Albucacys estava no condomínio da máfia, sentado com Augusto.
— O que o Salomão disse pro chefe americano? — perguntou Augusto.
— Não faço ideia. Por quê?
— Porque xingaram um ao outro e desligaram na cara. Foi fe.io.
— E os documentos? Vão mesmo vir?
— Não sei. Marina disse que vai falar com a esposa do chefe americano. Se ela conseguir, talvez a gente resolva. Eu espero que ela consiga.
Albucacys respirou fundo, e acabou rindo.
A maior besteira, na visão dele, era deixar Callebe e Salomão cuidarem da parte diplomática, eram terríveis com diplomacia,. Saiu do condomínio e foi direto pro clube.
Quando chegou, o investigador Donald já estava lá, sentado, observando como quem esperava por mais do que uma conversa.
— Donald...
— Vim buscar a anotação.
— Não tenho ainda. Mas de hoje não passa.
— Tem irmãos, Albucacys?
— Não.
— Tem uma irmã? Acha que pode ter mais gente?
— Acho. Acho sim. Mas... mas tenho que ter certeza. Não posso supor.
— Pode ser. Mas termina logo. EStou cheio de trabalho pra próxima semana. E eu não posso ficar te esperando mais.
Era mentira, mas Donald estava o pressionando, porque sob pressão, lembranças costumavam aparecer..
— Eu entendo.
— Então termina. Porque senão, eu desisito..
Donald levantou e foi embora. Albucacys seguiu pra cozinha.
Estela estava na mesa, mexendo uma gelatina..
— Olha pra mim, Estelinha.
—Estou olhando.
— O que você acha... de uma visita à Lindinalva?
Ela parou. A colher ficou no ar.
— Os surtos voltaram?
— Não. Mas os médicos dizem que ela precisa conversar com você. Que talvez isso ajude a mente dela a se reorganizar. Que pode ter chance de cura.
Estela largou a colher e respirou fundo.
— Não..
— EStela,,,
__ Ela não merece, ela cometeu tantos erros, tantos...Eu nasci, porque ela roubou as ca.misinhas usadas do meu pai. Fez inseminação caseira. Um homem não devia ser obrigado a ser pai assim, Albucacys.
— Não devia.
Isso, ele tinha que admitir...
__ Mas mesmo assim... ele me amou. Ela ainda me expôs. Foi por causa dela que eu fui abusa.da. E de novo... foi o meu pai que me salvou. Que me trouxe para casa que me protegeu, a minha mãe de verdade é a Dorothy.
— Eu sei.
Diante das palavras de Estela, Albucacys desistiu.
Sabia que Lindinalva precisava se curar, que talvez aquele contato com a filha fosse a última chance de recuperação real. Mas também sabia que não podia sacrificar Estela no meio disso. Abrir novas feridas em alguém que já lutava tanto pra se manter de pé… não era justo.
Mas ao mesmo tempo, ele acreditava — no fundo, acreditava — que pra seguir inteira, Estela precisaria perdoar.
Não por Lindinalva.
Mas por ela mesma.
Porque enquanto não soltasse o peso da mágoa, nunca iria até o fim com ele. Nunca se entregaria por completo num quarto, num olhar, num toque. Algo ali dentro ainda a prendia.
Albucacys ficou um tempo em silêncio.
— A Corine acha que sabe mais sobre o seu passado do que conta..
—Talvez..
Estela o encarou de frente. Dessa vez, sem se defender.
— Se eu te pedir ... você para de fugir?
Ele não respondeu, travou os dentes.
— A gente faz uma troca — continuou ela. — Eu falo com Lindinalva. Eu vou até ela,e a escuto. e você faz as anotações que o investigador precisa.
Não podiam mais fugir do passado.
Tinham que organizar tudo. Pra, juntos, serem inteiros de novo. Era isso.
Albucacys olhou pra ela, respirou fundo.. Ela estava sendo mais corajosa que ele, mas também, era filha de Salomão..
— Eu aceito a proposta, Estela. Hoje, ainda hoje à noite, vou escrever tudo que lembro. Já comecei... mas agora eu termino.
Ela assentiu devagar, como quem precisava daquela entrega pra dar o próximo passo.
— Amanhã... amanhã a gente vai até a ala médica onde Lindinalva tá — ela disse, ele fez carinho no rosto dela, devagar, com cuidado. — Você precisa perdoar. Nem que seja só pra poder respirar de novo. Nem que seja só pra soltar o que ainda te prende.
— Eu sei que eu preciso. Eu sei. Mas às vezes... às vezes eu acho que ela é a pessoa que eu mais odeio.
A voz saiu falhada, mas sem choro. Era raiva antiga, seca, endurecida.
— Mais do que o homem que me machucou. Mais do que o irmão dela, que permitiu o abu.so. Não sei por quê...
Ela fechou os olhos com força e balançou a cabeça.
— Talvez... — ele disse, baixo — talvez porque ela era quem devia ter te protegido, você a amava, se magoou e magoa ficou...
Estela não respondeu. Mas os olhos encheram.
— E não protegeu — ele completou, quase num sussurro. —Ela devia ter mantindo os olhos em mim e não me deixado com outra pessoa.. ela foi uma péssima genitora, péssima..
Ele só a segurou, entendia a raiva, e ela teria que a colocar para fora.