O clima no VIP já tinha mudado.
Ula tinha voltado a dançar com as amigas, tentando deixar o ocorrido no banheiro para trás.
Bianca ainda comentava baixo.
— Se aquela mulher aparecer de novo, eu juro que—
— Relaxa. — Ula cortou, firme, mas tranquila. — Tá tudo bem.
Jéssica observava tudo com atenção, sem tirar os olhos da movimentação.
— Tu tá de boa mesmo?
— Tô.
Ula sorriu de leve.
— Não vou estragar minha noite por causa de gente s*******o.
Elas voltaram a se mexer no ritmo da música.
Só que a sensação não durou muito.
Suzana apareceu novamente, dessa vez mais alterada, já com bebida na mão e o olhar pesado.
Ela se aproximou direto de Ula.
— Olha aqui...
Antes que terminasse, Bianca já deu um passo à frente.
— Qual foi, agora?
Ula levantou a mão, pedindo calma.
— Deixa.
Suzana apontou diretamente para ela.
— Para de dar em cima do meu homem!
Ula soltou uma risada curta, incrédula.
— Tu só pode estar brincando.
— Eu vi tudo!
Ula deu um passo à frente, mantendo a postura.
— Eu não dou em cima de ninguém. E muito menos de homem comprometido.
Suzana avançou de repente, tentando empurrá-la.
Foi rápido.
Ula desviou, segurou o braço dela e, num movimento firme, reverteu a situação, derrubando Suzana no chão sem hesitar.
Um silêncio pesado tomou conta por um segundo.
Bianca arregalou os olhos.
— Ula!
Suzana tentou levantar, mas Ula já estava por cima, segurando firme pelos ombros.
— Tá maluca, mulher? — Ula falou, a voz baixa, controlada, mas cortante. — Eu não te conheço, não te devo nada, e já te falei pra não encostar em mim.
Ela soltou Suzana e a empurrou para trás, fazendo ela perder o equilíbrio de novo.
— Sai daqui.
Suzana ficou no chão por um segundo, ofegante, encarando Ula com raiva.
Os vapores já tinham se aproximado em alerta.
— Tá tudo sob controle? — um deles perguntou.
Ula respirou fundo, ajeitando a roupa.
— Tá.
Ela olhou para Suzana, séria.
— Eu não quero confusão. Mas também não fico parada se alguém vier pra cima de mim.
Bianca ainda estava em choque.
— Tu derrubou ela...
Jéssica cruzou os braços.
— Ela tentou te bater primeiro.
Do outro lado, Dogão já tinha visto tudo.
O olhar dele ficou fechado.
Ele desceu imediatamente alguns degraus, chegando mais perto do grupo.
— O que aconteceu aqui?
O silêncio aumentou.
Ula respondeu primeiro, sem hesitar.
— Ela tentou me empurrar. Eu só me defendi.
Suzana levantou, apontando.
— Ela tá dando em cima de você!
Dogão olhou para Suzana, depois para Ula.
A expressão dele endureceu.
— Para.
A palavra foi seca.
Suzana calou na hora.
Dogão continuou, firme:
— Aqui não tem esse tipo de cena. Se tiver problema com alguém, resolve comigo, não com ela.
Ele apontou levemente para Ula.
— E ninguém encosta nela dentro do meu baile.
O silêncio ficou pesado.
Ula olhou para ele por um segundo, surpresa com a firmeza.
Suzana, sem ter mais argumento, deu meia volta e saiu irritada, sendo acompanhada pelos vapores para fora do espaço.
Bianca soltou o ar devagar.
— Caralho...
Jéssica balançou a cabeça.
— Isso foi tenso.
Ula respirou fundo, tentando voltar ao normal.
Dogão ficou parado alguns segundos olhando para o caminho onde Suzana saiu.
Depois virou para Ula.
— Tá tudo bem?
Ela assentiu.
— Tá.
Um silêncio curto ficou entre os dois.
A música voltou a subir, mas o clima já não era o mesmo.
