Minha semana seguiu o mesmo script.
Acordar, café, e o ritual secreto das 8h15.
Gabriel não faltou um único dia.
E aquele sorriso para o gato continuou a fazer coisas estranhas no meu peito.
Na sexta-feira, decidi fazer algo diferente.
Fui à livraria perto da faculdade. Precisava de um escape, algo que me desconecte daquela obsessão ridícula.
O lugar era meu refúgio. Cheiro de papel novo e café.
Caminhei até a prateleira de ficção, perdendo meus dedos nas lombadas coloridas.
Foi quando eu vi.
Na seção errada, misturado com os romances, um livro de capa preta e título prateado.
"A Ilusão da Fé: Um Guia Cético para o Mundo".
Um sorriso irônico surgiu em meus lábios. Era exatamente o tipo de livro que meu pai, o professor de filosofia, adoraria. A herança ateia da família Lara em toda a sua glória.
Estiquei o braço para pegá-lo, ao mesmo tempo que outra mão se movia na direção oposta.
Nossas mãos se esbarraram.
Um choque quente percorreu meu braço.
E então, eu olhei para o lado.
E o mundo desacelerou até parar.
Eram os olhos dele. Castanhos, cálidos e agora um pouco surpresos.
Era ele.
Gabriel. O menino da rua de trás. Aqui, a meio metro de mim, na livraria.
Meu cérebro deu um tilt. Aquele rosto, que eu só via de longe, estava agora nítido. Havia uma pequena cicatriz perto de sua sobrancelha. Seus olhos eram ainda mais profundos de perto.
"Desculpa", ele disse, e a voz era exatamente como eu imaginava: suave, mas firme.
Eu congelei. Apenas balbuciei algo ininteligível.
Ele então olhou para o livro que eu estava prestes a pegar. Seus olhos percorreram o título: "A Ilusão da Fé".
A expressão dele mudou. Não ficou bravo ou julgador. Ficou... interessado. Curioso.
"Pesado para uma sexta-feira", ele comentou, com um cantinho da boca levantado, quase um sorriso.
"É... só pesquisa", menti, minha voz finalmente está voltando. Meu coração batia tão forte que eu tinha certeza que ele podia ouvir.
Ele pegou o livro que estava tentando pegar – um clássico da literatura – e segurou contra o peito.
"Eu sempre acreditei que a fé e a razão podem ocupar o mesmo espaço. Só não podem falar ao mesmo tempo."
Aquela frase me pegou desprevenida. Soava como algo que meu pai diria em uma de suas aulas, não como algo que sairia da boca do "menino da rua de trás" que eu achava ser apenas... bonito.
Ele estendeu a mão livre.
"Gabriel."
Eu hesitei por um segundo antes de encaixar minha mão na dele. O toque foi rápido, mas o calor permaneceu.
"Lara."
Ele sorriu. O mesmo sorriso que ele dava para o gato. Só que agora era para mim.
"Eu te vejo andando pela rua de trás, às vezes", ele disse, soltando minha mão.
O sangue correu pelas minhas faces. Ele tinha me visto? Como? Quando?
Parecia que o chão ia se abrir. Meu ritual secreto não era tão secreto assim.
Antes que eu pudesse formular uma resposta, um som de celular ecoou. Ele tirou o aparelho do bolso e a expressão mudou novamente, ficando séria. A tela mostrava: "Pai".
"Lamento, tenho que ir. Reunião na igreja com meu pai."
Seus olhos encontraram os meus mais uma vez.
"Foi legal te conhecer, Lara. A próxima vez, me mostra o que achou do livro."
E então, ele se virou e foi embora, deixando para trás o cheiro discreto de sabão em ** e uma nuvem de confusão.
Eu fiquei parada, olhando para o espaço que ele ocupava segundos atrás.
Minha mente estava em uma guerra civil.
De um lado, a filha dos ateus, segurando um livro que ridicularizava tudo o que a família dele representava.
Do outro, uma garota com o coração acelerado, que tinha acabado de descobrir que o menino dos seus sonhos secretos... era o filho do pastor.