a viagem

561 Words
A noite ainda estava quente. O quarto mergulhado em silêncio. Só o som da respiração. Lenta. Pesada. Calma. Eu estava ali… Entre eles. O corpo relaxado, ainda sentindo o calor dos toques, dos braços, da presença. Caio de um lado, a mão ainda desenhando caminhos distraídos na minha pele. Noah atrás de mim, o corpo colado ao meu. E Hugo à frente, me observando em silêncio. Era nesses momentos… Que eu pensava. E talvez… Não fosse a melhor hora pra pensar. Respirei fundo. — Eu preciso falar uma coisa… O clima mudou na mesma hora. Sutil. Mas mudou. Caio parou o movimento da mão. — Fala. Hesitei por um segundo. — Surgiu uma viagem… Silêncio. — Da empresa. Os três ficaram atentos. — Pra onde? — Noah perguntou. Olhei pra frente. — Paris. Silêncio. Pesado. Eu já esperava. — Quanto tempo? — Hugo perguntou, direto. — Algumas semanas… Pausa. — Talvez um mês. O ar ficou denso. Eu senti. Antes mesmo de qualquer resposta. — Não — Caio disse. Simples. Direto. Sem pensar. Fechei os olhos por um segundo. — Eu sabia que você ia dizer isso… — Então por que tá perguntando? — Noah murmurou. Virei um pouco o rosto. — Porque eu queria que vocês entendessem. Silêncio. — É importante pra mim. A voz saiu mais firme agora. — É meu trabalho… minha carreira. Hugo se aproximou um pouco mais. — E você acha que a gente vai deixar você ir sozinha pra outro país? — Não é “deixar” — respondi, olhando pra ele. — É confiar. Silêncio. Pesado. Caio segurou meu queixo com cuidado. Me fazendo olhar pra ele. — Não é sobre confiança. A voz dele estava baixa. Mas carregada. — É sobre segurança. Meu coração apertou. — Eu não posso parar minha vida… — Não tá pedindo pra parar — Noah disse. — Tá pedindo pra se colocar em risco. Respirei fundo. — Eu sei me cuidar. Eles trocaram um olhar. E aquilo… Já dizia tudo. — Não o suficiente — Hugo respondeu. O silêncio voltou. Mas agora… Mais tenso. Mais pessoal. — Eu fugi de casa sozinha — falei, mais baixo. — Construí minha vida sozinha. — Trabalhei sozinha. Olhei pra eles. — Eu não sou fraca. Caio se aproximou mais. A testa encostando na minha. — A gente sabe. — Então por que— — Porque agora você não tá mais sozinha. Silêncio. A frase caiu. Forte. Direta. Perigosa. Meu coração acelerou. — E isso muda tudo — Noah completou. Fechei os olhos por um segundo. Sentindo o peso daquilo. — Eu quero ir… Minha voz saiu mais baixa agora. Mais sincera. — Eu preciso ir. Silêncio. Longo. Pesado. Hugo passou a mão pelo meu cabelo. Devagar. Pensativo. — A gente vai pensar. Abri os olhos. Surpresa. — Sério? Caio respondeu: — Não é um “sim”. — Mas também não é um “não” definitivo. Noah completou: — A gente precisa garantir que você vai estar segura. Meu coração bateu mais forte. — Então… existe chance? Eles trocaram um olhar. E pela primeira vez… Não foi imediato. Não foi fechado. — Existe — Caio disse por fim. Um pequeno alívio passou por mim. Mas eu sabia… Aquilo estava longe de ser resolvido. Porque com eles… Nada era simples. E Paris… Podia ser mais do que só uma viagem.
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