Capítulo 26

2031 Words
Capítulo 26 — Entre o Amor e o Futuro O primeiro hotel da Alvore seria inaugurado em Florianópolis, um local escolhido não apenas pela beleza natural, mas pelo simbolismo: a fusão entre o mar e o céu, o horizonte onde tudo parece possível. Durante o voo, Aline olhava pela janela. As nuvens passavam devagar, e ela se permitia um raro momento de silêncio. Paulo, ao lado, revisava anotações no tablet, mas ela percebia o leve sorriso que surgia quando ele se distraía. Ele não estava apenas orgulhoso — estava em paz. — Você ainda acha que devia ter escolhido outro nome? — ela perguntou, sem tirar os olhos da vista. — Alvore? — ele respondeu, rindo baixo. — Nunca. É o nome perfeito. Significa recomeço. E nós dois sabemos o que é isso melhor do que ninguém. Ela sorriu. — É... acho que sim. --- Ao chegarem ao hotel, foram recebidos por uma pequena equipe de funcionários — jovens, entusiasmados, alguns até emocionados de conhecer os fundadores. O lugar era um sonho: arquitetura contemporânea, grandes janelas de vidro voltadas para o mar, jardins com lavanda e um aroma suave de madeira e café recém-passado. No saguão, havia uma escultura discreta de uma ampulheta, feita em aço e vidro. Na base, uma pequena placa dizia: > “O tempo não apaga o que é verdadeiro. Apenas nos ensina a esperar.” Aline parou diante da peça, tocando o vidro com a ponta dos dedos. Paulo se aproximou. — Gostou? Foi ideia do Henrique. Disse que simbolizava você. Ela sorriu, emocionada. — Acho que ele entende mais do que deixa parecer. --- À noite, o hotel foi aberto para convidados, investidores e imprensa. O evento era elegante, mas simples — sem ostentação. Paulo discursou brevemente, falando sobre “confiar em quem ninguém mais confia” e sobre “começar do zero com o coração cheio de fé”. Quando ele terminou, chamou Aline para subir ao palco. — Se eu aprendi alguma coisa — disse, olhando para ela —, é que o sucesso não se mede em cifras, mas nas pessoas que escolhem caminhar conosco. Ela o olhou com um brilho terno e, diante de todos, respondeu: — E eu aprendi que, às vezes, o maior investimento que fazemos é na verdade. Os aplausos foram longos, sinceros. E, pela primeira vez, Aline sentiu que Nina Alves — a mulher que um dia viveu nas sombras — podia finalmente descansar. --- Mais tarde, no terraço do hotel, eles ficaram sozinhos, olhando o mar. A brisa fria soprava suave, e o som das ondas quebrando parecia embalar o silêncio entre eles. — Lembra do dia em que você me pediu para confiar? — ela perguntou. — Lembro de cada segundo. — Pois é. Acho que, desde então, eu não parei mais. Paulo sorriu, virando-se para encará-la. — E agora? Confia em mim o suficiente para mais um salto? Ela arqueou a sobrancelha. — Que tipo de salto? Ele tirou do bolso um envelope. Dentro, havia uma proposta de expansão da Alvore — para Lisboa. — Um grupo europeu quer se associar. A ideia é abrir uma filial lá, mantendo o nome e o conceito original. Mas só aceito se você quiser. Ela olhou o papel, depois o horizonte. Parte dela sonhava com o desafio. Outra parte só queria ficar ali, naquele momento eterno, sem precisar provar mais nada a ninguém. — Paulo... e se, por um tempo, a gente apenas vivesse? — ela perguntou, em voz baixa. Ele riu, com ternura. — Viver? — É. Sem projetos, sem contratos. Só... nós. Ele fingiu pensar por um instante. — Você está propondo uma pausa na carreira ou uma lua de mel atrasada? — Talvez as duas coisas. — ela respondeu, sorrindo. Ele olhou para o mar, depois para ela. — Então vamos fazer assim: aceitamos o convite. Mas só depois de viajarmos. Sem roteiro. Só estrada e tempo. Aline o encarou, surpresa. — Está falando sério? — Completamente. — ele respondeu. — Já que o mundo quer tanto nossa história, vamos escrevê-la do nosso jeito. Ela