capitulo 5 continuação

1982 Words
Entrei no pavilhão de isolamento e o silêncio caiu como uma cortina pesada sobre uma plateia aterrorizada de ratos que se dizem homens. O som das minhas botas no concreto era o único metrônomo daquele lugar, marcando o tempo da agonia que ia rolar. Cada passo meu ecoava como um tiro de misericórdia nos ouvidos de quem já sabia que o dia do juízo tinha chegado. Quando cheguei à Cela 13, vi o Silva. Ele estava exatamente onde eu queria, o o****o: amarrado em uma cadeira de ferro parafusada no centro do cubículo, com os pulsos em carne viva pelo arame farpado que eu usei para imobilizar esse traidor imundo. A mordaça impedia o desgraçado de implorar pela vida, de vomitar as desculpas que eu já conhecia de cor, mas os olhos dele... ah, os olhos dele estavam dilatados, saltando das órbitas como se quisessem fugir do crânio, contando toda a história de pavor que a voz dele não conseguia articular. Aquele pânico era música para os meus ouvidos, uma harmonia perfeita de desespero absoluto. — Olá, Silva — eu disse, a voz aveludada, quase um carinho antes do abate. — Você parece tenso, moleque. Acomoda essa carcaça. O espetáculo está apenas começando e eu detesto plateia que não presta atenção no solista. Aproximei-me dele devagar, sentindo o cheiro acre de urina e o suor frio que emanava desse lixo humano. Tirei a mordaça dele com um movimento brusco, um puxão seco, só para ouvir o som gutural da respiração desesperada que ele tentava segurar nos pulmões. — Maestro, por favor... eu tenho família, eu não sabia que a carga era sua! Eu juro pelo que é mais sagrado! — ele gaguejou, as lágrimas abrindo sulcos na sujeira do rosto dele, misturando-se com a baba que escorria pelo canto da boca. — Sabia sim, seu comédia. Todo mundo em Porto n***o sabe o que pertence ao Alvorecer. O problema é que você achou que eu estava cego aqui dentro, né? Achou que o Maestro não ia sentir o cheiro da tua traição debaixo do meu teto — respondi, pegando um pequeno estilete cirúrgico que eu mantinha escondido entre os tijolos da cela. — Mas eu sou um homem de justiça, Silva. Sou um regente que dá oportunidades para os seus músicos se redimirem antes de irem para o colo do capeta. Inclinei-me sobre ele, o brilho da lâmina refletindo no pavor que transbordava das pupilas dele. O pânico desse verme era a minha inspiração para compor a obra-prima do dia. — Vou te dar duas chances, Silva. Duas oportunidades de escolher como essa música termina — sussurrei no ouvido dele, sentindo o tremor violento que sacudia a cadeira de ferro, os dentes dele batendo uns nos outros. — A primeira chance: você me diz agora quem foi o miliciano imundo que te pagou para atravessar essa carga. Se você abrir a boca e o nome for o que eu já sei, eu te mato rápido. Uma nota curta, sem sofrimento. Um corte limpo na jugular e você vai dormir para sempre antes de sentir a dor. Papo de visão, sem neurose. Ele soluçou, o peito subindo e descendo freneticamente, parecendo um bicho sendo esfolado vivo em um matadouro clandestino. — E a... a segunda chance, Maestro? — ele perguntou, com a voz falhando, as pernas tremendo igual vara verde no meio de um furacão. Eu dei um sorriso c***l, uma fresta de escuridão que não alcançou meus olhos cinzas. — A segunda chance é o silêncio, moleque. Se você escolher não falar, ou se tentar mentir para mim, eu vou transformar o seu corpo em um instrumento de percussão. Vou arrancar cada pedaço da sua dignidade enquanto você assiste à sua própria ruína. E como você usou esses olhos para cobiçar o que é meu, eu vou começar por eles. Vou te dar a chance de "ver" a verdade por dentro, antes de te mergulhar na escuridão eterna. Silva tentou balbuciar alguma desculpa patética, uma ladainha