vibra na frequência da destruição. Passei a noite inteira sentado na escuridão da Cela 13, revisando as notas, os gritos harmônicos e, principalmente, aquele brilho de terror absoluto nos olhos daquela ovelhinha ruiva que o Estado me enviou de presente. Lorena Vaz. O nome dela ainda vibrava na ponta dos meus dedos, exatamente onde eu senti a pressão final antes de esmagar a visão daquele traidor. Eu podia sentir a textura da pele dela no meu toque, o sal das lágrimas dela temperando o sangue quente que escorria pelo meu pulso. Ela foi o melhor instrumento que já entrou no meu palco.
Eu estava sentado no meu banco de concreto, observando o jogo de luz e sombra nas paredes, quando o portão hidráulico da ala gemeu como uma alma sendo arrastada pro abismo. Não era o passo vacilante e pesado da "santinha" trazendo o meu desjejum. Era um ritmo que eu reconheceria até no meio de um tiroteio de fuzil ponto cinquenta lá no Alvorecer. Passos leves, rápidos, desrespeitosos com a gravidade e com a opressão daquele lugar. Passos de quem acha que o mundo é um parquinho de diversão.
— Maestro, visita na sala de parlatório. É prioridade máxima, ordem lá de cima — anunciou o Agente Rocha. A voz do verme estava trêmula, um chiado de rádio velha. Ele mantinha aquela distância de segurança que eu impus a todos eles, como se eu fosse uma granada sem pino pronta pra detonar.
Levantei-me sem pressa, com a elegância de um monarca que caminha para o cadafalso. Ajustei meus ombros, sentindo a tensão das tatuagens de caveira na pele fria. Caminhei pelo corredor e o silêncio me seguiu como uma sombra obediente; os outros presos recuavam pros cantos das celas, prendendo a respiração, temendo que o meu olhar cruzasse com o deles e eu decidisse que a música do dia precisava de um novo sacrifício.
Quando entrei na sala de visitas, o vidro blindado era a única coisa que separava dois universos distintos. Do outro lado, sentado de qualquer jeito, com as pernas esticadas e um sorriso que desafiava a própria estrutura de segurança máxima daquela prisão, estava o meu problema de sangue. Rocco. O meu irmão caçula, a nota desafinada da minha linhagem, mas o único que ainda carregava um resto da minha paciência.
Ele estava com uma jaqueta de couro que custava o preço de uma vida na favela, o cabelo loiro bagunçado e aquele ar de quem acha que a existência é uma piada interna que só ele entendeu. Assim que me viu, ele não se levantou; ele simplesmente bateu no vidro com os nós dos dedos e abriu um sorriso largo, exibindo aquela fileira de dentes perfeitos que nunca viram a poeira de um confronto de verdade.
— Caramba, mano! p**a que pariu! — a voz dele veio pelo interfone antes mesmo de eu sentar. — Esse visual "rei do calabouço" realmente combina contigo, Henrique. O Alvorecer tá um tédio sem você pra dar esporro em todo mundo e mandar o povo pro micro-ondas. Os moleques tão lá se matando por causa de carga de dez, sem o teu toque de mestre pra organizar a bagunça.
Eu me sentei devagar, a face dura, os olhos cinzas cortando qualquer tentativa de i********e como se fossem lâminas de bisturi. Não peguei o interfone de imediato. Apenas o encarei, deixando que o peso da minha presença o sufocasse através do vidro. O silêncio é a minha arma favorita, e Rocco, sendo o brincalhão folgado que é, sempre tenta preenchê-lo com bobagens pra não sentir o gelo que eu emano.
— Falei que não queria que você metesse os pés aqui, Rocco — minha voz saiu seca, fria, uma lâmina que atravessou o vidro antes mesmo dele processar o som. — O que você está fazendo fora do morro, seu moleque irresponsável? Eu te dei ordens claras. Você deveria estar cuidando da logística no setor sul, não desfilando essa sua cara de playboy de condomínio em presídio de segurança máxima.
— Ah, qual é, Henrique? Não começa com o sermão de Maestro que eu não sou teus soldados, hein? — ele soltou uma risadinha, totalmente alheio ao clima de morte que eu carregava. — Senti saudades do meu irmãozão, ué. E também, os negócios precisam de um toque de classe, sabe como é? O pessoal tá achando que você virou santo aqui dentro porque tá lendo muito a Bíblia da Cela 13. Tão dizendo que tu tá até dando curso de anatomia pros guardas, é verdade? Ouvi falar que o Silva agora tá vendo o mundo de um jeito mais "profundo"... ou melhor, não tá vendo é p***a nenhuma!
