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1364 Words
O baile seguia animado. Quando começou um samba, Ula levantou da cadeira na mesma hora. — Agora é minha música. Bianca riu. — Sabia. As três desceram para um espaço mais perto da pista. Ula sambava com naturalidade, sorrindo, completamente à vontade. Os cabelos loiros acompanhavam cada movimento, revelando por alguns instantes as tatuagens das costas e da cintura. Jéssica também dançava muito bem. As duas chamavam atenção por onde passavam. Lá de cima, Dogão observava a cena em silêncio. Orelha deu uma cotovelada nele. — Caralho... tua musa dança pra p***a. Dogão soltou um sorriso discreto, sem desviar o olhar. — Ela sabe aproveitar a vida. Orelha chamou um dos rapazes que trabalhava no bar. — Leva um combo de whisky e energético pra mesa delas. — Pode deixar. Poucos minutos depois, o rapaz deixou as bebidas na mesa. Jéssica olhou surpresa. — Ué... isso aqui é nosso? O vapor sorriu. — É sim. Cortesia do chefe. Fiquem à vontade. Jéssica sorriu. — Obrigada. — Não precisa agradecer. Bianca se aproximou de Ula e falou baixinho, rindo. — Acho que tua irmã e o Orelha tão trocando uma ideia, hein. Ula olhou discretamente para os dois. Orelha conversava com Jéssica de forma descontraída, fazendo ela rir. — Calma... deixa as coisas acontecerem. Bianca sorriu. — Tu sempre fala isso. Nesse momento, Dogão desceu da área reservada e caminhou até perto da pista. Ele parou a uma distância respeitosa de Ula. Ela percebeu a presença dele e sorriu. — Não imaginava que minha cabeleireira e massagista sambava desse jeito. Ula deu uma risada. — Ah... por trás da profissional tem uma pessoa normal também. Dogão sorriu. — Dá pra perceber. Os dois ficaram alguns segundos apenas observando o movimento do baile. Ula pegou um copo de whisky da mesa e deu um gole. — E tu? Não vai dançar? Dogão riu. — Eu? — É. — Meu negócio é ficar olhando o baile e vendo se tá tudo certo. Ela cruzou os braços, divertida. — Trabalho até na hora da diversão. — Alguém tem que fazer isso. Ela concordou com a cabeça. — Justo. Os dois trocaram um sorriso breve antes de Ula voltar para a pista com Bianca. Dogão permaneceu onde estava por alguns instantes, observando o baile com atenção, enquanto Orelha continuava conversando com Jéssica, arrancando algumas risadas dela em meio à música e ao clima descontraído da noite. A música mudou mais uma vez. O baile continuava lotado. Ula voltou para a pista ao lado de Bianca e Jéssica. As três riam, cantavam os trechos que conheciam e dançavam sem preocupação. Lá de cima, Dogão observava discretamente enquanto também mantinha atenção no movimento do baile. Orelha se aproximou com um copo na mão. — Tá trabalhando ou tá admirando a paisagem, chefe? Dogão deu um sorriso de canto. — Os dois. — Pelo menos tu admitiu. Dogão deu uma risada. — Cala a boca, p***a. Nesse momento, um rapaz que não era conhecido da comunidade começou a insistir para dançar com Ula. Ela sorriu por educação. — Valeu, mas eu tô de boa. O rapaz insistiu mais uma vez. — Qual foi? É só uma dança. Ula continuou calma. — Já falei que não, parceiro. Antes que a situação passasse disso, um dos vapores se aproximou. — Irmão, ela já respondeu. O rapaz percebeu o clima, levantou as mãos e saiu andando. — Tranquilo. Ula olhou para o vapor. — Valeu. — Tamo junto. Lá em cima, Dogão acompanhou tudo de longe. Orelha comentou: — Nem precisou tu fazer nada. Dogão assentiu. — Ela se resolveu sozinha. O cara só tava sendo inconveniente. — E o pessoal daqui já entendeu o recado. Dogão voltou a olhar para a pista. — Mulher nenhuma tem que ficar repetindo "não" dez vezes. Orelha concordou. — Aqui o respeito vem primeiro. Minutos depois, Ula voltou para a mesa para beber um pouco de água. Dogão passou por ali. — Tá gostando da festa? Ela sorriu. — Muito. — Fazia tempo que eu