O BATISMO NAS TREVAS: A QUEDA DA OVELHA
(Narrado por: Lorena Vaz)
O ar lá fora estava úmido, saturado com a promessa de uma chuva que nunca desabava, mas pela primeira vez em anos, ele não parecia sufocante. Cada passo que eu dava para longe daquela casa de fachada santa, deixando para trás o eco dos sermões coléricos do Pastor Silas, era um prego a menos na minha alma. Eu segurava a mão do Samuel com uma força quase desesperada, não para contê-lo, mas para me certificar de que ele era real, de que ele estava ali, vivo, e de que aquele monstro que se dizia meu pai e servo de Deus não tinha conseguido apagar o brilho da sua existência. Eu o estava levando para longe do deserto de afeto daquela cozinha, e o peso que saía das minhas costas era quase inebriante.
Caminhei até a creche em um silêncio que gritava dentro de mim. O Samuel estava quietinho demais, o trauma daquela manhã ainda refletido naqueles olhos que deveriam conhecer apenas as cores primárias e os desenhos de dinossauros. Quando chegamos ao portão, eu me agachei para ficar na altura dele, ignorando a dor nos meus joelhos e o tremor nas minhas mãos.
— Escuta a mamãe, meu furacão. Olha para mim. — Esperei ele focar aqueles olhos puros nos meus. — Tudo o que aconteceu lá atrás... não é culpa sua. Você é a melhor coisa que aconteceu na vida da mamãe, ouviu? Você é uma bênção, não importa o que as estátuas de sal digam. — Beijei a testa dele, aspirando o cheirinho de shampoo infantil que era o meu único calmante. — Hoje a mamãe vai trabalhar em um lugar sério, um lugar difícil, mas é para a gente ter o nosso canto. Um lugar onde você vai poder desenhar em todas as paredes se quiser, e ninguém vai te punir com o silêncio.
Ele me deu um abraço apertado, daqueles que parecem costurar as partes quebradas da gente, e entrou sem olhar para trás. Fiquei ali, vendo-o sumir no corredor colorido da creche, e senti uma máscara de ferro, fria e impenetrável, descendo sobre o meu rosto. A Lorena "filha do pastor" morreu naquele portão. A mulher que nasceu ali era uma loba ferida, pronta para encarar o lixo da sociedade para garantir que o leite do seu filho nunca faltasse.
Peguei o ônibus para o complexo penitenciário de Porto n***o. O trajeto foi uma descida lenta aos círculos do inferno. Atravessamos bairros onde o asfalto parecia ter desistido de lutar contra a poeira e a miséria, onde a arquitetura era feita de tijolos aparentes e esperanças soterradas. Quando o imenso muro cinza da Penitenciária de Segurança Máxima surgiu no horizonte, senti um calafrio que não vinha do vento. Era o presságio.
No vestiário feminino, o ritual de transformação se completou. Vesti a farda azul-marinho; o tecido era áspero, pinicava a pele e exalava um cheiro de naftalina e estoque antigo, como se estivesse impregnado com o suor de quem já desistiu da humanidade. Prendi meu cabelo ruivo em um coque tão apertado que meus olhos levemente repuxaram, alterando minha fisionomia para algo mais severo, mais vigilante. Eu precisava daquela armadura de brim e botinas pesadas.
Passei pelos detectores de metal que apitavam como sentinelas histéricas, pela revista invasiva que violava minha última barreira de privacidade, e atravessei o pátio central. Ali, o sol batia de um jeito c***l, sem oferecer calor ou vida, apenas uma exposição crua que destacava as cicatrizes do concreto. O Agente Rocha já me esperava na entrada do Bloco V, o setor de isolamento. Ele tinha um palito de dente no canto da boca e um olhar de quem já tinha visto o fim do mundo tantas vezes que o apocalipse seria apenas mais uma terça-feira tediosa.
— Vaz? Primeiro dia, né? — a voz dele era rouca, gasta por décadas de tabaco e gritos.
— Sim, senhor. Primeiro dia. — Minha voz saiu firme, embora o peso da farda parecesse esmagar meus pulmões, dificultando cada inspiração.
Rocha me avaliou com uma lentidão desconfortável, demorando-se no meu rosto pálido e na rigidez da minha postura. Ele soltou uma fumaça densa de cigarro que ficou pairando entre nós como uma cortina de fumo.
— Escute bem, Vaz. — Ele se aproximou, e eu vi o suor escorrendo pelo pescoço dele, apesar do frio artificial e glacial que começava a emanar daquele pavilhão. O sussurro dele era um fiapo de som, carregado de um pavor que ele tentava mascarar com cinismo. — Na cela treze não mora um detento comum. Mora o cão. O inferno tem um regente aqui dentro, um sujeito que não segue a música do Estado, mas a própria sinfonia. O Maestro. Não ouse olhar nos olhos dele. Não respire perto da grade. Se ele sentir o cheiro do seu medo, ele vai te desmembrar psicologicamente antes que você consiga sequer registrar o ponto de saída. Ele não mata corpos, Vaz. Ele mata almas.
