Olhares

507 Words
O ateliê era… impecável. Tecidos finos por todos os lados. Modelos andando de um lado pro outro. Estilistas concentrados. E no momento em que eu entrei… Tudo parou. Olhares. De todos os lados. Alguns curiosos. Outros admirados. E alguns… Incomodados. Mas não por mim. Por eles. Atrás de mim. De máscara. Imponentes. Silenciosos. Perigosos. Eu respirei fundo. E segui. Como se estivesse completamente no controle. E talvez… Eu estivesse. — Meu Deus… — uma voz animada surgiu — até que enfim a diva chegou! Sorri. David. O dono do ateliê. Me aproximei, elegante. — Como vai, David? — Vou bem, e você? Chegou bem? — Cheguei sim. Ele sorriu, claramente empolgado. E então olhou… pra trás de mim. Curioso. Eu não hesitei. — Esses são meus maridos. O silêncio ao redor aumentou. Eu senti. Apresentei um por um. — Caio. Ele deu um passo à frente. Apertou a mão de David. — Bom dia. A voz firme. Fria. — Noah. Noah fez o mesmo. — Bom dia. Mais contido. Mais observador. — E Hugo. Hugo inclinou levemente a cabeça. — Bom dia. David piscou algumas vezes. Processando. — Sejam bem-vindos… Ele sorriu, meio sem jeito. — Eu vou dar um minutinho e a gente já começa, tá? — Tudo bem. Ele se afastou. E no segundo em que virou as costas— — Não começa, hein. A voz de Noah veio baixa. Cortante. Revirei os olhos. — Vocês queriam que eu fizesse o quê? Não cumprimentasse ele? — Ele ia te abraçar — Hugo murmurou. — Eu vi. — E? — virei pra eles. — Eu não podia simplesmente ignorar. Caio deu um passo mais perto. — Se ele encostar— — Eu quebro o braço dele — Hugo completou. Eu ri. Sem acreditar. — Meu Deus do céu… Balancei a cabeça. — Vocês estão em Paris, não numa guerra. Silêncio. — Ainda — Noah respondeu. Revirei os olhos. — Por favor… Dei um passo mais perto deles. Mais baixo. — Não testa a minha paciência também, Fernanda — Caio disse. A voz baixa. Mas carregada. — Você é nossa. Segurei o riso de leve. — Eu sei que sou de vocês… Inclinei a cabeça. — Inclusive… estou sentindo até agora a “prova” disso. Os três ficaram em silêncio. Mas eu senti. O clima mudar. Levemente. Sorri de canto. — Agora, por favor… Apontei para um canto mais reservado. — Fiquem ali. — Quietinhos. — Sem assustar ninguém. Hugo arqueou a sobrancelha. — Difícil. — Eu sei — murmurei. — Mas tentem. Olhei pros três. Mais séria agora. — Eu preciso trabalhar. Silêncio. Caio assentiu de leve. — A gente fica. Noah completou: — Mas sem sair dos nossos olhos. Suspirei. — Não vou. Dei um último olhar. — Prometo. Virei. E segui. Sentindo. Mesmo de longe… O olhar deles em mim. Pesado. Constante. Protetor. E possessivo. E enquanto eu caminhava pelo ateliê… Entre tecidos, croquis e olhares curiosos… Eu sabia. Paris podia até ser o meu palco. Mas eles… Ainda eram o meu limite.
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