de perdão que morreu na garganta seca. Ele escolheu o silêncio, ou talvez o pavor tenha atrofiado as cordas vocais desse lixo. Para mim, tanto faz. A música precisa continuar, e se ele não vai cantar por vontade própria, eu vou arrancar os sons que eu quero na marra, nota por nota. — Nota errada, Silva. Você escolheu a agonia lenta. Escolheu ser o meu brinquedo. Guardei o estilete com calma e peguei a colher de metal que eu tinha afiado no concreto durante semanas de isolamento. Ela tinha a curvatura perfeita para o que eu pretendia fazer, uma extensão de metal da minha própria vontade. Aproximei-me, sentindo o calor do terror que emanava dele. Silva começou a se debater, a cadeira de ferro rangendo contra o chão de cimento, mas o arame farpado só cortou mais fundo os pulsos dele, pintando o metal de vermelho fresco e viscoso. — Shhh... Não estrague a introdução — sussurrei, enquanto minha mão esquerda, pesada e firme como uma prensa de aço, agarrou o rosto dele, cravando os dedos nas bochechas para imobilizar a cabeça. Com a mão direita, posicionei a borda afiada da colher na lateral do globo ocular esquerdo dele. Ele tentou fechar a pálpebra, um reflexo inútil, mas eu a forcei para cima com o polegar, expondo a esclera branca. O olho dele girava freneticamente, uma esfera úmida tentando escapar do destino inevitável. — Olhe para mim, Silva. Quero que a minha face seja a última imagem que a sua mente medíocre vai registrar antes do apagão total e absoluto. Pressionei a colher. Ouvi o som suave e úmido da pele se rompendo, um squelch sutil que me deu um prazer quase estético, um arrepio que subiu pela minha espinha. Silva abriu a boca para soltar um grito que teria acordado todo o pavilhão, mas eu fui mais rápido. Enfiei a palma da minha mão livre contra a boca dele, abafando o som, transformando o grito em um borbulhar desesperado de sangue, saliva e pavor. — Engula o grito, seu bosta. Ele pertence a mim agora. Forcei a colher mais fundo, entrando na cavidade ocular, rompendo os tecidos com uma precisão cirúrgica. Eu sentia a resistência dos nervos e dos músculos que prendem o olho ao crânio. Comecei a fazer uma alavanca lenta, milímetro por milímetro, sentindo a pressão aumentar. O sangue começou a transbordar, quente e viscoso, escorrendo pelos meus dedos e pelo meu pulso, sujando a minha farda, mas eu não me importava. O som era maravilhoso: o tecido se esticando até o limite da ruptura. Silva tremia tanto que eu achei que ele teria uma convulsão ali mesmo. Mais um empurrão, uma rotação precisa da mão, e eu senti o nervo óptico se esticar como uma corda de violino esticada ao máximo, prestes a arrebentar e soltar a nota final. Com um puxão seco e cirúrgico, o globo ocular saltou para fora da órbita. Ele ficou pendurado por um fio de nervo e tecido, balançando contra a bochecha ensanguentada dele. Silva arqueou as costas, o som abafado na minha mão agora era um lamento de animal sendo esfolado vivo. — Viu só? — eu disse, admirando a esfera branca manchada de vermelho que eu agora segurava entre os dedos, sentindo o calor que ainda emanava dela. — Você queria tanto ver o que eu tinha, Silva. Agora você pode ver o mundo de um ângulo que ninguém mais vê. O ângulo da tua própria carcaça imunda. O sangue jorrava da cavidade vazia, um buraco escuro e profundo que parecia um abismo aberto no meio do rosto dele. Ele estava em choque, o corpo mole, mas eu não ia parar. A orquestra exige simetria, e eu sou um mestre da perfeição técnica. Inclinei a cabeça para o lado, apreciando o rastro de destruição que eu acabara de esculpir. O silêncio do Silva, agora interrompido apenas por soluços secos e o som rítmico do sangue pingando no chão de concreto, era a introdução perfeita. Mas a simetria