O baile seguia animado.
Quando começou um samba, Ula levantou da cadeira na mesma hora.
— Agora é minha música.
Bianca riu.
— Sabia.
As três desceram para um espaço mais perto da pista.
Ula sambava com naturalidade, sorrindo, completamente à vontade. Os cabelos loiros acompanhavam cada movimento, revelando por alguns instantes as tatuagens das costas e da cintura.
Jéssica também dançava muito bem.
As duas chamavam atenção por onde passavam.
Lá de cima, Dogão observava a cena em silêncio.
Orelha deu uma cotovelada nele.
— Caralho... tua musa dança pra p***a.
Dogão soltou um sorriso discreto, sem desviar o olhar.
— Ela sabe aproveitar a vida.
Orelha chamou um dos rapazes que trabalhava no bar.
— Leva um combo de whisky e energético pra mesa delas.
— Pode deixar.
Poucos minutos depois, o rapaz deixou as bebidas na mesa.
Jéssica olhou surpresa.
— Ué... isso aqui é nosso?
O vapor sorriu.
— É sim. Cortesia do chefe. Fiquem à vontade.
Jéssica sorriu.
— Obrigada.
— Não precisa agradecer.
Bianca se aproximou de Ula e falou baixinho, rindo.
— Acho que tua irmã e o Orelha tão trocando uma ideia, hein.
Ula olhou discretamente para os dois.
Orelha conversava com Jéssica de forma descontraída, fazendo ela rir.
— Calma... deixa as coisas acontecerem.
Bianca sorriu.
— Tu sempre fala isso.
Nesse momento, Dogão desceu da área reservada e caminhou até perto da pista.
Ele parou a uma distância respeitosa de Ula.
Ela percebeu a presença dele e sorriu.
— Não imaginava que minha cabeleireira e massagista sambava desse jeito.
Ula deu uma risada.
— Ah... por trás da profissional tem uma pessoa normal também.
Dogão sorriu.
— Dá pra perceber.
Os dois ficaram alguns segundos apenas observando o movimento do baile.
Ula pegou um copo de whisky da mesa e deu um gole.
— E tu? Não vai dançar?
Dogão riu.
— Eu?
— É.
— Meu negócio é ficar olhando o baile e vendo se tá tudo certo.
Ela cruzou os braços, divertida.
— Trabalho até na hora da diversão.
— Alguém tem que fazer isso.
Ela concordou com a cabeça.
— Justo.
Os dois trocaram um sorriso breve antes de Ula voltar para a pista com Bianca.
Dogão permaneceu onde estava por alguns instantes, observando o baile com atenção, enquanto Orelha continuava conversando com Jéssica, arrancando algumas risadas dela em meio à música e ao clima descontraído da noite.
A música mudou mais uma vez.
O baile continuava lotado.
Ula voltou para a pista ao lado de Bianca e Jéssica. As três riam, cantavam os trechos que conheciam e dançavam sem preocupação.
Lá de cima, Dogão observava discretamente enquanto também mantinha atenção no movimento do baile.
Orelha se aproximou com um copo na mão.
— Tá trabalhando ou tá admirando a paisagem, chefe?
Dogão deu um sorriso de canto.
— Os dois.
— Pelo menos tu admitiu.
Dogão deu uma risada.
— Cala a boca, p***a.
Nesse momento, um rapaz que não era conhecido da comunidade começou a insistir para dançar com Ula.
Ela sorriu por educação.
— Valeu, mas eu tô de boa.
O rapaz insistiu mais uma vez.
— Qual foi? É só uma dança.
Ula continuou calma.
— Já falei que não, parceiro.
Antes que a situação passasse disso, um dos vapores se aproximou.
— Irmão, ela já respondeu.
O rapaz percebeu o clima, levantou as mãos e saiu andando.
— Tranquilo.
Ula olhou para o vapor.
— Valeu.
— Tamo junto.
Lá em cima, Dogão acompanhou tudo de longe.
Orelha comentou:
— Nem precisou tu fazer nada.
Dogão assentiu.
— Ela se resolveu sozinha. O cara só tava sendo inconveniente.
— E o pessoal daqui já entendeu o recado.
Dogão voltou a olhar para a pista.
— Mulher nenhuma tem que ficar repetindo "não" dez vezes.
Orelha concordou.
— Aqui o respeito vem primeiro.
Minutos depois, Ula voltou para a mesa para beber um pouco de água.
Dogão passou por ali.
— Tá gostando da festa?
Ela sorriu.
— Muito.
— Fazia tempo que eu não te via no baile.
— O salão toma quase todo meu tempo.
Ele riu.
