CAPÍTULO 4: O DESAFIO

814 Words
Minha mente não desligava. Filho de pastor. A frase ecoava como um alarme dentro do meu crânio. Todas as peças se encaixavam com uma clareza c***l. A serenidade, a pontualidade, a frase sobre "fé e razão"... Tudo fazia parte do pacote *Gabriel: o bom moço crente*. Meu pai, com seu sarcasmo gentil, teria dito: "Ah, a famosa síndrome do salvador, Lara. Cuidado para não ser o projeto missionário dele." Minha mãe teria suspirado e falado sobre "amor além das diferenças". Mas eu não era minha mãe. Eu era a filha do professor de filosofia que desmontava argumentos religiosos no jantar. E eu estava... furiosa. Não com ele, mas comigo mesma. Por ter criado um romance inteiro na minha cabeça com um personagem que, na vida real, provavelmente me via como uma alma perdida a ser salva. A raiva era um combustível melhor do que a paixão. Mais familiar. Na segunda-feira, o ritual das 8h15 teve um sabor diferente. Não era mais de expectativa doce, mas de confronto. Quando ele saiu, eu não me escondi. Fiquei parada atrás do vidro, encarando. Desafiadora. Ele olhou para cima, como sempre. Nossos olhos se encontraram por uma fração de segundo que pareceu uma eternidade. Ele pareceu surpreso. Então, inclinou a cabeça num leve aceno, quase imperceptível. Um aceno? Era isso? Um cumprimento cortês para a pecadora da janela? Aquilo me deixou ainda mais irritada. Depois da aula, fui direto para a livraria. Não estava mais à procura de um escape. Estava à procura de uma a**a. Meus olhos percorreram as prateleiras de filosofia e ciência até encontrá-lo. O livro perfeito. A capa era ainda mais explícita: "Deus, um delírio? A ciência contra a religião". Comprei-o com uma determinação fria. Na manhã seguinte, meu plano estava em ação. Às 8h10, eu já estava na janela. Não com uma xícara de café, mas com o livro aberto, a capa voltada para a rua. Eu fingia ler, mas minha atenção toda estava focada na calçada de baixo. 8h15. A porta se abriu. Gabriel saiu. Seus olhos subiram instantaneamente até minha janela. Ele viu. Viu o livro. Viu o título em letras garrafais. Ele parou. Completamente. O gato listrado se aproximou, mas desta vez, ele nem notou. Seu rosto era uma máscara de choque. E algo mais... machucado? Por um instante, me senti triunfante. Toma, seu pastorzinho. Aqui está a minha "fé". Mas o triunfo durou menos de um segundo. A dor na expressão dele foi como um punho no meu estômago. Eu esperava desconforto, talvez uma reprovação silenciosa. Não aquilo. Não aquela comoção genuína. Ele baixou a cabeça e continuou a caminhar, mas seus ombros, normalmente eretos, estavam um pouco curvados. E de repente, eu me senti h******l. Pequena. Mesquinha. Minha vitória tinha o gosto amargo da crueldade. Mais tarde, na faculdade, eu estava no pátio, tentando ler o tal livro maldito e não conseguindo concentrar-me. "Então, é bom?" A voz fez meu corpo dar um salto. Ele estava lá, a alguns passos de distância. Seu rosto estava sério, mas seus olhos não mostravam raiva. Mostravam... uma tristeza profunda. "O... o quê?", gaguejei, fechando o livro às pressas. "O livro. A 'ciência contra a religião'. Ela é convincente?" Ele deu um passo à frente. A atmosfera ao nosso redor parecia carregada de eletricidade. "Gabriel, olha...", eu comecei, me sentindo a pior das pessoas. "Meu pai acha que você é uma influência perigosa", ele cortou, sua voz suave, mas firme. "Ele me viu conversando com você na livraria. Ele fez algumas... perguntas." O sangue correu do meu rosto. O Pastor Samuel sabia da minha existência. Eu era a "influência perigosa". "E o que você disse a ele?", minha voz saiu um sussurro. Ele olhou nos meus olhos, e o mundo ao redor desapareceu. "Disse que ele não precisava se preocupar. Que você era só uma garota que gostava de livros." Ele deu mais um passo, e agora estava perto o suficiente para eu sentir seu cheiro novamente. "Mas eu menti para ele, Lara." Meu coração parou. "E você mentiu para si mesma esta manhã, com aquele teatro na janela. Porque isso..." Ele apontou o indicador, oscilando entre seu peito e o meu. "...isso não é uma guerra. É uma conversa. E eu quero continuar a ouvir." Ele pegou um caderno da mochila, arrancou uma folha e escreveu algo rapidamente. "Este é o endereço da igreja. Há um café lá na sexta. Um ambiente amigável e descontraído”. Ele estendeu o papel. Era um convite. Um salva-vidas. Uma declaração de guerra branca. Eu não sabia o que era. "Você não vai tentar me converter, não é?", eu perguntei, minha voz trêmula. O sorriso que apareceu em seu rosto foi triste e lindo ao mesmo tempo. "Lara", ele sussurrou. "Quem disse isso pra você?" Ele virou e foi embora, deixando-me com o papel quente na mão e o mundo de cabeça para baixo.
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