riu, e o som ecoou no vento. — Acho que acabei de me apaixonar por você de novo. — Então o plano já deu certo. --- Na manhã seguinte, o hotel acordou silencioso após a festa. Aline caminhou descalça pelo corredor até a varanda do quarto, ainda com o sol nascendo sobre o mar. A ampulheta de vidro refletia a luz do amanhecer. Ela sorriu ao perceber que, pela primeira vez, o som da areia caindo parecia música. Paulo apareceu atrás dela, abraçando-a pela cintura. — Sabe o que percebi? — murmurou. — O quê? — Que o tempo deixou de ser o vilão da nossa história. Ela virou-se para ele, o rosto banhado pelo sol. — É... Agora ele é só o cenário. E se beijaram — não com urgência, mas com a calma de quem já esperou o suficiente. --- Algumas semanas depois, uma notícia circulava discretamente nos portais de viagem: > “Casal de empresários brasileiros viaja pelo mundo antes de abrir nova filial em Lisboa.” “Aline Méndez e Paulo Bianchi mostram que amor e negócios podem coexistir — quando ambos são construídos com verdade.” Henrique, lendo a manchete, enviou uma mensagem curta a Paulo: > “Sabia que você não conseguiria ficar longe dos holofotes.” Paulo respondeu apenas: > “Não são holofotes. São amanheceres.” --- Enquanto o avião decolava para o próximo destino, Aline segurou a ampulheta de bolso que levava consigo desde o primeiro dia. Olhou para Paulo, adormecido ao lado, e pensou que, talvez, o amor fosse exatamente isso — um recomeço constante, um amanhecer que nunca termina. E, lá do alto, entre nuvens e promessas, ela sussurrou, para si mesma: — Que venham todos os começos do mundo. Capítulo 27 Capítulo 27 — Estradas e Estações A estrada se estendia diante deles, serpenteando entre colinas cobertas de verde e o azul infinito do céu. Nenhum destino exato, nenhum relógio a ditar o caminho. Aline e Paulo tinham prometido a si mesmos uma viagem sem mapas — apenas com paradas escolhidas ao acaso, lugares simples, onde o mundo ainda respirava devagar. O carro alugado seguia pela rota litorânea, o vento entrando pelas janelas abertas, o som de uma velha música italiana tocando no rádio. Aline ria ao tentar cantar junto, inventando as palavras. Paulo, fingindo seriedade, dizia: — Tenho certeza de que você acabou de misturar francês, espanhol e latim nessa letra. — É a minha versão internacional. — ela respondeu, sorrindo. Ele balançou a cabeça, encantado com a leveza dela — tão diferente da mulher reservada que conhecera anos antes. Agora, Aline parecia finalmente dona de si, do próprio tempo, da própria história. Pararam para almoçar em uma pequena vila pesqueira. O restaurante era simples, com mesas de madeira e toalhas brancas manchadas de sol. O dono, um senhor simpático, lhes serviu peixe fresco e vinho local. — Faz tempo que não vejo um casal rir tanto. — comentou o homem, sorrindo. — Viajam a trabalho ou por amor? Aline se olhou com Paulo e respondeu: — Talvez pelos dois. Mas, desta vez, o amor veio primeiro. O dono assentiu, satisfeito, e se afastou. Paulo observou Aline por um instante, com aquele olhar calmo que parecia ler o que ela pensava. — Sabe o que percebi? — disse ele. — O quê? — Você está mais bonita quando esquece o amanhã. Ela arqueou uma sobrancelha. — Então devo viver no presente pra sempre? — Se depender de mim, sim. À tarde, seguiram viagem até uma cidadezinha serrana. Ficaram hospedados em uma pousada com lareira e varanda com vista para o vale. Do lado de fora, as montanhas se tingiam de laranja sob o pôr do sol. Aline acendeu a lareira e se sentou no tapete, envolta em um cobertor. Paulo trouxe duas xícaras de chocolate quente e se sentou ao lado dela. — Lembra da primeira vez que ficamos assim, em silêncio? — ele perguntou. — No escritório. — respondeu ela. — Quando você me deixou revisar aquele contrato