Capítulo 20

1113 Words
Capítulo 20 - O Inimigo Silencioso O jantar de gala terminou tarde, e mesmo depois que os últimos convidados se foram, o brilho daquela noite permaneceu em Paulo e Aline como um segredo compartilhado. Ela ainda podia sentir o peso leve da mão dele em suas costas quando a conduziu até a mesa de honra, e o olhar dele, discreto mas constante, durante todo o evento. Mas, como toda noite mágica, o amanhecer veio com sombras. --- Na segunda-feira, o clima na empresa havia mudado. Sorrisos formais, cumprimentos rápidos, e uma energia quase imperceptível no ar - algo que dizia que havia rumores circulando. Aline percebeu logo. O olhar de algumas secretárias se tornara inquisitivo; até os estagiários cochichavam quando ela passava. Quando abriu o computador, uma notificação piscava na tela: > Assunto: Divulgação indevida de imagens - URGENTE. O e-mail havia sido enviado pelo departamento jurídico, com cópia para Paulo e o conselho. O anexo trazia um link interno: "Fotos não autorizadas - Jantar de Gala." Com o coração acelerado, ela clicou. E ali estavam. Imagens nítidas dela e Paulo, em momentos aparentemente inocentes - mas manipuladas de forma a parecerem íntimas. Um ângulo capturava o instante em que ele sussurrava algo ao seu ouvido; outro, o momento em que ele a olhava, admirado. Os comentários embaixo das fotos eram piores: "Favoritismo confirmado?", "A nova senhora Bianchi?", "Subiu rápido demais." Aline sentiu o estômago revirar. Sabia exatamente quem tinha a ganhar com aquilo. --- No mesmo instante, Paulo recebeu a ligação de Henrique. - Já viu o e-mail? - Acabei de ver. - respondeu ele, tenso. - Foi o Munhoz. Eu aposto tudo. Paulo fechou os olhos, tentando conter a raiva. - Manda bloquear o link e acionar o jurídico. - Já fiz. Mas... o dano está feito. As imagens já estão em grupos de investidores. Paulo respirou fundo, lutando contra o impulso de quebrar algo. - Ele quer me derrubar. - E vai tentar usar ela pra isso. - concluiu Henrique. --- No final da manhã, Paulo chamou Aline à sua sala. Ela entrou silenciosa, o olhar firme apesar do evidente abalo. - Eu vi as fotos. - disse ela, antes mesmo que ele começasse. - Já estamos cuidando disso. - Eu sei. Mas... - ela hesitou, - não posso deixar você ser prejudicado por minha causa. Paulo levantou-se, caminhou até ela. - Não é por sua causa. É por causa deles. Por causa de gente que tem medo da verdade. - A verdade... - ela sussurrou, - é que se continuarmos próximos, vão destruir tudo o que você construiu. Ele a olhou nos olhos, sério. - Então que destruam. Eu posso reconstruir mil vezes. Só não posso fingir que não te vejo, Aline. Ela desviou o olhar, sentindo o coração apertar. - Paulo, você não entende. Eu... tenho coisas que eles poderiam usar. Ele franziu o cenho. - Que tipo de coisas? Mas antes que ela pudesse responder, Henrique entrou apressado, com o rosto tenso. - Paulo... saiu no Jornal Financeiro. Uma matéria inteira. Paulo pegou o tablet. A manchete o atingiu como um soco: > "CEO da Bianchi Hotels envolvido em possível relação com funcionária. Conselho analisa novo pedido de afastamento." Havia trechos insinuando que Aline havia recebido benefícios indevidos, promoções rápidas, viagens caras. E, no meio da matéria, o nome "Nina Alves" aparecia. Paulo leu em voz alta, incrédulo: - "Fontes afirmam que Aline Méndez, também conhecida por usar o pseudônimo 'Nina Alves' em eventos sociais, teria se aproximado do CEO por interesse." Aline empalideceu. O chão pareceu sumir sob seus pés. Henrique olhou de um para o outro, confuso. - Nina Alves? O que é isso? Ela tentou falar, mas a voz falhou. - Eu... - respirou fundo -, era um nome que eu usava, antes de trabalhar aqui. Paulo a encarava, sem piscar. - Antes... como assim? - Eu não fiz nada errado, Paulo. - disse, quase num sussurro. - Só... usava esse nome em eventos, quando ainda tentava abrir meu espaço. Era o único jeito de ser ouvida sem ser julgada pela aparência, ou por ser mulher. O silêncio que se seguiu foi pesado. Henrique percebeu e saiu discretamente, fechando a porta. Paulo continuou olhando para ela, o rosto indecifrável. - E você nunca me contou. - Eu tinha medo. - admitiu. - Medo de que achasse que eu era... outra pessoa. Ele passou a mão pelos cabelos, andando de um lado para o outro. - E agora eles estão usando isso pra te pintar como uma mentirosa. - E pra destruir você. - completou ela. --- À tarde, o prédio virou um campo de tensão. Assessores indo e vindo, advogados revisando notas, e um novo comunicado interno do conselho convocando uma reunião emergencial para o dia seguinte. Aline passou as últimas horas trancada em sua sala, relendo o artigo como quem encara um espelho distorcido. Aquela não era ela. Mas era o que o mundo estava prestes a acreditar. Quando o telefone tocou, ela atendeu de imediato. - Senhorita Méndez? - a voz do outro lado era fria, formal. - Aqui é da assessoria do conselho. - Sim? - A senhorita está suspensa preventivamente até segunda ordem. Pedimos que não retorne ao edifício até nova comunicação. Aline sentiu o coração parar. - Suspensa...? - Medida administrativa. Nada pessoal. Mas era. Tudo era pessoal. --- À noite, Paulo foi até o apartamento dela. Bateu à porta, e quando ela abriu, o olhar dele dizia o que as palavras não conseguiam. - Eu tentei impedir, mas o conselho foi rápido demais. Ela apenas assentiu. Estava cansada de lutar contra o que não podia controlar. - Eu não quero te envolver mais nisso. - disse ela. - Eles vão usar cada gesto seu contra você. - E o que quer que eu faça, Aline? - ele respondeu, com a voz trêmula. - Fingir que não me importo? Ela desviou o olhar, lágrimas discretas nos olhos. - Talvez seja o melhor... por enquanto. Paulo se aproximou, e o ar pareceu carregar eletricidade. Ele ergueu a mão, tocando de leve o rosto dela. - Por enquanto... - repetiu. - é só um intervalo. E então, antes que ela pudesse recuar, ele beijou sua testa - um beijo contido, mas carregado de tudo o que o silêncio guardava. Depois, saiu. Deixando atrás de si o eco do que ambos sabiam: a guerra havia apenas começado. --- No dia seguinte, Munhoz observava a capa do jornal sobre a mesa e sorriu. - Agora sim, Bianchi... vamos ver se o seu amor resiste à verdade. E, no canto inferior da matéria, o nome "Nina Alves" piscava como uma bomba prestes a explodir.
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