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1281 Words
n***o já puxou o celular do bolso. — Me passa o nome desses fornecedores. Dogão passou a mão no rosto. — Eu não tenho. — Ela comentou comigo no hospital. — Nem perguntei os nomes. Orelha cruzou os braços. — Então a primeira coisa é descobrir quem são. — Depois a gente liga. — Se for dinheiro, a gente paga o frete. — Se for medo de entrar no morro, a gente marca um ponto de entrega fora. — Se for outro problema, a gente resolve. Dogão assentiu. Mas continuava inquieto. Não conseguia parar sentado. Andava de um lado para o outro da sala. O cigarro já tinha queimado inteiro entre os dedos sem que ele percebesse. Negão observou. — Tu tá muito nervoso. Dogão soltou uma risada seca. — Tô. — Pra c*****o. Passou as mãos na cabeça. — Eu nunca senti isso. Orelha olhou para ele. — Tá apaixonado mesmo. Dogão respirou fundo. — Não é só paixão, p***a. — É medo. — Medo de acontecer alguma coisa com ela. Ele voltou a andar. — A Ula é desenrolada. — Inteligente. — Trabalhadora. — Mas ela é inocente pra esse tipo de coisa. — Ela acredita nas pessoas. — Ela conversa com todo mundo. — Se alguém parar ela na rua pedindo informação, ela responde. — Se um motorista falar "entra por aqui que é mais rápido", ela acredita. — Ela nunca precisou desconfiar desse jeito. A voz começou a pesar. — Ela vive do salão pra casa. — Da casa pra pensão. — Da pensão pro salão. — Essa sempre foi a vida dela. Ele fechou os olhos por um instante. — E agora ela vai cair numa cidade gigantesca... — Sozinha. Orelha tentou tranquilizá-lo. — Ela também não é criança. — Vai saber se cuidar. Dogão respondeu na mesma hora. — Eu sei que vai. — Mas basta errar uma vez. O silêncio voltou. Ele continuou, quase num desabafo. — Sabe o que mais tá me matando? Negão balançou a cabeça. — O quê? — Ela confiou em mim. Os dois olharam para ele. — Na madrugada... — Quando ela tava tremendo... — Quando m*l conseguia falar... — Ela ligou pra mim. A voz dele ficou embargada. — Não ligou pra polícia. — Não ligou pra ambulância. — Não ligou pra vizinho. — Ela ligou pra mim. Respirou fundo. — Ela confiou a vida dela na minha mão. Passou a mão no peito. — E agora... — Quando ela mais vai precisar de proteção... — Eu não vou conseguir estar do lado dela. Orelha abaixou a cabeça. Sabia exatamente o peso daquilo. Dogão continuou. — Se acontecer qualquer coisa... — Eu nunca vou me perdoar. Negão se levantou. Foi até ele. Colocou a mão no ombro do amigo. — Escuta. — Tu tá sofrendo por uma coisa que nem aconteceu ainda. Dogão olhou para ele. — Mas pode acontecer. — Pode. — Como também pode não acontecer. Negão falou firme. — Primeiro a gente tenta cancelar essa viagem. — Se não conseguir... — A gente monta um plano. Dogão franziu a testa. — Que plano? Orelha respondeu: — Hotel escolhido por nós. — Motorista de confiança. — Roteiro inteiro planejado. — Horários definidos. — Chamada de vídeo sempre que trocar de lugar. — Compartilhamento de localização vinte e quatro horas. — Contatos de emergência. — Tudo. Negão completou: — E, se precisar, a gente procura alguém de confiança em São Paulo que possa dar apoio sem envolver facção nenhuma. Dogão ficou pensativo. Era a primeira ideia que realmente fazia sentido. Mesmo assim... A angústia permanecia. Ele olhou pela janela, na direção da comunidade. Lembrou da imagem de Ula deitada no hospital. Fraca. Com a testa machucada. Segurando sua mão. E ouviu novamente, na memória, a voz dela: "Vai dar tudo certo, amor." Ele fechou os olhos. Falou tão baixo que quase ninguém ouviu: — Eu