não te via no baile. — O salão toma quase todo meu tempo. Ele riu. — Tu trabalha demais. Ela deu de ombros. — Alguém tem que pagar as contas. Dogão encostou na grade ao lado dela. — E tua mãe? O sorriso dela aumentou. — Tá animada. Já começou a limpar a pensão e fazer as listas do que precisa comprar. — Falei que ela ia melhorar. — Falou. Ela olhou para ele. — Obrigada... por ter incentivado ela aquele dia. Dogão balançou a cabeça. — O mérito foi teu e da Jéssica. Vocês que fizeram ela levantar. Ula ficou alguns segundos em silêncio. — Mesmo assim... valeu. Os dois trocaram um olhar tranquilo, interrompido pela voz de Bianca. — Ula! Bora! Começou a música que tu gosta! Ela riu. — Já tô indo! Antes de sair, olhou para Dogão. — Não fica só trabalhando, não. Aproveita um pouco o baile também. Ele sorriu. — Vou tentar. Ula voltou correndo para perto das amigas, enquanto Dogão ficou observando a pista por mais alguns instantes. Pela primeira vez em muito tempo, no meio de toda a responsabilidade de comandar o morro, ele se permitiu apenas assistir as pessoas se divertindo. E isso já fazia a noite valer a pena. A madrugada avançava. Agora o baile estava no auge. O DJ aumentou o som, as luzes coloridas cortavam a fumaça, e a comunidade inteira parecia reunida ali. As barracas não paravam de vender, o churrasquinho soltava fumaça e as vielas estavam tomadas de gente rindo, dançando e cantando. Lá do alto, Dogão observava tudo. Pegou o rádio. — Tá tudo tranquilo nas entradas? A voz respondeu na hora. — Tudo na paz, chefe. — Qualquer movimentação estranha, me chama. — Pode deixar. Ele guardou o rádio e voltou a prestar atenção no baile. Na pista, Ula, Jéssica e Bianca continuavam se divertindo. Bianca levantou os braços. — c*****o, fazia tempo que eu não curtia uma noite assim! Jéssica riu. — Nem me fala! Ula girou no ritmo da música e caiu na gargalhada com as amigas. Orelha apareceu perto delas. — E aí? Tão gostando? — Muito! — respondeu Bianca. — Então aproveitem. Ele olhou para Jéssica. — Tá faltando só uma dança comigo. Jéssica cruzou os braços, rindo. — Tá confiante, hein? — Tenho que tentar. Ela sorriu. — Então bora. Os dois seguiram para um canto da pista, conversando e rindo. Bianca deu uma cotovelada em Ula. — Acho que agora foi. Ula riu. — Vai devagar. Eles acabaram de se conhecer. As duas voltaram a dançar. Lá em cima, Dogão observava a cena e balançava a cabeça, divertido. — Orelha é desenrolado pra caralho... Um dos vapores riu. — Se levar um fora, amanhã ele já tá brincando de novo. Dogão também riu. — Conhecendo ele, é bem isso. Pouco depois, Ula voltou para a mesa para beber água. Dogão desceu novamente. — Cansou? Ela respirou fundo, sorrindo. — Um pouquinho. — Mas tá feliz. Ela confirmou com a cabeça. — Muito. Ela olhou ao redor. — Faz tempo que eu não via o morro assim... só o povo curtindo, dando risada. Dogão acompanhou o olhar dela. — É pra isso que a gente trabalha. Quando dá pra comunidade ter uma noite tranquila, já valeu. Ula sorriu. — Concordo. Os dois ficaram alguns segundos olhando o movimento. Do outro lado da pista, Jéssica ria de alguma história contada por Orelha, enquanto Bianca conversava com alguns conhecidos da comunidade. O DJ anunciou a próxima música. A pista vibrou. Bianca gritou lá de longe: — Ula! Vem! Ela olhou para Dogão. — Tenho que ir. Ele fez um gesto positivo. — Vai lá. Aproveita. Ela sorriu. — Boa noite, chefe. — Boa noite, Ula. Ela voltou correndo para a pista. Dogão ficou encostado na grade, vendo Ula e as amigas rindo e dançando no meio da multidão. Orelha passou por ele e comentou baixinho: — Tá vendo ela sorrindo assim? Dogão respondeu sem desviar os olhos da pista. — Tô. — Bonito de ver, né? Ele deu um meio sorriso. — É... bonito de ver. Hoje a noite é delas. Deixa elas curtirem.
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