O ar dentro do Bloco V era uma ofensa aos sentidos. Para mim, Lorena, cada inspiração parecia uma profanação dos meus pulmões. Era uma mistura densa de poeira de concreto desintegrado, fluidos corporais secos, desinfetante barato que não limpava nada e aquele cheiro metálico, doce e pegajoso de sangue que parecia ter impregnado até as fundações daquela masmorra. Senti que aquele ar estava me contaminando, corroendo a camada de pureza que o Silas tentara me impor com sermões cuspidos e castigos físicos.
O portão hidráulico se abriu com um guincho agudo, um lamento metálico que parecia o grito de mil almas condenadas sendo esfoladas vivas simultaneamente. O barulho fez o chão vibrar sob minhas botas. Entramos no corredor da morte.
O corredor era uma galeria de horrores. Nas primeiras celas, o caos era uma sinfonia ensurdecedora de insanidade. Homens com olhos injetados de ódio e abstinência se penduravam nas grades, os dedos como garras projetando-se para fora, tentando alcançar qualquer pedaço de vida que passasse por ali. Ouvi obscenidades que fariam os demônios corarem, disparadas como projéteis contra mim. O cheiro de fezes queimadas e urina velha formava uma barreira física, dificultando minha caminhada. Os presos batiam canecas de alumínio contra o metal, produzindo um ritmo caótico que entrava pelos meus ouvidos e parecia ecoar dentro do meu crânio, desestabilizando meu equilíbrio.
— Olha a carinha da novata! Sangue novo no matadouro! — um deles gritou, e o som da sua risada era como o raspado de uma gilete enferrujada em um vidro.
— Ei, freirinha! O que você esconde debaixo desse uniforme? Deixa eu te mostrar o que é o paraíso antes de você ir para o inferno! — outro rugiu, acompanhado por uma gargalhada gutural que me seguiu como uma sombra pegajosa.
Eu mantinha meus olhos fixos nas manchas de fluidos desconhecidos e sangue seco no chão de concreto, desenhando mapas de uma violência ancestral. Apertava a prancheta contra os s***s, tentando esconder a pequena cruz de prata que balançava no meu pescoço um símbolo que, naquele lugar, parecia mais uma piada de mau gosto do que uma proteção divina. Sentia que se fizesse contato visual, seria devorada por aqueles olhares predatórios.
Mas, conforme avançávamos para o final da galeria, algo aterrorizante aconteceu. O barulho morreu. Os gritos cessaram em uma sincronia perfeita e absoluta, como se uma mão invisível tivesse cortado as cordas vocais de cada detento simultaneamente. O silêncio que se instalou era predatório, um vácuo sonoro que exercia uma pressão insuportável sobre os meus tímpanos. Os presos das celas dez, onze e doze recuaram para as sombras mais profundas, agachados como animais que sentem a proximidade de um predador de topo na cadeia alimentar. Eles não temiam a guarda ou o fuzil; eles estavam aterrorizados pelo vizinho da cela treze. O medo deles era uma névoa fria que eu podia sentir arrepiar os pelos do meu braço.
— Por que eles pararam? — sussurrei, minha voz soando estrangeira para os meus próprios ouvidos.
Rocha não respondeu. Ele estancou a cinco metros da cela treze, a mão direita tremendo visivelmente perto do coldre, embora seus olhos mortos revelassem que ele não teria coragem de sacar a arma. Ele apenas indicou o final do corredor com um aceno de cabeça espasmódico, forçando-me a avançar sozinha para o epicentro do pesadelo.
A cela treze não era uma cela; era um altar de horror organizado. Estava impecavelmente limpa, um contraste bizarro com a imundície do resto do pavilhão. Exalava um frio sobrenatural. Henrique Falcão, o Maestro, estava lá. Ele não era o monstro desgrenhado que eu esperava. Tinha traços aristocráticos, uma beleza fria e pervertida, mandíbula quadrada e olhos de um cinza gélido, desprovidos de qualquer centelha de humanidade ou empatia. Estava sem camisa, exibindo uma pele coberta por tatuagens negras que pareciam se mover sob a luz doentia da lâmpada fluorescente. No seu peito, uma coroa de espinhos envolvia o nome do seu domínio: Morro do Alvorecer.
Mas o que me fez perder o chão e sentir o estômago dar voltas foi a cena no centro da cela. Preso a uma cadeira de ferro parafusada no chão por correntes de arame farpado, estava um homem. Era o Agente Silva. O rosto dele era uma massa irreconhecível de carne viva, sangue e desespero. O Maestro segurava um estilete cirúrgico com a delicadeza de um mestre violinista. Ele estava realizando uma "cirurgia" artística, com uma calma que me causou uma náusea violenta.
