Capítulo 24

1169 Words
Capítulo 24 - Sombras do Passado O sucesso inicial da Alvore Hotels & Experiences atraiu atenção mais rápido do que Paulo imaginava. Em poucos meses, o projeto conquistara parcerias, elogios na imprensa e até prêmios de inovação. A história do "renascido Bianchi" era contada com um tom quase mítico - o homem que perdeu tudo por amor e reconstruiu do zero. Mas, para Aline, o brilho da nova fase vinha acompanhado de um receio silencioso. A cada vez que alguém mencionava o nome "Nina Alves", mesmo que em tom de curiosidade, o coração dela apertava. Ela sabia que o passado não desaparece - ele apenas espera o momento certo para reaparecer. --- Numa manhã de quinta-feira, enquanto revisava uma proposta de investimento, o telefone tocou. Era um número desconhecido. Aline hesitou antes de atender. - Alô? Do outro lado, uma voz masculina respondeu, firme, mas com um toque familiar. - Olá, Nina. Quanto tempo. O sangue dela gelou. - Quem está falando? Uma breve risada ecoou. - Não esperava que esquecesse tão fácil. Ricardo Viana. O nome caiu como um golpe. Ricardo havia sido um dos empresários que frequentava os eventos em que "Nina Alves" trabalhava. Charmoso, influente - e, por trás da aparência refinada, manipulador. - Não tenho nada pra conversar com você, Ricardo. - Oh, eu acho que tem, sim. - respondeu ele, em tom leve. - Soube que está no comando de um novo império. "Alvore", não é? Um nome bonito... pra alguém que um dia se apresentou como outra pessoa. Ela apertou o celular com força. - O que você quer? - Nada impossível, minha cara. Só um encontro. Hoje à noite, no hotel Aurora Palace. Digamos... às oito. - E se eu não for? - Então, amanhã cedo, as fotos de Nina Alves reaparecem nos jornais. E eu garanto que o senhor Bianchi vai adorar saber o que ainda não lhe contou. A ligação caiu. Aline ficou parada, respirando com dificuldade. Sabia que aquele fantasma um dia voltaria - só não esperava que fosse agora, quando tudo parecia finalmente em paz. --- Ela passou o resto do dia tentando esconder a angústia. Trabalhou em silêncio, respondeu e-mails, participou de reuniões. Mas Paulo, atento como sempre, percebeu. - Está tudo bem? - perguntou, no fim da tarde. Ela forçou um sorriso. - Só cansaço. Ele observou o olhar dela - o mesmo olhar que já aprendera a decifrar. - Cansaço... ou preocupação? Aline desviou o olhar. - É só um assunto pessoal, Paulo. Eu resolvo. Ele assentiu, respeitando o espaço dela, mas ficou inquieto. Sabia que algo a estava atormentando, e a forma como ela evitava seus olhos só confirmava isso. --- Às oito da noite, Aline entrou no saguão do Aurora Palace. Vestia um vestido preto simples, cabelos soltos. Nada chamava atenção - e, ainda assim, ela parecia brilhar. Ricardo estava no bar, como prometera. O mesmo sorriso confiante de sempre, o mesmo olhar predador. - Vejo que ainda sabe entrar em uma sala, Nina. - Meu nome é Aline. - Ah, sim. Aline Méndez. A nova queridinha da hotelaria. - Ele girou o copo nas mãos. - Que ironia, não? A mulher que servia champanhe em eventos agora tem sua própria rede de hotéis. - Diga logo o que quer. Ricardo a observou por um instante, depois pousou um envelope sobre a mesa. - Um investimento. Um pequeno contrato de parceria entre minha empresa e a sua. - E se eu disser não? Ele inclinou a cabeça, com um sorriso frio. - Então eu conto ao mundo quem você era. Tenho fotos, registros, até vídeos. Coisas que fariam um estrago... bonito. Aline o encarou, tensa. - Isso é chantagem. - Não. - ele respondeu, calmo. - É uma oportunidade de evitar escândalos. E de me dever um favor. Por um momento, ela quis se levantar e sair. Mas o medo congelou seus passos. - Eu preciso pensar. - disse, tentando manter a voz firme. Ricardo sorriu. - Tem até amanhã. Depois disso, Nina volta aos holofotes. --- De volta ao apartamento, Aline caminhava em círculos. O passado, que ela havia enterrado com tanta dor, estava prestes a desabar sobre ela outra vez. E, dessa vez, não era só sua reputação em jogo - era o sonho que Paulo reconstruíra por eles dois. Ela pensou em contar a verdade. Mas e se ele a visse diferente? E se, por mais que a amasse, a imagem de "Nina" fosse forte demais para apagar? Aline sentou-se à beira da cama e olhou para a ampulheta sobre a mesa. A areia caía, silenciosa. O tempo corria - e ela não sabia quanto ainda tinha antes que tudo ruísse. --- Na manhã seguinte, Paulo chegou ao escritório cedo. Aline já estava lá, mas o semblante dela o alarmou. - Aconteceu alguma coisa. - afirmou ele, sem rodeios. Ela tentou disfarçar. - Paulo, eu... Ele deu um passo à frente. - Aline, olhe pra mim. Ela levantou os olhos - e desabou. Contou tudo. A ligação. O encontro. O envelope. Cada palavra doeu, mas era libertadora. Quando terminou, esperou a reação dele. Paulo ficou em silêncio por alguns segundos. Depois, disse apenas: - Você devia ter me dito antes. Ela abaixou a cabeça. - Eu tinha medo. - Medo de mim? - Medo de perder tudo de novo. Paulo se aproximou, e com um gesto suave, levantou o queixo dela. - Aline... nada que venha do seu passado pode apagar o que você é agora. Ela mordeu o lábio, emocionada. - Mas ele pode destruir o que você construiu. - O que eu construí sem você não significa nada. - disse ele. - E, se alguém tentar usar o seu passado contra nós, vai descobrir que não somos feitos de areia. --- No mesmo dia, Paulo marcou uma reunião com Ricardo. No mesmo hotel. Aline tentou impedi-lo, mas ele foi. Ninguém sabe exatamente o que foi dito entre eles. Só que, quando Paulo voltou, trazia o envelope rasgado nas mãos - e o olhar calmo de quem havia encerrado um ciclo. - Ele não vai incomodar mais. - disse apenas. - Como pode ter tanta certeza? - Porque há homens que só entendem quando olham nos olhos de quem não tem medo. --- Naquela noite, Aline o esperou no terraço do prédio. O vento era frio, mas o coração dela estava quente. Quando ele chegou, ela apenas o abraçou. Ficaram assim, em silêncio, por longos minutos. - Paulo... obrigada. - Não me agradeça. - ele respondeu. - Só me prometa que nunca mais vai lutar sozinha. Ela assentiu. E, pela primeira vez em muito tempo, o passado não parecia mais uma sombra - mas uma lembrança distante, incapaz de apagar a luz que agora os envolvia. --- Enquanto a cidade adormecia, as luzes dos escritórios da Alvore continuavam acesas. Dentro delas, um novo capítulo se escrevia - não de segredos, mas de coragem. E o amor deles, agora sem disfarces, começava finalmente a florescer em plena luz do dia.
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