é a alma da beleza, e uma ópera não pode terminar em meio-tom. — Não desvie o foco agora, Silva. Temos um segundo ato. O show não para por causa de um buraquinho no rosto — sussurrei, sentindo o calor do suor e do pavor que emanava dele, uma névoa de morte. Aproximei a colher afiada do olho direito. Ele tentou desesperadamente girar a cabeça, mas meus dedos eram como garras de aço cravadas em seu maxilar. Posicionei a borda metálica no canto lacrimal. Pressionei. O som foi um estalo abafado, o rompimento da membrana seguido por aquele squelch viscoso que tanto me agrada, o som da realidade se partindo. Forcei a curvatura da colher para trás do globo ocular, sentindo a resistência elástica dos músculos. Cada milímetro que eu avançava, Silva arqueava o corpo contra o arame farpado, rasgando ainda mais a própria carne em uma tentativa fútil de fuga. O sangue agora jorrava em um ritmo pulsante, acompanhando as batidas do coração dele, desenhando mapas escuros em meu antebraço tatuado. — Sinta o ritmo, Silva. Sinta a pressão — eu dizia, mantendo minha palma firme contra a boca dele, sentindo os dentes dele tentarem morder minha mão no puro instinto de sobrevivência. Inútil como a oração de um pecador no inferno. Fiz o movimento de alavanca. O som de sucção foi quase poético. Eu sentia o nervo óptico se esticando, uma corda tensa que vibrava sob a pressão do metal. Com uma rotação rápida e precisa, o segundo olho saltou da órbita com um estalido úmido e satisfatório. Ficou ali, balançando pelo feixe de nervos, uma esfera branca e assustada que não servia mais para p***a nenhuma além de provar quem é o verdadeiro soberano nessa cela. Soltei o rosto dele. Silva despencou para frente tanto quanto as correntes permitiam, as duas cavidades vazias jorrando sangue como fontes negras, o rosto agora uma máscara de morte em vida, uma escultura de dor pura. Eu me afastei um passo, respirando fundo o ar saturado de ferro e sofrimento. Com um movimento lento, segurei os dois globos oculares na palma da minha mão esquerda. Eles eram mornos, escorregadios, pesando o que pesava a dignidade de um homem que ousou desafinar na minha frente. Admirei-os sob a luz amarela e doentia da lâmpada, sentindo a viscosidade do fluido vítreo escorrer por entre meus dedos e pingar no chão. Foi quando o som mudou. O metrônomo das minhas botas foi substituído pelo eco de passos estranhos no corredor de concreto. Passos leves, vacilantes, que não pertenciam à brutalidade rotineira daquele lugar de morte. O cheiro de sabonete barato e aquele rastro de "crente" — um cheiro que me dava náuseas — começou a lutar contra o odor de carnificina na minha cela. Eu não precisei olhar para saber quem era. Eu sentia a vibração da integridade dela sendo estraçalhada metros antes de ela chegar à grade. Eu sentia o pavor dela como se fosse um calor físico emanando do corredor. Virei-me devagar, com a calma de quem sabe que é o mestre da situação, ainda segurando os olhos do Silva na palma da mão, o sangue escorrendo pelo meu pulso e pingando no chão de concreto com um som rítmico, um ploc-ploc que era a música de fundo perfeita. — Você está testemunhando isso, Lorena Vaz? — perguntei, minha voz saindo como um trovão baixo e carregado de perversidade, enquanto eu exibia os troféus úmidos na palma da mão, oferecendo a visão do horror. Ela estava lá. Parada diante da grade, o rosto pálido como mármore, as sardas parecendo feridas abertas em sua pele clara e os olhos ruivos dilatados pelo pavor mais puro que eu já tive o prazer de reger. Ela não apenas viu o horror; ela respirou o horror, sentindo o cheiro do sangue quente que eu acabei de derramar como uma oferenda ao meu próprio ego.
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