Ele gargalhou, uma risada limpa e despreocupada que ecoou na sala vazia. Rocco é o único ser humano que não abaixa a cabeça pra mim, não por coragem, mas por uma estupidez genética que o faz acreditar que o laço de sangue o torna imune à minha crueldade.
— Eu não volto pro morro agora, Rocco. Eu governo daqui. E você é um i****a por se expor desse jeito — inclinei o corpo para frente, a sombra do meu rosto cobrindo o dele através do reflexo no vidro blindado. — Se a polícia resolve investigar esse seu sorriso fácil e essa sua jaqueta de grife, você vai acabar numa cela comum, servindo de marmita pra bicho muito pior que eu. Saia daqui. Agora. Volte pro morro e certifique-se de que a carga de amanhã chegue limpa e sem rastro. Se você aparecer aqui de novo sem a minha permissão, eu mesmo vou garantir que você nunca mais sinta o calor do sol no rosto. E tu sabe que eu não blefo, nem com família.
Rocco murchou por um segundo, o sorriso vacilando diante do veneno gélido nas minhas palavras. Ele sabe que eu sou capaz de transformar o pescoço dele num instrumento de cordas se ele atravessar o meu caminho. Mas a murchada durou pouco. Ele é como uma barata: você pisa e ele continua correndo.
— Credo, Henrique. Tu tá mais seco que deserto em dia de sol senegalês, na moral — ele soltou o ar, metendo aquele sorrisinho de lado de novo, encostando o fone no ouvido com a folga de quem não sabe o que é ter o cano de um fuzil gelado na nuca.
— Só vim te dar um abraço... figurativo. Mas já que tu tá nesse pique de "regente do inferno", vim ver se tu vai querer uma visita íntima pras próximas semanas.
Ele deu uma piscadela e encostou mais no vidro, baixando a voz pra um tom de conspiração maliciosa.
— Aquela última p**a que eu te trouxe, a loira da zona sul, ainda pergunta de tu, sabia? Diz que o Maestro tem uma pegada de mestre que faz qualquer uma revirar os olhos e esquecer até o próprio nome. Ela diz que nunca viu ninguém tão frio na cama e tão quente na hora de dominar. Quer que eu mande trazer ela ou alguma outra carne nova pra tu descarregar essa tensão de cadeia? O estoque tá alto no morro, mano. Só escolher a raba, a cor e o tamanho. Tem uma novinha que chegou da fronteira que é um espetáculo, faz qualquer preso esquecer que tá atrás das grades.
— Esquece a p**a, Rocco. Meus apetites mudaram e a música que eu quero ouvir agora não vem de gemido pago e fingido de p*****a do asfalto — respondi, inclinando o rosto pra luz, deixando que ele visse o vazio absoluto e a perversidade nas minhas pupilas. — Eu quero outra fita. Outro tipo de entretenimento.
— Outra fita? Tu tá ficando exigente, hein? — Rocco riu, coçando a barba rala. — Vai dizer que agora quer música clássica e vinho tinto na cela?
— Eu quero que tu investigue tudo, absolutamente tudo, sobre uma tal de Lorena Vaz — sibilei o nome, sentindo o peso da palavra na minha língua. — Quero a ficha completa dessa c****a. Onde ela mora, com quem se deita, o que ela come, se ela tem filho e, principalmente, o que ela esconde debaixo daquela saia de crente e daquela farda que tá pedindo pra ser rasgada em mil pedaços.
Rocco franziu o cenho, o sorriso de deboche morrendo aos poucos, substituído por uma curiosidade genuína. Ele conhece o meu tom. Quando eu dou um nome, aquele nome tá sentenciado a virar uma nota trágica na minha sinfonia de dor.
— Lorena Vaz? — ele repetiu, processando. — Ah, pera... a ruivinha metida a santa que entrou na escala da segurança máxima ontem? Eu vi ela passando pelo portão principal quando eu tava chegando. p**a que pariu, Henrique! O que essa marmita de igreja tem de tão especial pra tu gastar neurônio com ela? É só uma agente de bosta, uma ovelha perdida que cheira a sabão barato de coco e medo. Tem cara de quem reza antes de cagar, mano. Tu vai trocar uma loira de elite por uma crente de farda?
