CAPÍTULO 16

2133 Words
Capítulo 16 — Sombras no Conselho A tempestade daquela semana não estava apenas no céu. Pairava também sobre o Grupo Bianchi — uma névoa de rumores, dúvidas e interesses escondidos. Paulo sentia o peso das sombras à sua volta. Nos últimos dias, reuniões paralelas vinham ocorrendo entre alguns membros do conselho, e a pauta era clara: a sucessão e a imagem pública da empresa. Por trás dos e-mails diplomáticos e dos sorrisos educados, havia conspirações. O sucesso do grupo era inegável, mas as ambições também. E, para muitos, a figura de Aline — tão próxima, tão influente — era uma ameaça disfarçada. Na manhã de terça-feira, o assessor direto de Paulo, Henrique Tavares, entrou em sua sala com expressão tensa. — Paulo, você tem um minuto? — Claro, entre. — respondeu ele, fechando o notebook. Henrique hesitou antes de falar. — O conselho marcou uma reunião emergencial para sexta. Estão questionando algumas de suas decisões estratégicas. — “Algumas”? — Paulo arqueou a sobrancelha. — Ou “alguém”? Henrique soltou o ar, nervoso. — Munhoz e o grupo europeu estão pressionando. Dizem que você está se envolvendo emocionalmente com uma funcionária e que isso compromete a imparcialidade da administração. Paulo recostou-se na cadeira, o olhar endurecendo. — Eles realmente não têm limites. — Quer que eu tente conter isso? — Não. — Paulo levantou-se. — Quero que deixem falar. Às vezes, o silêncio diz mais do que qualquer defesa. Mas, por dentro, sabia que a situação era grave. O que o conselho estava prestes a fazer não era apenas uma provocação — era uma tentativa de golpe velado. Enquanto isso, Aline notava os sinais do ambiente. Os cumprimentos frios, os cochichos, os olhares disfarçados nos corredores. Nada lhe era dito diretamente, mas o clima falava por si. Certa tarde, ao sair de uma reunião, encontrou a secretária de outro diretor no corredor. — Aline... — disse a mulher, num tom hesitante. — Desculpa me intrometer, mas ouvi coisas feias sobre você. — Eu imaginava. — respondeu Aline, com serenidade. — E o que dizem agora? — Que o senhor Bianchi vai ser afastado, e que talvez... você seja incluída na investigação interna. Aline sorriu de leve, mas o coração acelerou. — Obrigada por me avisar. Ao entrar no elevador, olhou seu reflexo no espelho: firme, elegante, mas vulnerável por dentro. Ela sabia que os ataques vinham disfarçados de ética, mas o verdadeiro motivo era outro — poder e ciúme. Naquela noite, Paulo ligou para ela. Era tarde, e sua voz soava diferente — grave, cansada, mas suave. — Precisamos conversar. Ela sentiu o frio percorrer-lhe a espinha. — Aconteceu alguma coisa? — Sim. O conselho vai tentar me tirar da presidência. Silêncio. Aline sentiu o chão desaparecer por um segundo. — Por minha causa? — Não. — Ele respondeu rápido. — Por minha independência. Mas você... é a desculpa perfeita pra isso. Ela respirou fundo. — Então me afaste. — disse, com calma, embora o peito doesse. — Se eu sair, eles não terão argumento. — Não. — A voz dele foi firme. — Não vou te afastar por medo. — Paulo, não é medo. É estratégia. — tentou argumentar. — Estratégia seria lutar junto, Aline. — respondeu, com a emoção subindo. — E eu não vou permitir que o amor que sinto — sim, o amor — seja usado contra nós. Ela ficou em silêncio. As palavras dele ecoaram no peito, como se o mundo tivesse parado naquele instante. Era a primeira vez que ele dizia aquilo com todas as letras. — Paulo... — murmurou, sentindo a voz falhar. — Isso pode nos destruir. — Ou nos libertar. — respondeu, com um tom que misturava desafio e ternura. Na sexta-feira, o conselho se reuniu em caráter de urgência. Paulo entrou na sala com postura imponente, o terno impecável, os olhos determinados. Aline, embora oficialmente não convocada, aguardava do lado de fora — sozinha, sentada num dos sofás do corredor. Cada minuto parecia uma eternidade. Lá dentro, as vozes se erguiam e caíam em ondas. Munhoz, sempre teatral, foi o primeiro a atacar: — Com todo respeito, senhor Bianchi, sua liderança tem sido questionada. Há boatos de que mantém envolvimento pessoal com uma funcionária, e isso pode comprometer a reputação da empresa. Paulo manteve o olhar sereno. — O que compromete a reputação de uma empresa, senhor Munhoz, não é o caráter de quem a lidera, mas a falta de ética de quem a sabota. Murmúrios atravessaram a mesa. O homem enrubesceu. Mas Paulo não recuou. — Eu não vou permitir que mentiras e insinuações substituam competência. A senhorita Méndez é uma das profissionais mais brilhantes desta companhia. Se sua inteligência incomoda, talvez o problema não esteja nela. