(Narrado por: Rocco Falcão)
O sol em Porto n***o não nasce, ele pede licença pra entrar no Morro do Alvorecer. E eu? Ah, eu sou o cara que segura a chave da cidade, ou pelo menos a parte dela que realmente importa, aquela que pulsa no ritmo do fuzil e do lucro. Me chamo Rocco, tenho vinte e dois anos e carrego o DNA dos Falcão correndo nas veias como se fosse adrenalina pura misturada com veneno. Sou o irmão caçula do Maestro, o segredo mais bem guardado e a nota mais aguda dessa favela. Enquanto meu irmão é o gelo, a estratégia e a partitura gélida, eu sou o ruído, o impulso, o deboche em pessoa e o caos que faz a música ficar interessante.
Olha pra mim: jaqueta de couro que custa o que um trabalhador ganha em dois anos, cabelo bagunçado no estilo "acordei galã" e um sorriso de comercial de TV que faz até a polícia esquecer o que veio fazer no morro. Tenho esse ar de quem acha que a vida é uma piada interna, e papo reto? Geralmente ela é mesmo. Pouca gente sabe que eu existo fora dessas vielas, e é assim que o Henrique gosta. Ele me mantém nas sombras pra eu não virar alvo da milícia ou dos ratos do Estado, mas eu prefiro pensar que é porque o brilho do caçula ia ofuscar a pose de rei absoluto dele.
Acordei hoje com o pé direito, sentindo o cheiro de pólvora e café que flutua pelo Alvorecer. O morro tá um tédio sem o meu irmão pra dar esporro geral e mandar gente pro micro-ondas, então eu decidi que era hora de agitar as águas. Fui criado na base do ferro e do fogo, tá ligado? Quando nosso pai esticou as canelas e a v***a da minha mãe meteu o pé me largando pra trás como se eu fosse um móvel velho e cupim foi o Henrique que segurou a bronca. Ele me ensinou que, nesse mundo cão, ou você rege a orquestra, ou vira o instrumento que os outros tocam até arrebentar. Eu escolhi ser o cara que toca o terror com um sorriso no rosto e uma piada na ponta da língua.
Tava lá no parlatório ontem, vendo o Maestro naquela vibe "senhor do calabouço" dele. Dei umas risadas, ofereci umas primas de luxo pra ele desestressar a mente, mas o homem tá focado num nível doentio. Ele me deu uma missão que me deixou intrigado: investigar uma tal de Lorena Vaz. Uma ruivinha, filha de pastor, que parece que saiu de um comercial de margarina gospel. O Henrique quer carne, quer resistência, quer quebrar a pureza dela nota por nota. E eu? Eu vou amar ser o cara que vai entregar o mapa da mina pra ele destruir. Se essa mina tem um segredo, eu vou achar. Vou varrer até o que ela confessou no altar do pai dela.
Bati a porta do meu carrão e o som ecoou no topo do Alvorecer como o início de um set pesado de funk proibido. O ar aqui em cima tem aquele cheiro que eu amo: poeira de asfalto, fumaça de óleo diesel e o aroma inconfundível de quem manda na p***a toda. Comecei a descer as vielas, distribuindo sorrisos e deboche pros soldados que montavam guarda, porque nesse morro eu sou o príncipe herdeiro e geral sabe que atravessar o meu caminho sem um motivo muito bom é pedir pra virar estatística ou piada de cemitério.
Quando cheguei na "Boca da Matriz", o quartel-general do meu irmão aqui fora, o clima deu aquela mudada de tom. O barulho das crianças correndo sumiu, substituído pelo som metálico de ferrolhos sendo puxados. O braço direito do meu irmão, o Cicatriz, tava lá. O cara é um monstro de dois metros de altura, com um talho profundo que atravessa o rosto todo, desde a testa até o queixo um presente de uma invasão antiga do BOPE que ele sobreviveu só pra contar a história e matar quem o marcou. Ele tava sentado num trono de plástico de bar, desarmando uma Glock com uma precisão que dava até sono de tão perfeito.
