O quarto ainda carregava o silêncio dela.
Pesado.
Presente.
Como se ela ainda estivesse ali.
Os três ficaram parados por alguns segundos.
Até Caio soltar o ar devagar.
— Então… vamos falar.
A voz veio mais séria.
Menos controlada que o normal.
Noah passou a mão pelo cabelo.
Pensativo.
— O problema não é só ela ver o nosso rosto.
Hugo encostou na parede.
Braços cruzados.
— Nunca foi.
Silêncio.
Mas agora…
Carregado de algo que eles evitavam.
Há anos.
— É aquele acidente…
Caio disse baixo.
Como se a palavra ainda tivesse peso.
— A gente nunca contou pra ela.
Noah assentiu devagar.
— E nem pretendia tão cedo.
Hugo soltou uma risada seca.
Sem humor.
— Difícil esconder quando você olha no espelho todo dia.
A mão dele subiu até o rosto.
Parando na bochecha.
— Esse corte aqui…
Passou o dedo devagar.
— Nunca sumiu.
Silêncio.
— E eu odeio isso.
Caio olhou pra ele.
Mas não julgou.
Porque entendia.
— Não é só você.
Noah falou.
A voz mais baixa agora.
— Meu nariz…
Passou a mão de leve.
— Nunca voltou exatamente pro lugar.
— Tem cicatrizes pequenas…
Deu de ombros.
— Quase ninguém percebe.
Pausa.
— Mas eu percebo.
Hugo soltou um ar pelo nariz.
— Tá reclamando de barriga cheia.
Apontou pro próprio rosto.
— Eu tenho corte na sobrancelha…
— Na lateral do rosto…
— Marca que não sai.
Silêncio.
— E ela vai ver.
A frase ficou no ar.
Pesada.
Caio fechou os olhos por um segundo.
Pensando.
Sentindo.
— A gente precisa resolver isso.
Silêncio.
Mais longo.
Mais real.
Noah foi direto:
— Eu não tô pronto.
Hugo respondeu na mesma hora:
— Também não.
---
Caio abriu os olhos.
Olhou pra porta.
Por onde ela saiu.
— Mas a gente vai ter que lidar.
A voz firme.
Decidida.
— Porque agora não é mais só sobre a gente.
Noah desviou o olhar.
— É sobre ela também.
Silêncio.
Hugo falou mais baixo:
— E se ela não gostar?
A pergunta saiu…
Mais vulnerável do que qualquer outra coisa.
Ninguém respondeu na hora.
Até Caio dizer:
— Então a gente vai ter que lidar com isso também.
Pausa.
— Mesmo que ela fique chateada.
Noah soltou o ar.
Pesado.
— Eu não tô pronto pra ver isso no olhar dela.
Hugo assentiu devagar.
— Nem eu.
Silêncio.
Mas agora…
Cheio de verdade.
— Mas ela já viu quem a gente é… — Caio disse.
— Só não viu o rosto.
Os três ficaram quietos.
Pensando nisso.
Porque no fundo…
O medo não era ela ver.
Era o que ela poderia sentir depois.
Se afastar.
Mudar.
Olhar diferente.
E pela primeira vez…
Isso assustava mais do que qualquer risco lá fora.