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1328 Words
O vapor assentiu e desceu correndo. Minutos depois, o silêncio na sala ficou mais pesado. Dogão não sentou. Ficou parado, braços cruzados, olhando fixo para a porta como se já esperasse problema. Orelha encostou na parede. Negão ficou perto da mesa, atento. A porta abriu. Um homem entrou. Roupa simples, olhar desconfiado, postura de quem mede o ambiente antes de falar qualquer coisa. Ele parou assim que viu Dogão. — Boa tarde… Dogão não respondeu de imediato. Só analisou. — Fala. O homem engoliu seco. — Me disseram que o senhor tá precisando resolver uma parada de transporte… — Interesse em logística fora do Rio. Orelha trocou um olhar rápido com n***o. Dogão deu um passo à frente. — Quem te mandou aqui? O homem hesitou. — Eu… eu trabalho com frete. — São Paulo, interior, capital… eu faço rota. Dogão estreitou os olhos. — Não perguntei isso. Silêncio. O homem ficou ainda mais tenso. — Um conhecido disse que vocês estavam com problema de fornecedor. Negão cortou: — Conhecido quem? O homem respirou fundo. — Eu não posso falar nomes. Dogão riu de leve, sem humor. — Aqui dentro todo mundo fala. — Só não fala se tá mentindo. O clima pesou. O homem levantou as mãos rapidamente. — Não é isso, não! — Eu só vim porque disseram que uma moça vai precisar viajar pra São Paulo pra buscar mercadoria. Na hora. O ar mudou. Dogão ficou imóvel. Orelha desencostou da parede. Negão ficou mais sério ainda. — Repete. O homem engoliu seco. — Uma mulher… loira… trabalha com salão… Dogão deu mais um passo. — Continua. — Vai. O homem percebeu que tinha tocado no ponto certo — ou errado. — Disseram que ela vai precisar ir pessoalmente. — Eu tenho rota direta entre Rio e São Paulo. — Faço entrega discreta. — Sem precisar ela se deslocar sozinha. Silêncio total. Dogão não piscava. Orelha foi o primeiro a falar baixo: — Tá vendo isso? Negão respondeu no mesmo tom: — Tá muito em cima. Dogão deu um sorriso curto. Mas não era de alívio. Era de tensão pura. — Como você ficou sabendo disso? O homem tentou explicar rápido: — Eu escutei num depósito. — Dois caras comentando que uma mulher ia ficar vulnerável indo sozinha pra São Paulo… Dogão fechou o punho. A mandíbula travou. — Vulnerável… A palavra bateu diferente nele. Ele respirou fundo, controlando o impulso. — E você veio aqui por quê? O homem respondeu: — Porque disseram que aqui era o único lugar onde alguém poderia garantir segurança nesse tipo de rota. Orelha soltou um riso baixo. — Olha isso… — O mundo inteiro já tá sabendo que ela vai viajar. Dogão não riu. Ele deu mais um passo até ficar cara a cara com o homem. A voz saiu baixa. Perigosa. — Você tem noção do que você acabou de falar? O homem engoliu seco. — Tenho… por isso eu vim rápido. Dogão ficou em silêncio por alguns segundos. Depois virou levemente a cabeça para Orelha. — Fecha a porta. Orelha obedeceu na hora. O som da porta batendo ecoou na sala. O homem arregalou os olhos. Negão se mexeu discretamente. Dogão voltou o olhar para ele. E agora a voz dele já não tinha só preocupação. Tinha decisão. — Você não veio aqui por acaso. — E eu não acredito em coincidência. O homem tentou falar: — Eu juro que— Dogão interrompeu. — Cala a boca. Silêncio imediato. Dogão respirou fundo. Passou a mão no rosto. E quando falou de novo, foi mais baixo ainda — mas muito mais firme: — Se você tá falando a verdade… — você pode resolver um problema que eu tô tentando resolver desde ontem. Ele deu um passo para trás. — E se você estiver mentindo… — você entrou na pior sala possível pra mentir. Orelha e n***o ficaram em alerta máximo. O homem tremia levemente. Dogão encarou ele por mais alguns segundos. E então disse: — Senta. — E começa a falar tudo. — Porque a vida dela pode depender disso. O homem