O vapor deixou uma bandeja caprichada de petiscos sobre a mesa.
Tinha batata frita, calabresa acebolada, frango a passarinho e mandioca frita.
Ula olhou surpresa.
— Ué... isso tudo?
O rapaz sorriu.
— Cortesia do chefe.
Ela levantou os olhos na direção de Dogão.
Ele apenas fez um sinal discreto com a cabeça.
Ula sorriu de volta.
— Valeu.
Ela voltou para a mesa.
Jéssica olhou para a bandeja e depois para a irmã.
— Hummm... teu admirador tá caprichando hoje, hein?
Ula deu uma risada.
— Para de viajar.
— Tô viajando nada.
Bianca entrou na brincadeira.
— Também acho que tem alguém querendo impressionar.
Ula pegou uma batata frita.
— Vocês duas assistem romance demais.
Jéssica riu.
— Tá bom... enquanto isso eu vou ali conversar com o Orelha.
Ela olhou discretamente para ele.
— Até que ele tá bonitão.
Bianca caiu na gargalhada.
— Eita!
Jéssica deu de ombros.
— Ué... antigamente ele era magrelo pra caramba. Agora tá fortão.
As três riram.
Pouco depois, Bianca foi dançar com um rapaz que tinha conhecido ali mesmo no baile.
Ula olhou para a irmã.
— Acho que deu bom pra ela.
Jéssica riu.
— Deu mesmo.
As duas continuaram beliscando os petiscos.
Depois de alguns minutos, Ula limpou as mãos num guardanapo.
— Já volto.
Ela caminhou até onde Dogão estava.
Parou ao lado dele.
— E tu... não vai comer nada?
Dogão sorriu.
— Tô de boa.
Ela arqueou a sobrancelha.
— Jura?
Olhou para a garrafa quase vazia sobre a mesa.
— Já foi mais de uma garrafa de whisky e tá "de boa"?
Ele deu uma risada.
— Tá preocupada comigo?
Ela cruzou os braços.
— Reciprocidade.
Ele franziu a testa, divertido.
— Como assim?
— Tu mandou petisco pra gente.
— Mandei.
— Pra ninguém exagerar na bebida.
Ele sorriu.
— Pensei que era melhor vocês comerem alguma coisa também.
Ula balançou a cabeça.
— Tá vendo? Então eu também posso falar pra tu comer alguma coisa.
Dogão riu.
— Justo.
Ela apontou para a mesa.
— Ainda tem bastante petisco lá.
— Eu apareço daqui a pouco.
Ela sorriu.
— Fechado.
Os dois ficaram alguns segundos em silêncio, apenas acompanhando o movimento do baile.
Então Ula voltou para a mesa.
Assim que ela se afastou, Orelha apareceu ao lado de Dogão segurando o riso.
— Rapaz...
Dogão nem olhou para ele.
— Lá vem.
— Tu fica olhando pra ela, ela fica vindo puxar assunto contigo...
Dogão respirou fundo.
— Fala logo.
Orelha abriu um sorriso.
— Cria coragem e convida ela pra sair um dia, p***a.
Dogão deu uma risada.
— Tá doido?
— Tô falando sério.
— Ela tá curtindo a noite dela. Não vou estragar isso.
Orelha balançou a cabeça.
— Tu pensa demais.
Dogão deu um leve empurrão no ombro dele.
— E tu pensa de menos.
Orelha caiu na gargalhada.
— Tá bom, chefe.
Dogão apontou discretamente para Jéssica, que conversava animadamente perto da pista.
— Agora vai lá trocar ideia com a dama de vermelho.
Orelha abriu um sorriso.
— Aí sim tu falou bonito.
Dogão riu.
— Vai, antes que outro chegue primeiro.
— Tô indo!
Orelha desceu as escadas sorrindo, enquanto Dogão permaneceu observando o baile. Do outro lado da pista, Ula ria com a irmã e Bianca, e, pela primeira vez em muito tempo, ele percebeu que estava aproveitando a festa tanto quanto qualquer outro morador dali.
Depois de um tempo, Ula entrou no banheiro feminino.
Parou em frente ao espelho.
Retocou o batom, ajeitou os cabelos loiros e deu uma conferida rápida na maquiagem.
— Pronto.
Quando estava saindo, a porta abriu.
Uma mulher entrou e cruzou o caminho dela.
Olhou Ula de cima a baixo.
— Tá se achando, né... loira?
Ula franziu a testa.
— Como é?
A mulher deu um sorriso debochado.
— Tá toda feliz porque o Dogão mandou combo, petisco... tá te tratando diferente.
Ula respirou fundo.
— Olha, eu não tô entendendo onde tu quer chegar.
— Vou falar bem claro então.
Ela deu um passo à frente.
— Ele é meu.
Ula soltou uma risada curta.
— Teu?
— E quando esse baile acabar, quem vai sair com ele sou eu, não tu.
Ula balançou a cabeça, sem perder a calma.
— Deixa eu te falar uma coisa.
O tom dela ficou firme.
— Eu nunca disputei homem com mulher nenhuma e não vou começar hoje.
Ela encarou a outra.
— Se tu tem algum assunto com ele, resolve com ele.
Fez uma pausa.
— Agora, não vem tirar satisfação comigo por uma coisa que eu nem procurei.
A mulher continuava encarando.
Ula manteve a postura.
— E outra...
Ela apontou discretamente para a porta.
— Nunca mais chega em mim desse jeito, querendo arrumar confusão.
— Tá me ameaçando?
— Não.
Ula respondeu com tranquilidade.
— Tô dizendo que eu vim pra curtir meu baile. Não enche meu saco, que eu também não encho o teu.
Sem esperar resposta, passou por ela e deixou o banheiro.
...
Assim que voltou para a área do VIP, Dogão percebeu que ela estava mais séria.
Ele olhou discretamente para Orelha.
— Aconteceu alguma coisa.
Orelha acompanhou o olhar dela e, logo depois, viu Suzana saindo do banheiro feminino.
Ele conhecia bem aquela expressão.
— Ih...
Dogão virou para ele.
— O quê?
Orelha respondeu baixo.
— Acho que foi a Suzana.
— Tem certeza?
— Não... mas ela saiu logo depois da Ula.
Dogão suspirou.
— Espero que não tenha dado problema.
Orelha cruzou os braços.
— Chefe...
— Fala.
— Posso dar um conselho?
Dogão riu de canto.
— Lá vem.
— Se tu realmente gosta da companhia da Ula, para de deixar as coisas no ar.
Dogão ficou em silêncio.
Orelha continuou:
— Ela sempre te tratou com respeito. Tu também respeita ela. Mas se ficar só nessa de olhar de longe, uma hora aparecem m*l-entendidos, gente inventando história, ciúme de quem nem tem compromisso...
Ele deu de ombros.
— Aí quem acaba se afastando é ela.
Dogão apoiou os cotovelos na grade.
— Não quero colocar ela no meio de problema nenhum.
— Justamente por isso.
Orelha respondeu.
— Se um dia tu resolver chamar ela pra sair, faz direito. Conversa, vê se ela tem interesse. Se não tiver, respeita e segue a vida. Mas ficar só imaginando as coisas também não resolve.
Dogão ficou olhando a pista por alguns segundos.
Depois soltou um sorriso discreto.
— Tu fala demais.
Orelha riu.
— Mas dessa vez eu acho que falei certo.
Dogão não respondeu.
Apenas voltou os olhos para a pista, onde Ula já conversava novamente com a irmã e Bianca, tentando deixar para trás o clima desagradável que tinha acabado de viver no banheiro.