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Mesmo os diretores europeus, que vinham instruídos a votar contra ele, hesitaram. O respeito era palpável. No fim da reunião, o conselho decidiu adiar qualquer deliberação até “nova análise de conduta”. Uma vitória parcial. Mas Paulo sabia: aquilo era apenas o começo. Ao sair, encontrou Aline no corredor. Ela levantou-se imediatamente, o olhar apreensivo. — E então? — Ganhamos tempo. — respondeu ele, com um meio sorriso cansado. — Tempo suficiente? — O bastante pra decidir o que realmente queremos. Ela o olhou com ternura e dor. — Eu quero o que é certo, Paulo. — E eu quero o que é verdadeiro. — retrucou, baixando o tom. — Mesmo que o mundo inteiro diga que é errado. Por um instante, o mundo parou ali — naquele corredor silencioso, entre olhares cúmplices e destinos entrelaçados. Ele tocou sua mão, discretamente, antes de se afastar. Não havia promessas, nem certezas. Mas havia algo mais forte: a coragem de continuar, mesmo na sombra das ameaças. Mais tarde, já sozinha, Aline olhou pela janela de seu pequeno apartamento. As luzes da cidade refletiam nas gotas de chuva que voltavam a cair. E ela escreveu, como quem conversa com a própria alma: > “As sombras sempre existirão. Mas talvez o amor verdadeiro não precise da luz para sobreviver. Basta reconhecer o outro, mesmo na escuridão.” E, enquanto a chuva lavava a noite, Aline soube: as sombras do conselho não eram o fim — apenas o início de uma nova batalha. E ela, ao lado de Paulo, estava pronta para lutar. Capítulo 17 Capítulo 17 — O Preço da Lealdade A semana seguinte começou com silêncio — o tipo de silêncio que não é calma, mas aviso. Os corredores da Bianchi Hotels estavam mais frios, os sorrisos mais curtos. E, ainda que ninguém dissesse abertamente, Aline sabia que era o centro das conversas. Ela andava com a cabeça erguida, o passo firme, o olhar sereno. Mas por dentro, o peito era uma tempestade. Cada olhar atravessado, cada cochicho que parava quando ela passava, era uma ferida invisível. Desde a reunião do conselho, os rumores haviam se multiplicado. Alguns diziam que ela manipulava o CEO. Outros, que o seduzira para conseguir poder. E havia os piores — os que riam baixo e a chamavam de “a nova Nina Bianchi”. Aline não reagia. Sabia que se respondesse, dariam razão às más línguas. Sabia também que o tempo, mais do que qualquer defesa, revelaria a verdade. Mas o que ela não sabia era que Paulo também sofria. --- No alto do 32º andar, ele observava a cidade pela janela panorâmica. As luzes de São Paulo piscavam distantes, indiferentes aos dramas humanos que se desenrolavam sob elas. Henrique bateu à porta. — Pode entrar. — disse Paulo, sem virar-se. — Paulo, preciso ser honesto — começou o assessor. — Estão preparando uma auditoria interna. — Auditoria? — Sim. Vão revisar todas as contratações, promoções e viagens dos últimos dois anos. — Ou seja, vão atrás de Aline. Henrique abaixou a cabeça. — É o que parece. Paulo respirou fundo, a raiva e o medo se misturando. Ele havia enfrentado muitos inimigos ao longo da carreira, mas aquele era diferente. Porque agora, o que estava em jogo não era o lucro — era o coração. --- Naquela tarde, Aline foi chamada ao setor de Compliance. A sala era fria, de paredes brancas, sem janelas. Três pessoas a esperavam, todas com a mesma expressão profissional que disfarça julgamento. — Senhorita Méndez — começou a diretora, ajustando os óculos —, trata-se apenas de uma verificação de rotina. Precisamos revisar seu histórico de