Ele me viu chegando e deu aquele aceno seco com a cabeça. O Cicatriz não é de rir; ele é o silêncio que antecede o tiro, a batida seca do tambor antes do abate.
— E aí, Rocco? Foi lá ver o Homem ontem, né? — Cicatriz perguntou sem tirar os olhos da peça, a voz grossa e rouca parecendo um rolo compressor passando por cima de brita. — Como é que tá o Maestro naquele resort de concreto que o Estado deu pra ele? Ele mandou o papo sobre a carga que vem do Paraguai ou tá muito ocupado regendo os desesperados da Ala M?
Dei um sorriso de lado, encostando na parede descascada da Boca e cruzando os braços com aquela marra que só quem tem o sobrenome Falcão consegue sustentar.
— O Maestro tá focado, Cicatriz. O resort é pequeno, a decoração é minimalista, mas a regência continua a mesma. Ele tá lá, fazendo os passarinhos cantarem no tom que ele quer. O Silva que o diga, né? Ouvi dizer que o cara agora tá vivendo uma fase bem "obscura" da vida.
Cicatriz soltou um grunhido gutural. Ele sabia do Silva. No Alvorecer, as notícias voam mais rápido que bala de fuzil.
— Mas o papo agora é outro, meu caro açougueiro... — continuei, me aproximando da mesa dele. — O Henrique me deu uma missão de inteligência. Quer que eu revire a vida de uma ovelhinha que tá cruzando o caminho dele lá dentro. Uma tal de Lorena Vaz. Ruiva, bonitinha, cara de quem nunca ouviu um "não" na vida sem pedir perdão pra Deus logo em seguida.
Cicatriz parou o que tava fazendo por um segundo e levantou aqueles olhos de tubarão pra mim. No morro, quando o Maestro se interessa por alguém que não é do crime, é porque a alma da pessoa já entrou em leilão no inferno e ele é o leiloeiro.
— Lorena Vaz? A filha daquele pastor Silas que fica gritando o nome do Maestro na TV toda madrugada, chamando ele de b***a do apocalipse? — Cicatriz deu um sorriso torto que deformou ainda mais a cicatriz dele. — O que o Homem quer com essa marmita de igreja? Ele quer que a gente apague o velho pra fechar a boca dele ou quer que eu dê um susto na herdeira?
— Nada, Cicatriz. Você é muito bruto, cara. O Henrique quer a filha. Quer o mapa da mina pra poder quebrar a santidade da pequena ruiva. Ele quer carne, quer resistência. O Maestro quer saber cada podre, cada segredo que ela guarda debaixo daquela saia de crente e daquela farda de agente. Ele quer destruir ela de dentro pra fora.
— E aí? — Cicatriz travou a Glock com um clique seco que ecoou na Boca, o som mais cortante que o vento do morro. Ele se levantou, a sombra dele me cobrindo por completo. — Quer que eu mesmo vá atrás dessa Lorena? Tu sabe que o meu jeito de puxar ficha é mais... "direto". Se eu pegar ela num beco, a ovelhinha abre o bico ou eu arranco os dentes dela um por um pra ela ter o que contar pro papai pastor antes de ir pro céu.
Eu soltei uma gargalhada alta, genuína, jogando a cabeça pra trás. O Cicatriz é hilário sem nem tentar.
— Deus me livre, Cicatriz! — Falei, limpando uma lágrima imaginária, mantendo o deboche lá no alto. — Se eu te deixo chegar perto da ruivinha, tu transforma a "Miss Igreja" num quebra-cabeça de mil peças antes do Maestro dar o primeiro acorde da sinfonia. O Henrique quer diversão psicológica, cara! Ele quer o prazer de ver a alma dela derreter devagar, tipo sorvete deixado no asfalto quente ao meio-dia. Se tu chegar lá com essa tua cara de quem comeu defunto estragado no café da manhã, a mina morre de infarto e acaba com a brincadeira do meu irmão. E tu sabe que o Maestro odeia quando cortam o show dele na metade.