puxou o ar lentamente. As mãos estavam suando. Sentou devagar na cadeira de madeira. Dogão permaneceu de pé. Não desviava o olhar um segundo sequer. Orelha fechou a janela. Negão ficou ao lado da porta. Ninguém falava. O silêncio pressionava o homem. Até que Dogão quebrou. — Nome. — Marcelo. — Trabalha com o quê exatamente? — Transporte de carga. — Cosméticos, móveis, equipamentos... o que precisar. Dogão continuava sério. — Há quanto tempo? — Uns quinze anos. — E como ficou sabendo da viagem dela? Marcelo respirou fundo. — Eu tava descarregando mercadoria num centro de distribuição em São Paulo. — Dois representantes conversavam. — Um deles disse que uma cliente do Rio teria que buscar os produtos porque eles não fariam mais entrega. — O outro respondeu... Ele hesitou. Dogão bateu a mão na mesa. — Fala. Marcelo engoliu seco. — Ele respondeu: "Melhor assim. Ela vai ter que vir pessoalmente." A sala inteira ficou em silêncio. Orelha olhou imediatamente para Dogão. Negão também. Dogão apertou o maxilar. — Continua. — Depois um deles perguntou se ela já tinha confirmado a viagem. — O outro disse que sim... que ela ia sozinha. A expressão de Dogão endureceu completamente. Ele fechou os olhos por um segundo. Quando abriu... Havia algo diferente. Não era só preocupação. Era desconfiança. — Eles falaram o nome dela? Marcelo balançou a cabeça. — Não. — Mas falaram que era dona de um salão. — Do Rio. — Loira. — Que comprava bastante mercadoria. Orelha murmurou: — É ela... Dogão permaneceu imóvel. Respirava lentamente. Controlando cada reação. — E por que você veio me contar isso? Marcelo respondeu sem desviar os olhos. — Porque aquilo me incomodou. — Parecia que eles queriam que ela fosse. — Não parecia uma simples entrega cancelada. Dogão virou para n***o. — Tá vendo? Negão assentiu. — Eu falei que essa história tava estranha. Dogão voltou a olhar para Marcelo. — Você consegue descobrir quais empresas eram? Marcelo pensou por alguns segundos. — Acho que sim. — Conheço gente naquele centro de distribuição. — Posso levantar isso discretamente. Dogão caminhou lentamente até a janela. Ficou olhando a comunidade lá embaixo. Na cabeça dele só vinha uma imagem. Ula. Sozinha. Andando por uma cidade que nunca tinha visto. Sem imaginar que alguém poderia estar esperando justamente a chegada dela. Ele fechou a mão com força. Tão forte que os nós dos dedos ficaram brancos. Falou quase num sussurro. — Não... Orelha ouviu. — O quê? Dogão virou devagar. Os olhos estavam completamente diferentes. — Ela não vai. A frase saiu firme. Sem espaço para discussão. — Se isso não tá me cheirando bem... — Eu não vou deixar ela colocar um pé naquele avião. Negão perguntou: — E como tu vai convencer ela? Dogão ficou alguns segundos em silêncio. Porque essa era justamente a parte mais difícil. Ele conhecia Ula. Sabia o quanto ela era responsável. Ela jamais deixaria o salão sem estoque. Jamais aceitaria depender dos outros. Ela insistiria. E ele também sabia de outra coisa. Não podia simplesmente mandar. Ela não era uma pessoa que obedecia ordens. Ela era uma mulher independente. Precisava de motivos. De provas. Dogão respirou fundo. — Primeiro... — A gente descobre se isso é verdade. Olhou para Marcelo. — Se você conseguir provar que tem alguma coisa errada... — Eu mesmo vou mostrar tudo pra ela. — E aí... Ele abaixou a cabeça por um instante. — Ela vai entender que eu não tô tentando prender ela. — Eu tô tentando manter ela viva. A sala ficou em silêncio. Orelha sorriu de leve. — Tu mudou mesmo, chefe. Dogão olhou para ele. — Mudei. — Porque, antes de conhecer a Ula... — Eu só me preocupava se eu voltaria vivo de um confronto. Ele respirou fundo. — Hoje... — O meu maior medo é ela não voltar de uma viagem.
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