prometi que ia proteger você... Respirou fundo. — E eu vou cumprir. Nem que eu tenha que virar São Paulo de cabeça pra baixo pra garantir que você volte pra casa em segurança. Dogão permaneceu alguns segundos olhando pela janela. A comunidade seguia a rotina. Os vapores subiam e desciam. As motos cruzavam as vielas. Tudo parecia normal. Mas, por dentro... Ele estava longe de estar. Respirou fundo. Virou-se para Orelha e n***o. — Tem outra coisa que tá me incomodando. Os dois olharam para ele. — Fala. — Esses fornecedores. Negão franziu a testa. — O que tem eles? Dogão cruzou os braços. — Não faz sentido. — Anos entregando. — Nunca deu problema. — Agora, de uma hora pra outra, todos resolvem que não entregam mais? Orelha assentiu. — Também achei estranho. Dogão continuou. — Eu quero saber o motivo verdadeiro. — Porque, se alguém tá fazendo pressão neles... — Eu preciso descobrir quem. Negão falou: — Pode ser só medo de entrar na comunidade. Dogão balançou a cabeça. — Sempre tiveram medo. — E mesmo assim entregavam. — Alguma coisa mudou. Ele passou a mão na barba. Pensativo. — E eu não gosto quando as peças não encaixam. Orelha respirou fundo. — Então vamos investigar. — Sem assustar a Ula. Dogão assentiu. — Exatamente. — Ela acabou de sair do hospital. — Não vou colocar mais preocupação na cabeça dela. — Primeiro a gente descobre. — Depois vê o que faz. Negão pegou um caderno sobre a mesa. — Assim que ela melhorar um pouco... — Pede os nomes de todos os fornecedores. — Endereço. — Telefone. — Tudo. Dogão concordou. — Eu mesmo vou pedir. Houve alguns segundos de silêncio. Até que Orelha sorriu de canto. — Nunca pensei que ia te ver assim. Dogão arqueou a sobrancelha. — Assim como? — Desesperado. Ele soltou uma risada sem graça. — Nem eu. Orelha deu um leve sorriso. — Tu enfrentou operação. — Guerra. — Tentaram te matar umas dez vezes. — Nunca te vi perder o sono. Dogão abaixou a cabeça. Quando voltou a falar... A voz saiu baixa. — Porque nessas situações... — Quem tava em risco era eu. Olhou diretamente para os amigos. — Agora é ela. — E eu descobri uma coisa. Os dois ficaram atentos. — Eu aguento qualquer coisa acontecer comigo. — Mas não aguento imaginar acontecendo com ela. Orelha e n***o permaneceram em silêncio. Dogão caminhou devagar até a mesa. Pegou o celular. Abriu a conversa com Ula. Sorriu discretamente ao ver a última mensagem dela. "Cheguei bem em casa. Vou descansar. ❤️" Ele passou o polegar sobre a tela. — Olha isso... Mostrou aos dois. — Ela ainda coloca coração. Sorriu de leve. Mas o sorriso desapareceu rapidamente. — E daqui a alguns dias... — Esse coração vai estar a quase quinhentos quilômetros de mim. Negão corrigiu, tentando aliviar o clima. — Bem mais que isso. Dogão respirou fundo. — Pior ainda. Guardou o celular. — Eu nunca fui de rezar muito. Os dois olharam para ele. — Mas, desde aquela madrugada... — Toda vez que eu deito... — Eu peço pra Deus cuidar dela. Orelha sorriu discretamente. — Acho que isso já diz tudo. Dogão olhou novamente pela janela. — Eu só quero que ela fique segura. — Se ela voltar bem... — Eu não peço mais nada. Naquele instante, um dos vapores bateu na porta. — Chefe. Dogão virou. — Fala. — Tem um rapaz aí embaixo querendo falar contigo. — Diz que trabalha com transporte de cargas. Dogão e n***o trocaram um olhar rápido. Orelha franziu a testa. — Transporte de cargas? Dogão sentiu algo diferente. — Manda subir. Talvez... A primeira pista para resolver o problema da viagem de Ula estivesse prestes a entrar pela porta.
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