despesas e viagens. Aline assentiu. — Claro. Todos os relatórios estão devidamente arquivados. — Sim, já os vimos. — respondeu a mulher. — Mas gostaríamos de entender... por que tantas viagens acompanharam exclusivamente o senhor Bianchi? Aline manteve o olhar firme. — Porque sou a secretária executiva dele. Minhas funções incluem suporte direto em reuniões, eventos e decisões estratégicas. Um dos avaliadores insistiu: — A senhorita o acompanhou em viagens internacionais sem a presença de outros executivos. Considera isso adequado? Ela sorriu de leve. — Considero profissionalismo adequado. A confiança também é uma forma de competência. O silêncio que se seguiu foi tenso. Eles anotaram algo, e ela percebeu que, qualquer que fosse sua resposta, já havia sido julgada antes mesmo de falar. --- No fim do expediente, Paulo a esperava. Ele estava de pé, junto à janela do escritório, o casaco pendurado na cadeira. Quando ela entrou, o olhar dele foi direto, preocupado. — Eles te chamaram. — Chamaram. — confirmou, com serenidade. — E foram duros? — Foram previsíveis. Ele sorriu, um sorriso triste. — Eu devia ter impedido isso. — E como faria isso sem que parecesse favorecimento? — respondeu ela. — Paulo, você não pode me proteger de tudo. — Mas eu quero. — A voz dele saiu baixa, carregada de emoção. — Quero te tirar daqui, te levar pra longe dessa gente, desses olhares. Ela o olhou com ternura. — E o que restaria de mim se eu fugisse? — Você não precisa provar nada pra ninguém. — Preciso pra mim. — disse ela, firme. — Porque se eu for embora agora, tudo o que eles disseram vai parecer verdade. Paulo ficou em silêncio. Sabia que ela tinha razão. Mas a ideia de vê-la sofrer era insuportável. — Aline... — começou, hesitante. — Eu não sei se aguento ver você pagando o preço por algo que é culpa minha. Ela se aproximou um passo. — O preço da lealdade é alto, Paulo. Mas a traição custa mais caro. Ele a encarou por um instante, e a emoção lhe subiu aos olhos. Sem pensar, tocou o rosto dela com delicadeza — apenas um gesto breve, mas cheio de tudo o que não podia ser dito. E ela, por um segundo, fechou os olhos, como se aquele toque fosse o único refúgio possível num mundo hostil. --- Naquela noite, Aline saiu tarde. Chovia. Ela andou até o ponto de táxi, o guarda-chuva oscilando ao vento. Enquanto esperava, o celular vibrou. Era uma mensagem anônima, de um número desconhecido: > “Você devia ter ficado no seu lugar. O jogo é dos grandes, senhorita Méndez.” Aline sentiu o coração gelar. Mas, ao invés de medo, algo dentro dela se acendeu — uma centelha de resistência. Guardou o telefone, respirou fundo e pensou em Paulo. > “Se o amor é o que me coloca em perigo, então que o perigo saiba com quem está lidando.” --- No dia seguinte, chegou à empresa ainda mais decidida. Enquanto todos a observavam, caminhou até a sala de Paulo. Ele levantou o olhar, surpreso com a firmeza no rosto dela. — Preciso te pedir uma coisa. — disse. — Qualquer coisa. — Me deixa lutar do meu jeito. Ele hesitou. — E se te machucarem? — Já tentaram. — respondeu, sorrindo de leve. — Agora é minha vez. Paulo não respondeu. Apenas a olhou como quem reconhece a mulher que sempre soube que estava ali — por trás dos óculos, da timidez e da fachada de controle. --- Enquanto ela saía da sala, Henrique entrou apressado, trazendo um envelope. — Paulo... — disse, ofegante. — Chegou um memorando do conselho. Paulo abriu, leu, e seu rosto mudou. Aline, que ainda estava perto da porta, voltou-se para ele. — O que foi? Ele respirou fundo. — Estão marcando uma nova reunião. — Pra quando? — Segunda. E o assunto... — ele levantou os olhos, sério — é a minha permanência no cargo. O silêncio caiu pesado. Aline sentiu o coração apertar. Sabia o que aquilo significava. Mas quando o medo ameaçou voltar, lembrou-se do que havia dito: > “O preço da lealdade é alto. Mas a traição custa mais caro.” E naquele momento, ambos entenderam: o amor que os unia não era apenas sentimento — era uma escolha. E toda escolha tem seu preço.
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