— Ela vai ser a minha obra-prima, Rocco. A minha solista particular — sussurrei, a voz vibrando de uma antecipação doentia que fez os pelos do meu braço tatuado se arrepiarem. — Traga-me algo que eu possa usar contra ela. Algum r**o preso, algum segredo sujo, alguma mancha no passado daquela "pureza" que faça ela cair de joelhos e implorar por piedade antes mesmo de eu meter a mão naquela pele de leite. Eu quero o controle total da alma dessa "santinha". Ela acha que serve a Deus e ao Estado, mas aqui dentro, ela vai descobrir que o único p*u que dita as regras é o meu. Ela vai ser minha, Rocco. Minha informante, minha diversão, minha c****a de luxo. Vou transformar a pureza dela no meu inferno particular e vou adorar ver ela se perdendo no meu ritmo, nota por nota, até que não sobre nada daquela dignidade de fachada.
Rocco assentiu, engolindo em seco pela primeira vez naquela conversa. O brilho brincalhão sumiu de vez, dando lugar ao entendimento de que eu estava caçando. E quando eu caço, eu não deixo sobreviventes inteiros.
— Deixa comigo, Maestro. Se tu quer a ruiva, tu vai ter a ruiva — ele disse, a voz agora mais séria. — Vou revirar a vida dessa c****a do avesso. Vou varrer até o que ela confessou pro pastorzinho do pai dela naquela igreja de fundo de quintal que eles têm. Vou achar o ponto fraco, a ferida aberta, e vou te entregar de bandeja pra tu destruir. Se ela tiver um segredo escondido no fundo do baú, eu coloco na tua mesa amanhã.
— Faça isso. E faça rápido. A paciência não é uma das minhas virtudes — bati com o nó dos dedos no vidro, um som seco que encerrou o assunto.
— Mas na moral, mano... — Rocco soltou um riso anasalado, tentando recuperar o ar de deboche pra não parecer intimidado. — Não achei que você curtia esse estilo "sacrifício de virgem". A mina é toda fechada, parece que saiu de um comercial de margarina gospel, toda engomadinha. Achei que tu gostava de carne com mais tempero, das que sabem o que é um "corre" de verdade. Essa aí vai quebrar no primeiro acorde, Henrique. Tu vai acabar com ela antes do refrão.
Eu inclinei a cabeça, sentindo o peso do meu domínio e a frieza que corre nas minhas veias como se fosse nitrogênio líquido. Olhei fixo para ele, deixando que o silêncio fizesse o seu trabalho de desconforto final.
— Eu gosto de carne, Rocco. E não de osso. O que me instiga não é o que ela mostra pro mundo, é o que ela tenta desesperadamente esconder debaixo daquela postura de santa intocável. O prazer supremo não tá na carne fácil, tá em sentir a resistência quebrando, em ouvir o som do caráter se estilhaçando, em ver a pele de leite manchar de pavor e prazer proibido. Agora vaza. Já te dei a ordem. Não me faça repetir ou a próxima vez que a gente se ver vai ser através de um saco preto.
Rocco levantou as mãos em sinal de rendição, mas ainda meteu aquele brilho de deboche no olho, a audácia que só ele tem.
— Já entendi, meu regente das trevas. Vou buscar os teus detalhes e a chave pra abrir essa porta. Fica suave que amanhã tu tem o mapa da mina de ruiva. Vou descobrir até a cor da calcinha que a santinha usa pra ir pro culto. Fui!
Ele desligou o fone com um estalo e sumiu pelo corredor, o som dos seus passos ecoando na estrutura de concreto como uma promessa de caos. Eu fiquei ali, sentado no parlatório por mais alguns minutos, saboreando a ideia da Lorena Vaz de joelhos na minha frente, dentro da Cela 13, limpando o rastro da minha última execução enquanto o suor do medo escorre pelo pescoço dela.
Eu podia imaginar o cenário: o cheiro de ferro do sangue, a luz amarela piscando, e ela, a filha do Pastor Silas, descobrindo que o inferno não é um lugar pra onde se vai depois da morte, mas sim o lugar onde ela escolheu trabalhar. Eu ia ensinar pra ela uma nova liturgia. Uma sinfonia onde ela seria o instrumento principal, e eu, o único mestre capaz de arrancar dela os gritos mais agudos de desespero e rendição.