CAPÍTULO 21: A CORAGEM DA VERDADE

864 Words
"Eu não vim aqui hoje para lutar contra uma fé", comecei, minhas palavras ecoando no silêncio absoluto. "Vim falar de uma outra forma de amor. Uma forma de duas pessoas contrárias em sua fé e crença que se esconde nos olhares trocados entre uma garota cética e o menino da rua de trás." O som dos meus próprios passos no palco ecoou como trovões no silêncio gelado do auditório. A luz quente do holofote me cegou por um segundo, mas eu a encarei, sentindo o peso de todos os olhares. O de Gabriel, nos bastidores, cheio de amor e terror. O do Pastor Samuel, na primeira fila, carregado de desdém. E o de Mara, frágil e translúcida, que parecia segurar o fôlego. Ajustei o microfone. Minhas mãos tremiam, mas minha voz não. "Meu nome é Lara", comecei, e o som da minha própria voz, clara e firme, me acalmou. "E, como muitos aqui sabem, eu não acredito em Deus." Um murmúrio percorreu a plateia. Alguns rostos se fecharam. Outros se inclinaram para frente, curiosos. "Eu fui criada acreditando que a razão era a única bússola confiável. Que o mundo podia ser explicado, medido e compreendido. E que o amor... bem, o amor era apenas uma reação química complexa. Algo previsível." Fiz uma pausa, deixando as palavras pairarem. "Até que eu comecei a observar um rapaz da minha janela." Olhei diretamente para Mara. Seus olhos estavam arregalados, fixos em mim. "Ele era... diferente. Andava com uma calma que a cidade não tinha. Parava para acariciar gatos de rua. E eu, que sempre tive respostas para tudo, não conseguia explicar por que meu coração acelerava todas as manhãs às 8h15. Minha lógica me dizia que era um hábito bobo. Meu corpo me dizia que era algo mais." Vi o Pastor Samuel apertar os lábios. Sua mão sobre a de Mara se contraiu. "Quando finalmente nos conhecemos, descobri que ele era Gabriel. E que sua fé não era o que eu imaginava. Não era um conjunto de regras cegas. Era uma busca. Uma busca por significado, por compaixão, por algo maior, o que ele chama de Jesus Cristo. E eu, que sempre me orgulhei de questionar tudo, comecei a questionar minhas próprias certezas." Minha voz baixou um tom, ficando mais íntima. "O que eu sentia por ele não era apenas química. Era uma escolha. A escolha de me abrir para alguém que via o mundo através de lentes completamente diferentes das minhas. E ele, por sua vez, fez a escolha de me ver não como uma 'alma perdida', mas como uma pessoa. Inteira. Com minhas dúvidas, meus medos e minha própria forma de enxergar a beleza do mundo." O Pastor Samuel não conseguia mais se conter. "Isso é lindo, realmente", ele cortou, sua voz carregada de sarcasmo, sem se levantar. "Uma história de amor de cinema. Mas você omite a parte em que seu 'amor' custa a paz de uma família e a saúde de uma mulher doente." A plateia ficou em choque com a interrupção. Miguel se moveu para intervir, mas eu levantei a mão, pedindo calma. Meu coração batia forte, mas eu mantive a compostura. Eu esperava por isso. "Eu não omito nada, pastor", respondi, olhando diretamente para ele. "Porque o que está custando a saúde da senhora Mara não é o nosso amor. É a guerra contra ele. É a ideia de que o amor do seu filho por alguém como eu é um pecado a ser combatido, e não um sentimento a ser compreendido." Virei-me para Mara novamente, minha voz suavizando. "Senhora Mara, eu nunca quis c********r a você. Eu vejo o quanto você ama seu filho. E eu também o amo. O que eu quero... o que nós queremos... é o direito de amar sem esconder. De construir algo baseado no respeito às nossas diferenças, não na negação delas." Mara não disse uma palavra. Mas seus olhos se encheram de lágrimas. Ela não olhou para o marido. Apenas me fitou, e naquele olhar eu vi não raiva, mas uma dor imensa e uma centelha de... compreensão? Foi quando senti uma vibração no bolso. Uma mensagem. Mais tarde, eu veria que era de Clara: "LARA! VOCÊ ESTÁ ARRASANDO! ELE ESTÁ SE CONTORCENDO NA CADEIRA! CONTINUA!"* Inspirei fundo. A parte mais difícil estava feita. Havia plantado a semente. Agora era a vez de Gabriel. Baixei o microfone e olhei para os bastidores. "Gabriel", eu disse, minha voz ecoando suave por todo o auditório. "Sua vez." Por um momento, nada aconteceu. O silêncio foi absoluto. O Pastor Samuel olhou para trás, um sorriso de vitória prematura nos lábios, certo de que o filho não teria coragem. Mas então, uma figura emergiu das sombras. Era Gabriel. Seu rosto estava pálido, mas seus olhos estavam secos e cheios de uma determinação que eu nunca tinha visto antes. Ele caminhou até o palco, seus passos firmes no piso de madeira. Ele não olhou para o pai. Seus olhos estavam fixos na mãe. Ele pegou o microfone que eu estendia para ele. Nossos dedos se tocaram, e um arrepio de eletricidade e união percorreu o ar. Ele estava pronto. Finalmente pronto. E o auditório inteiro segurou a respiração.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD