Quase

656 Words
A manhã ainda estava silenciosa. A luz entrando suave pelas cortinas. Tudo calmo. Tranquilo. --- Eu despertei devagar. Ainda meio sonolenta. Virei o rosto no travesseiro… E então meus olhos desceram. Pro chão. --- E eu vi. Duas máscaras. Caídas. Lado a lado. --- Meu coração disparou na hora. Forte. Alto. Descompassado. Os olhos se arregalaram. Por um segundo… Só um… Eu fiquei ali. Imóvel. --- Era a de Caio. E a de Hugo. --- Meu corpo travou. Minha respiração ficou presa. Porque eu sabia. Se eu levantasse um pouco o olhar… Só um pouco… Eu veria. Finalmente. --- Fechei os olhos na mesma hora. Rápido. Quase em desespero. E virei o rosto. Puxando a coberta. Escondendo metade do meu rosto. Como se aquilo fosse me proteger… Ou talvez… Proteger eles. --- Silêncio. Mas agora… Pesado. --- — Não olha. A voz de Noah veio rápida. Acordando no susto. — Agora não. Caio também se mexeu. Percebeu na hora. Hugo puxou o ar. Tenso. --- Eu não me mexi. Só falei baixo. — Eu não tô olhando… Minha voz saiu… estranha. Baixinha. Controlada demais. — Pode ficar tranquilo. --- O colchão se moveu. Rápido. Eles levantando. Pegando as máscaras. O som do tecido. Do movimento apressado. --- Eu continuei de olhos fechados. Mas agora… Totalmente acordada. Sentindo tudo. --- — Eu vou pro banheiro… Falei. Ainda sem abrir os olhos. Sem olhar. Sem arriscar. Levantei devagar. Com cuidado. Como se qualquer movimento errado… Quebrasse alguma coisa. --- Passei por eles. Sentindo a presença. A tensão. Mas sem olhar. Nem por um segundo. --- Entrei no banheiro. Fechei a porta. E aí… Respirei fundo. --- Apoiei as mãos na pia. Olhei meu reflexo. E soltei o ar devagar. --- Eu tive a chance. Finalmente. Depois de tanto tempo. Depois de tanta curiosidade. --- E eu não olhei. --- Fechei os olhos por um segundo. Mas dessa vez… Não foi por impulso. Foi escolha. --- — Eu prometi… Murmurei pra mim mesma. Mas no fundo… Meu peito apertava. --- Porque não era só curiosidade. Era mais. Era querer ver. Conhecer. Sentir que não tinha mais barreira. --- E naquele momento… A barreira ainda estava lá. --- Do outro lado da porta… O silêncio continuava. Pesado. --- Quando voltei… Eles já estavam de máscara. Como sempre. Impecáveis. Intocáveis. Mas… Diferentes. --- O clima estava estranho. Caio foi o primeiro a falar. — Você podia ter olhado. Olhei pra ele. Direto. — Mas eu não quis. Silêncio. Noah inclinou levemente a cabeça. — Por quê? Respirei fundo. — Porque eu disse que ia esperar. Minha voz firme. Mas baixa. — E eu não quero que seja assim. Hugo deu um passo à frente. — Assim como? Engoli seco. — Sem vocês estarem prontos. Silêncio. Mas dessa vez… Mais profundo. --- — Mas eu queria… A frase escapou. Baixinha. Sincera. --- Os três ficaram imóveis. Sentindo aquilo. --- — Eu queria muito. Agora não dava mais pra esconder. --- Caio se aproximou. Devagar. — A gente sabe. Noah completou: — A gente viu. Hugo finalizou: — E foi por isso que você não olhou. --- Desviei o olhar por um segundo. Porque no fundo… Doía. Um pouco. --- — Só que… Minha voz falhou levemente. — Às vezes parece que vocês confiam em mim… — Mas não confiam o suficiente. Silêncio. Pesado. Real. --- Eles trocaram um olhar. Diferente dessa vez. Menos controle. Mais… impacto. --- Caio segurou meu queixo com cuidado. Levantando meu rosto. — A gente confia. Noah: — Mais do que em qualquer pessoa. Hugo: — Justamente por isso. --- Mas dessa vez… Eu não respondi na hora. --- Porque mesmo entendendo… Mesmo aceitando… Ainda assim… Doía um pouco. --- E eles perceberam. Na mesma hora. --- O silêncio voltou. Mas agora… Carregado de algo novo. --- Não era distância. Mas também… Não era paz. --- Era aquele meio termo perigoso. Onde sentimento cresce… E começa a pesar.
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