Ele se virou devagar ao notar minha presença. O horror que vi me fez cair de joelhos, o impacto do concreto ecoando no meu corpo paralisado. Nas mãos do Maestro, brilhando sob a luz amarela, estavam dois globos oculares. Inteiros. Ainda conectados por finos fios de nervos e tecido sangrento que pulsavam com um resto de vida. Eles pingavam um líquido viscoso, uma mistura de humor vítreo e sangue, no chão de concreto, produzindo um som rítmico: ploc... ploc... ploc...
— Você está testemunhando isso, Lorena Vaz? — A voz dele era um barítono aveludado, mas carregava uma lâmina de gelo em cada sílaba. Era um sussurro melódico que parecia vibrar dentro dos meus ossos. — Este pobre infeliz, o Agente Silva, achou que poderia desviar o olhar dos meus negócios. Achou que o Maestro estava cego para a sua pequena traição no Alvorecer. Mas na minha orquestra, ninguém desafina sem pagar o preço. E a visão... ah, a visão é um preço muito alto para quem não sabe olhar com respeito, não acha?
O Agente Silva soltou um som não era um grito humano, era um borbulhar gutural, o som do ar tentando passar por uma garganta inundada de sangue. Ele não tinha mais olhos. No lugar deles, havia apenas duas crateras escuras, abismos de carne que vertiam um sangue espesso, quase n***o. O Maestro caminhou até a grade com uma elegância predatória, segurando os olhos do homem como se fossem joias raras, exibindo a atrocidade para mim.
— Você tem olhos bonitos, Lorena. — Ele se aproximou tanto que o hálito dele, com cheiro de tabaco, menta e morte, atingiu meu rosto. — Olhos que carregam esse cheiro de incenso de igreja, de santidade de fachada, que me causa uma profunda repulsa. Você acha que o seu Deus, o Deus do seu pai Silas, está vendo o que eu faço agora? Eu garanto que Ele fechou os olhos. Diga a Ele que, se quiser assistir à minha sinfonia, terá que descer aqui, porque neste setor, quem governa a visão, a vida e a morte, sou eu.
Ele estendeu a mão enluvada de sangue por entre as grades. Eu queria gritar, queria correr até Porto n***o sumir no horizonte, mas o terror primordial tinha desligado meus músculos. Ele tocou meu rosto com os dedos sujos de sangue quente. O contato daquele sangue com a minha pele pareceu me queimar como se fosse ácido sulfúrico, deixando um rastro pegajoso, fétido e repugnante na minha bochecha.
— Por que você está chorando? — Ele inclinou a cabeça, os cabelos loiros caindo sobre o rosto, deliciando-se com o sal das minhas lágrimas que se misturava ao sangue do Silva na minha pele. — Eu apenas estou ajudando este rapaz. Se ele não queria ver o meu poder, agora ele nunca mais terá que se preocupar com a luz do dia. Ele terá apenas a escuridão que eu comandei para ele.
Com um movimento seco, abrupto e c***l, o Maestro fechou a mão, esmagando os dois globos oculares na palma. O som daquilo explodindo — um splash úmido, viscoso e nauseante — foi o acorde final daquela tortura. O fluido e os restos orgânicos espirraram na minha farda, manchando o azul-marinho com a cor da morte definitiva.
— Leve este lixo daqui, Rocha! — o Maestro ordenou, sua voz subindo de tom, mas mantendo a frieza. Ele não desviou os olhos de mim nem por um segundo. — Ele perdeu a visão do jogo. Agora serve apenas para adubar o pátio dos esquecidos.
Ele se aproximou ainda mais da grade, os olhos cinzas fixos nos meus, devorando meu pavor. Ele agarrou a pequena cruz de prata no meu pescoço com uma força bruta. A corrente não apenas arrebentou; os elos de metal rasgaram a pele da minha nuca, deixando um rastro de dor aguda e uma ferida aberta que começou a sangrar sobre a gola da farda.
— Amanhã você voltará, Lorena. — O sussurro dele agora era um rosnado animal, baixo e perigoso. — E você não trará apenas esses papéis inúteis ou esse café com gosto de penitência. Você trará a sua dignidade. Porque eu quero ver o quanto ela vale antes de eu arrancá-la de você, fibra por fibra, nota por nota, até que você implore para que eu seja o seu único deus.
Eu me levantei, tropeçando nos meus próprios pés, e corri. Corri pelo corredor onde os outros presos continuavam em silêncio absoluto, sentindo o peso do olhar do Maestro nas minhas costas. Corri até chegar ao banheiro dos funcionários, tranquei a porta e vomitei até sentir que não havia mais nada dentro de mim, nem comida, nem alma. Olhei no espelho e vi a marca de sangue dele na minha cara.