No caminho até em casa, Gracinha caminhava devagar, aproveitando a companhia da filha.
Depois de alguns minutos em silêncio, ela falou:
— Ula...
— Oi, mãe.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
Gracinha olhou para a filha de lado.
— Tu já reparou no jeito que o Dogão olha pra tu?
Ula deu uma risada.
— Ih, mãe... começou.
— Tô falando sério.
— Ele me olha igual olha pra qualquer morador.
Gracinha balançou a cabeça.
— Não olha, não.
Ula sorriu, desacreditada.
— Mãe, ele é meu cliente.
— Eu sei.
— E eu trato ele igual trato qualquer pessoa que entra no meu salão.
— Também sei.
Gracinha respirou fundo.
— Mas hoje, naquele escritório... quando ele olhou pra tu... parecia que queria ter certeza que tava tudo bem contigo.
Ula deu de ombros.
— Ele perguntou porque achou que tinha acontecido alguma coisa.
— Pode ser.
Ela sorriu de canto.
— Ou pode ser porque ele se preocupa contigo.
Ula soltou uma risada.
— Mãe, para de criar história.
Gracinha resolveu mudar de assunto.
— Tá bom... não falo mais.
As duas riram.
Quando chegaram em casa, Ula abriu a porta.
— Pronto. Missão cumprida.
Gracinha entrou e se virou para a filha.
— Obrigada por hoje.
— Não agradece, não.
— Agradeço sim.
Ela abraçou Ula demoradamente.
— Tu e tua irmã salvaram meu dia.
Ula fechou os olhos por um instante.
— A gente só quer ver a senhora feliz de novo.
Gracinha beijou a testa da filha.
— E conseguiu.
Ula sorriu.
— Agora descansa um pouco. Mais tarde eu passo aqui de novo.
— Vai trabalhar.
— Sempre.
Ela saiu da casa e caminhou de volta para o salão.
Assim que abriu a porta, ouviu uma cliente elogiando.
— A menina que fez minha sobrancelha é excelente.
Jéssica, que organizava os materiais, olhou para a irmã com um sorriso ansioso.
— E aí?
A cliente respondeu antes mesmo de Ula falar.
— Tem mão leve. Me explicou tudo e ficou exatamente do jeito que eu queria.
Ula abriu um sorriso de orgulho.
Olhou para Jéssica e piscou.
— Tá vendo? Eu falei que tu dava conta.
Jéssica respirou aliviada.
— Achei que fosse travar.
— Todo mundo trava na primeira vez.
Ela abraçou a irmã de lado.
— Mas daqui a pouco vão começar a pedir pra serem atendidas por você também.
Jéssica sorriu, sentindo que, pela primeira vez, estava realmente encontrando o próprio caminho dentro do salão da irmã.
Os dias foram passando.
A rotina do salão seguia intensa.
Jéssica tinha encontrado seu lugar. Em pouco tempo, conquistou uma clientela fiel. A agenda de sobrancelhas já estava praticamente cheia todos os dias.
Ela fazia cada atendimento com calma, explicava o procedimento, ouvia as clientes e entregava um trabalho impecável.
Ula observava tudo de longe, orgulhosa.
— Tá voando, hein.
Jéssica sorriu.
— Aprendi com a melhor.
Numa tarde movimentada, a porta do salão se abriu.
O burburinho diminuiu na mesma hora.
Dogão entrou com o jeito firme de sempre.
Os vapores que faziam a segurança ficaram do lado de fora, enquanto ele caminhava até a cadeira de Ula.
Ela levantou os olhos e sorriu.
— Até que enfim apareceu, cliente VIP.
Ele deu um meio sorriso.
— A semana foi puxada.
— Dá pra perceber.
Ela colocou a capa nele.
— Bora deixar esse cabelo na régua de novo.
Dogão apenas assentiu.
Ula começou lavando o cabelo dele, massageando o couro cabeludo com movimentos firmes e precisos.
— Tá dormindo direito?
— Quando dá.
— Ou seja... quase nunca.
Ele riu.
— Quase isso.
Ela terminou a lavagem, secou os fios e pegou a máquina.
Em poucos minutos, refez o degradê exatamente do jeito que ele gostava.
Passou a navalha no acabamento, limpou os últimos fios e afastou a cadeira.
— Pronto.
Dogão olhou no espelho.
— Como sempre... ficou perfeito.
Ula sorriu.
— Agora vem.
Ela caminhou até a sala reservada.
Dogão foi atrás.
Assim que a porta se fechou, ela pegou a ficha de atendimento e perguntou com naturalidade:
— Hoje vai querer fazer depilação também ou só a massagem?
Dogão apoiou as mãos na maca e respondeu, tranquilo:
— Hoje só a massagem. Tô precisando relaxar um pouco.
— Então deita aí.
Ela preparou os materiais enquanto ele se acomodava na maca.
— Pelo jeito essa semana te castigou.
Ele soltou um suspiro.
— Pra c*****o.
Ula sorriu de canto.
— Então deixa comigo. Vamos ver se eu consigo tirar um pouco desse peso das tuas costas hoje.
Ula continuou a massagem com a concentração de sempre.
As mãos experientes trabalhavam cada músculo das costas largas de Dogão, desfazendo os nós que a rotina pesada do morro deixava pelo corpo.
Os ombros estavam completamente travados.
— Caralho... — ele resmungou, soltando o ar devagar. — Tava precisando disso.
Ela sorriu sem perder o ritmo.
— Eu falei. Tu chega aqui carregando o mundo nas costas.
Ela desceu para a lombar, trabalhando os pontos de maior tensão, depois passou para as panturrilhas e os pés, alongando a musculatura com movimentos firmes.
Dogão fechou os olhos por alguns segundos.
— Meu Deus... agora eu entendi por que eu saio daqui parecendo outra pessoa.
— Porque tu nunca para pra descansar.
Ela terminou aquela etapa da massagem.
— Pode virar.
Ele virou de barriga para cima, e ela continuou o atendimento de forma profissional, trabalhando os ombros pela parte da frente, os braços, os antebraços e as mãos, desfazendo a rigidez dos músculos.
Dogão respirou fundo.
— Caralho...
Ula deu uma risada baixa.
— Tá funcionando, então.
— Muito mais do que eu imaginava.
Ela sorriu.
— Tu tava precisando disso mais do que queria admitir.
Ele abriu um sorriso raro.
— Tu é minha salvação, Ula.
Ela balançou a cabeça, divertida.
— Nada disso. Eu só faço meu trabalho.
— Faz bem pra c*****o.
Ela terminou os últimos movimentos nos braços e fez um alongamento leve.
— Pronto.
Dogão abriu e fechou as mãos algumas vezes.
— Parece que até o peso dos braços foi embora.
Ula limpou as mãos na toalha.
— Agora a obrigação é tua.
— Qual?
— Dormir direito pelo menos uma noite e beber bastante água. Se tu sair daqui e voltar a forçar o corpo igual sempre faz, daqui a cinco dias vai chegar todo travado de novo.
Ele riu.
— Acho que tu já sabe a resposta.
— Sei mesmo.
Os dois riram, mantendo aquela relação de confiança construída ao longo dos anos, em que ela cuidava do bem-estar dele como cliente e ele respeitava o trabalho dela acima de tudo.