— Tu trabalha demais.
Ela deu de ombros.
— Alguém tem que pagar as contas.
Dogão encostou na grade ao lado dela.
— E tua mãe?
O sorriso dela aumentou.
— Tá animada. Já começou a limpar a pensão e fazer as listas do que precisa comprar.
— Falei que ela ia melhorar.
— Falou.
Ela olhou para ele.
— Obrigada... por ter incentivado ela aquele dia.
Dogão balançou a cabeça.
— O mérito foi teu e da Jéssica. Vocês que fizeram ela levantar.
Ula ficou alguns segundos em silêncio.
— Mesmo assim... valeu.
Os dois trocaram um olhar tranquilo, interrompido pela voz de Bianca.
— Ula! Bora! Começou a música que tu gosta!
Ela riu.
— Já tô indo!
Antes de sair, olhou para Dogão.
— Não fica só trabalhando, não. Aproveita um pouco o baile também.
Ele sorriu.
— Vou tentar.
Ula voltou correndo para perto das amigas, enquanto Dogão ficou observando a pista por mais alguns instantes. Pela primeira vez em muito tempo, no meio de toda a responsabilidade de comandar o morro, ele se permitiu apenas assistir as pessoas se divertindo. E isso já fazia a noite valer a pena.
A madrugada avançava.
Agora o baile estava no auge.
O DJ aumentou o som, as luzes coloridas cortavam a fumaça, e a comunidade inteira parecia reunida ali. As barracas não paravam de vender, o churrasquinho soltava fumaça e as vielas estavam tomadas de gente rindo, dançando e cantando.
Lá do alto, Dogão observava tudo.
Pegou o rádio.
— Tá tudo tranquilo nas entradas?
A voz respondeu na hora.
— Tudo na paz, chefe.
— Qualquer movimentação estranha, me chama.
— Pode deixar.
Ele guardou o rádio e voltou a prestar atenção no baile.
Na pista, Ula, Jéssica e Bianca continuavam se divertindo.
Bianca levantou os braços.
— c*****o, fazia tempo que eu não curtia uma noite assim!
Jéssica riu.
— Nem me fala!
Ula girou no ritmo da música e caiu na gargalhada com as amigas.
Orelha apareceu perto delas.
— E aí? Tão gostando?
— Muito! — respondeu Bianca.
— Então aproveitem.
Ele olhou para Jéssica.
— Tá faltando só uma dança comigo.
Jéssica cruzou os braços, rindo.
— Tá confiante, hein?
— Tenho que tentar.
Ela sorriu.
— Então bora.
Os dois seguiram para um canto da pista, conversando e rindo.
Bianca deu uma cotovelada em Ula.
— Acho que agora foi.
Ula riu.
— Vai devagar. Eles acabaram de se conhecer.
As duas voltaram a dançar.
Lá em cima, Dogão observava a cena e balançava a cabeça, divertido.
— Orelha é desenrolado pra caralho...
Um dos vapores riu.
— Se levar um fora, amanhã ele já tá brincando de novo.
Dogão também riu.
— Conhecendo ele, é bem isso.
Pouco depois, Ula voltou para a mesa para beber água.
Dogão desceu novamente.
— Cansou?
Ela respirou fundo, sorrindo.
— Um pouquinho.
— Mas tá feliz.
Ela confirmou com a cabeça.
— Muito.
Ela olhou ao redor.
— Faz tempo que eu não via o morro assim... só o povo curtindo, dando risada.
Dogão acompanhou o olhar dela.
— É pra isso que a gente trabalha. Quando dá pra comunidade ter uma noite tranquila, já valeu.
Ula sorriu.
— Concordo.
Os dois ficaram alguns segundos olhando o movimento.
Do outro lado da pista, Jéssica ria de alguma história contada por Orelha, enquanto Bianca conversava com alguns conhecidos da comunidade.
O DJ anunciou a próxima música.
A pista vibrou.
Bianca gritou lá de longe:
— Ula! Vem!
Ela olhou para Dogão.
— Tenho que ir.
Ele fez um gesto positivo.
— Vai lá. Aproveita.
Ela sorriu.
— Boa noite, chefe.
— Boa noite, Ula.
Ela voltou correndo para a pista.
Dogão ficou encostado na grade, vendo Ula e as amigas rindo e dançando no meio da multidão.
Orelha passou por ele e comentou baixinho:
— Tá vendo ela sorrindo assim?
Dogão respondeu sem desviar os olhos da pista.
— Tô.
— Bonito de ver, né?
Ele deu um meio sorriso.
— É... bonito de ver. Hoje a noite é delas. Deixa elas curtirem.