E pela primeira vez naquela noite, Dogão não estava olhando para o baile.
Estava olhando para ela.
O clima no VIP tinha pesado de vez.
Ula respirou fundo, olhando para as amigas.
— Eu vou embora, tá?
Bianca arregalou os olhos.
— Não, não faz isso.
Jéssica segurou o braço dela.
— Ula, fica mais um pouco...
Ela já estava pegando a bolsa.
— Pra mim já deu.
A voz saiu firme, sem raiva, mas decidida.
— Vocês duas vão juntas, por favor. Qualquer coisa me liga.
Ela abraçou Bianca primeiro.
— Se cuida.
Depois Jéssica.
— Vai com cuidado, irmã.
Jéssica ainda tentou insistir.
— Eu vou contigo...
— Não precisa. Fica aí, aproveita um pouco.
Ela sorriu de leve, mas já estava indo.
Desceu as escadas sem olhar muito para trás.
Lá em cima, Dogão acompanhou tudo em silêncio.
Orelha cutucou ele de leve.
— Vai atrás dela, p***a.
Dogão não respondeu.
Só desceu.
...
Do lado de fora do baile, numa área mais reservada, Ula caminhava em direção à saída quando ouviu a voz dele.
— Ula... espera.
Ela parou.
Virou devagar.
— O quê?
Ele se aproximou alguns passos.
— Por que você tá indo embora assim?
Ela soltou o ar pelo nariz, cansada.
— Pra mim já deu hoje.
Dogão franziu a testa.
— Aconteceu alguma coisa.
— Aconteceu.
Ela virou o rosto pro lado por um segundo, tentando manter a calma.
Ele percebeu.
Chegou mais perto, e com cuidado, tocou de leve o queixo dela, fazendo ela olhar pra ele.
— Fala comigo.
Ula respirou fundo.
— Dogão...
Ela hesitou um segundo, mas falou.
— Eu te trato como cliente. Sempre te tratei com respeito. Nunca teve nada entre a gente, nunca teve intenção nenhuma.
Ele ficou em silêncio, ouvindo.
Ela continuou, agora mais firme:
— Aquela mulher me encurralou no banheiro dizendo que você era homem dela. Que eu tava me sentindo porque você tava mandando bebida pra minha mesa.
Ela soltou uma risada sem humor.
— Falou que quem ia pra tua cama hoje era ela.
O olhar de Dogão fechou.
Ula continuou:
— Depois voltou, jogou bebida em mim, tentou me empurrar. Eu não fui atrás de problema nenhum.
Ela ajeitou a bolsa no ombro.
— Eu não tenho nada contigo. Mas parece que isso não importa pra algumas pessoas.
Ela olhou direto pra ele.
— Você é o dono do morro, p***a. Você pode ter quem quiser.
Fez uma pausa curta.
— Só tenta, pelo menos, colocar limite nisso. Porque eu não vim aqui pra ser alvo de confusão.
O silêncio ficou pesado entre os dois.
Ula respirou fundo.
— Eu só quero subir pra casa. Sozinha.
Dogão soltou o ar devagar, como se estivesse controlando alguma coisa dentro dele.
— Não.
Ela franziu a testa.
— Como assim “não”?
— Eu vou te levar.
— Dogão, eu disse que vou sozinha.
Ele sustentou o olhar.
— Eu vou te levar, Ula.
Ela ficou alguns segundos em silêncio, olhando pra ele.
Depois, sem discutir mais, apenas assentiu de leve.
— Tá.
Ele virou e fez um gesto.
— Vem.
Uma SUV preta blindada estava parada no canto mais escuro da área.
Ele abriu a porta para ela.
Ula entrou sem falar mais nada.
Dogão contornou o carro e assumiu o volante.
Antes de ligar o motor, olhou rapidamente para ela.
— Ninguém vai encostar em você dentro do meu baile.
Ela não respondeu de imediato.
Só olhou para frente.
E a noite seguiu, pesada, silenciosa, enquanto o carro descia o morro.