Me aproximei dele com toda a folga do mundo, ignorando o fato de que ele podia me esmagar como uma uva. Dei um tapinha amigável no ombro daquele gigante.
— Relaxa esse semblante, Cicatriz! Sorri um pouco, p***a! Tu tá tão tenso que se um raio te acertar, o raio é que morre de susto. Já tentou fazer uma massagem? Ou quem sabe um skin care pra esse teu talho aí ficar mais charmoso? — Provoquei, chegando bem perto, a centímetros daquele rosto esculpido na base da pólvora. — Imagina tu, Cicatriz, de máscara de argila rosa e pepino no olho... o Alvorecer ia parar pra ver esse espetáculo! Ia ser o "Dia da Beleza do Crime".
O ar na Boca da Matriz simplesmente desapareceu. Os outros soldados que tavam por perto paralisaram, alguns até prenderam a respiração. Eu vi o maxilar do Cicatriz travar de um jeito que os dentes devem ter quase virado pó. A mão dele, que tava em cima da mesa, voou pra cintura num borrão que eu m*l vi.
Em menos de um segundo, o cano frio, redondo e letal da Glock tava pressionado com força contra o meu queixo, empurrando a minha cabeça pra cima, me obrigando a olhar pro teto de zinco da Boca. O deboche continuou brilhando no meu olhar, mas o metal gelado era um lembrete bem real de que eu tava brincando com um fósforo aceso em cima de um oceano de gasolina.
— Rocco... — A voz dele veio do fundo do abismo, baixa, rouca, carregada de um ódio que faria um homem comum ter um colapso cardíaco. — Tu é sangue do Maestro, é a única razão de tu ainda estar respirando esse ar viciado. Mas se liga: o meu dedo não sabe ler árvore genealógica quando eu tô com raiva. Mais uma piadinha sobre a minha cara ou sobre esse meu "talho", e eu te dou um sorriso novo... bem no meio da tua testa. Vaza daqui antes que eu decida que o morro não precisa de palhaço hoje e resolva te mandar de presente pro teu irmão dentro de um saco.
Eu levantei as mãos em sinal de rendição, mas sem perder a marra por um milímetro sequer, rindo baixo enquanto sentia a mira da arma acompanhar o meu movimento.
— Tá bom, tá bom! Não tá mais aqui quem falou. p**a que pariu, Cicatriz, tu é um público muito difícil, na moral! Vou buscar uma plateia mais receptiva e que entenda de estética lá no asfalto. — Dei dois passos pra trás com elegância, ajeitando o cabelo no espelho retrovisor de uma moto roubada que tava ali perto. — Fica com Deus, meu querido! Ou com o d***o, que é quem deve ser teu padrinho de batismo. Amanhã eu volto com o mapa da mina sobre a Ruiva e quem sabe um hidratante pra essa tua pele de jacaré, tá? Um beijo pra você!
Saí dali sentindo o olhar dele queimando as minhas costas como se fossem dois snipers apontados pra minha nuca. Eu sabia que ele não ia puxar o gatilho... ainda não. O Maestro ia cobrar o couro dele se ele me tocasse, e o Cicatriz sabe que o Henrique é pior que o capeta quando mexem com o que é dele.
Entrei no meu carrão, dei partida fazendo o motor rugir alto pra avisar que o príncipe tava saindo e dei um cavalo de p*u nervoso na saída da rua, deixando uma nuvem de fumaça de pneu e cheiro de borracha queimada pra trás. Agora o destino é a zona sul, onde a Lorena Vaz esconde os segredinhos dela. Vou descobrir até a cor da calcinha que a ovelhinha usa pra ir pro culto. O show do Rocco tá só começando!