sozinha e ficou me observando da janela. Paulo riu. — E eu achando que estava disfarçando bem. — Você nunca disfarçou. — disse ela, brincando. — Só achou que sim. O fogo estalava baixinho, lançando reflexos dourados no rosto deles. Por um momento, Aline pensou em tudo que haviam enfrentado: o medo, as máscaras, a culpa. E agora estavam ali — inteiros, sem esconder nada. — Paulo... — começou ela. — Se um dia tudo isso acabar — os hotéis, as viagens, o sucesso —, o que sobra pra gente? Ele a olhou com ternura. — Sobra o que nunca dependeu disso. — disse. — Sobra o que começou antes de qualquer contrato: nós. Ela encostou a cabeça no ombro dele. — Então acho que já temos o suficiente. Nos dias seguintes, seguiram pela estrada, sem pressa. Paravam em feiras, pequenas praias, mirantes esquecidos. Aline começou a tirar fotos — não de lugares, mas de momentos: um copo de café, um reflexo no vidro, a sombra das mãos deles entrelaçadas. Paulo, um dia, folheando o celular, comentou: — Percebeu que você nunca fotografa o céu? Ela sorriu. — Porque o céu muda todo dia. E eu gosto de guardar só o que posso tocar. Certa manhã, pegaram um trem até uma cidade histórica. Era uma daquelas viagens lentas, com paisagens que pareciam pinturas — plantações, vilas, igrejas antigas. Aline apoiou a cabeça na janela e perguntou: — Você acredita em destino? Paulo pensou por um instante. — Acredito em escolhas. — Então, no fundo, nós escolhemos nos encontrar? — Talvez o universo tenha dado um empurrão. Mas, sim. No fim, sempre escolhemos. Ela sorriu, e o reflexo dos dois no vidro parecia o retrato de uma promessa antiga — algo que o tempo, apesar de tudo, nunca conseguiu apagar. À noite, hospedaram-se em um hotel simples próximo à estação. Chovia. Aline ficou observando as gotas escorrerem pelo vidro, enquanto Paulo lia em silêncio ao lado. O som da chuva misturado à respiração dele parecia compor uma canção suave. De repente, ela disse: — Sabe o que eu percebo? — O quê? — perguntou ele, sem levantar os olhos. — Que a felicidade não faz barulho. Ele fechou o livro e a olhou, sorrindo. — E é por isso que a gente quase nunca percebe quando ela chega. Ela se aproximou e o abraçou. Não disseram mais nada. A chuva continuou, paciente, lá fora — como se o mundo inteiro estivesse disposto a lhes dar mais tempo. Nos dias seguintes, seguiram rumo ao interior, cruzando pontes e planícies, colecionando lembranças. Cada cidade deixava um pedaço deles — e levava outro embora. Era como se a viagem fosse um espelho da própria vida: cheia de idas e voltas, de pequenas paradas e grandes recomeços. Em uma das paradas, Aline encontrou uma loja antiga e comprou uma nova ampulheta, menor, feita de madeira escura. Quando mostrou a Paulo, ele perguntou: — Vai substituir a antiga? Ela balançou a cabeça. — Não. Só quero lembrar que o tempo pode mudar de forma, mas nunca de sentido. Na última noite antes de voltarem, ficaram à beira do mar, observando as ondas sob a lua cheia. Paulo pegou a mão dela e disse: — Acho que o mundo ficou mais simples desde que te conheci. — Não. — respondeu ela, sorrindo. — O mundo continua complicado. A diferença é que agora a gente aprendeu a amar o caos. Ele riu. — Então que seja isso. Nosso caos tranquilo. E ficaram ali, em silêncio, deixando o vento apagar qualquer resto de passado. Na manhã seguinte, enquanto o sol nascia, Aline escreveu em seu diário de viagem: > “O amor não precisa correr. Às vezes, ele só precisa andar ao lado — pelas estradas, pelas estações, pelas pausas entre um destino e outro. Porque é nas pausas que a vida respira. E é nelas que a gente descobre quem realmente é.” Ela fechou o caderno, olhou para Paulo e sorriu. O futuro os esperava — mas, pela primeira vez, sem pressa.
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