O relógio de pêndulo no hall de entrada batia as horas, um som surdo que parecia marcar o tempo em um mundo que já não existia.
Duas da manhã.
A casa estava mergulhada em um silêncio profundo e doentio, pesado com o cheiro opressor dos lírios que começavam a murchar.
Os convidados se foram. As luzes da sala principal estavam apagadas. Maria, a governanta, havia se recolhido, exausta. Letícia dormia em seu quarto, num sono químico, induzido por mais uma dose de calmantes.
Mas Débora não conseguia dormir.
Ela estava na biblioteca.
O cômodo estava escuro, iluminado apenas pela luz fraca do abajur de mesa. Ela se sentia atraída para lá, como se o local do seu beijo roubado fosse o único lugar que pudesse conter a magnitude da sua culpa.
Na mesa de mogno polido, intocado desde a manhã da tragédia, estava o laptop de Tiago. Fechado.
Débora ficou parada em frente a ele, os dedos traçando a tampa de metal fria. A última arma dele. A investigação que ele estava fazendo, que ela ignorou, que ela atrapalhou com suas mentiras.
“Você vai continuar cega até quando?”
A voz dele ecoou em sua mente, tão clara que ela olhou por cima do ombro, esperando vê-lo ali.
“Eu estou fazendo isso por nós.”
A culpa era uma coisa física, uma garra fria apertando seu peito, roubando seu fôlego. Ela não chorou no velório, não na frente de todos. Ela não merecia o alívio das lágrimas.
Ela era a culpada. Ela era a pecadora suja cuja depravação havia exigido um sacrifício. Enquanto ela se deliciava no corredor, ele estava morrendo em uma estrada escura.
Um movimento nas sombras a fez pular, o coração disparando na garganta.
Leo estava parado na porta.
Ela não o ouviu chegar. Ele estava ali, uma silhueta alta na escuridão, observando-a. Ele não usava mais o terno do velório; estava com uma calça de moletom escura e uma camiseta, roupas de dormir. Roupas de casa.
Ela se encolheu, o instinto de fuga disparando. Mas não havia para onde correr.
Ele não se aproximou. Ele não sorriu. Seu rosto, na penumbra, era inescrutável, solene. Ele apenas entrou na biblioteca, o silêncio preenchendo o espaço entre eles.
Ele se sentou. Não ao lado dela, mas em uma das poltronas de couro, a alguns metros de distância. E esperou.
O silêncio se esticou, quebrado apenas pelo tique-taque do relógio. Não era um silêncio de caça. Era um silêncio de... companhia. De vigília.
Débora não aguentou. Um soluço seco escapou da sua garganta, um som feio e quebrado.
— É... é minha culpa — ela sussurrou para o laptop, as palavras rasgando sua garganta. — Eu... eu...
Ela esperou a negação, a confusão. Ela esperou que ele a usasse, que ele zombasse dela.
Mas a voz de Leo veio da escuridão, calma, firme e incrivelmente gentil.
— Não.
Débora balançou a cabeça, as lágrimas finalmente se formando, quentes e grossas.
— Você não entende... Eu...
— A dor que você sente é o luto — disse ele, levantando-se e caminhando até ela. Ele parou ao seu lado, olhando para o laptop. — A culpa é desnecessária. Você não fez nada.
As palavras foram um soco e uma absolvição. Ele não podia saber. Ele não podia saber o que ela sentia, o que ela tinha feito. E, no entanto, ele disse exatamente o que sua alma partida precisava ouvir.
Você não fez nada.
Ela desmoronou.
O soluço que veio a seguir foi um uivo de dor pura, a represa de culpa e horror finalmente se quebrando. Ela se curvou sobre a mesa, o corpo tremendo violentamente.
E então, ela sentiu.
Os braços dele.
Não foi s****l. Não foi possessivo. Não foi o toque predatório debaixo da mesa, nem o beijo de posse na biblioteca.
Foi humano.
A mão dele pousou suavemente em suas costas, e então ele a puxou para si. Ele a envolveu em um abraço firme, sólido, uma mão segurando suas costas e a outra em sua nuca, embalando-a enquanto ela se quebrava. Ele não disse nada. Ele apenas a segurou.
Ele era quente. E sólido. A única coisa sólida em um universo que havia se dissolvido em caos e cheiro de lírios.
Destruída, solitária e desesperada por qualquer conexão humana que a impedisse de se desintegrar, Débora se agarrou a ele.
Ela enterrou o rosto na camiseta escura dele, as mãos agarrando o tecido das suas costas, e chorou.
Chorou pelo irmão que ela traiu.
Chorou pela culpa nojenta que a consumia.
Chorou pelo alívio terrível de ter alguém ali para segurá-la.
E Leo apenas a segurou, de pé na biblioteca escura, o pilar sombrio no meio dos seus destroços.