n***o já puxou o celular do bolso.
— Me passa o nome desses fornecedores.
Dogão passou a mão no rosto.
— Eu não tenho.
— Ela comentou comigo no hospital.
— Nem perguntei os nomes.
Orelha cruzou os braços.
— Então a primeira coisa é descobrir quem são.
— Depois a gente liga.
— Se for dinheiro, a gente paga o frete.
— Se for medo de entrar no morro, a gente marca um ponto de entrega fora.
— Se for outro problema, a gente resolve.
Dogão assentiu.
Mas continuava inquieto.
Não conseguia parar sentado.
Andava de um lado para o outro da sala.
O cigarro já tinha queimado inteiro entre os dedos sem que ele percebesse.
Negão observou.
— Tu tá muito nervoso.
Dogão soltou uma risada seca.
— Tô.
— Pra c*****o.
Passou as mãos na cabeça.
— Eu nunca senti isso.
Orelha olhou para ele.
— Tá apaixonado mesmo.
Dogão respirou fundo.
— Não é só paixão, p***a.
— É medo.
— Medo de acontecer alguma coisa com ela.
Ele voltou a andar.
— A Ula é desenrolada.
— Inteligente.
— Trabalhadora.
— Mas ela é inocente pra esse tipo de coisa.
— Ela acredita nas pessoas.
— Ela conversa com todo mundo.
— Se alguém parar ela na rua pedindo informação, ela responde.
— Se um motorista falar "entra por aqui que é mais rápido", ela acredita.
— Ela nunca precisou desconfiar desse jeito.
A voz começou a pesar.
— Ela vive do salão pra casa.
— Da casa pra pensão.
— Da pensão pro salão.
— Essa sempre foi a vida dela.
Ele fechou os olhos por um instante.
— E agora ela vai cair numa cidade gigantesca...
— Sozinha.
Orelha tentou tranquilizá-lo.
— Ela também não é criança.
— Vai saber se cuidar.
Dogão respondeu na mesma hora.
— Eu sei que vai.
— Mas basta errar uma vez.
O silêncio voltou.
Ele continuou, quase num desabafo.
— Sabe o que mais tá me matando?
Negão balançou a cabeça.
— O quê?
— Ela confiou em mim.
Os dois olharam para ele.
— Na madrugada...
— Quando ela tava tremendo...
— Quando m*l conseguia falar...
— Ela ligou pra mim.
A voz dele ficou embargada.
— Não ligou pra polícia.
— Não ligou pra ambulância.
— Não ligou pra vizinho.
— Ela ligou pra mim.
Respirou fundo.
— Ela confiou a vida dela na minha mão.
Passou a mão no peito.
— E agora...
— Quando ela mais vai precisar de proteção...
— Eu não vou conseguir estar do lado dela.
Orelha abaixou a cabeça.
Sabia exatamente o peso daquilo.
Dogão continuou.
— Se acontecer qualquer coisa...
— Eu nunca vou me perdoar.
Negão se levantou.
Foi até ele.
Colocou a mão no ombro do amigo.
— Escuta.
— Tu tá sofrendo por uma coisa que nem aconteceu ainda.
Dogão olhou para ele.
— Mas pode acontecer.
— Pode.
— Como também pode não acontecer.
Negão falou firme.
— Primeiro a gente tenta cancelar essa viagem.
— Se não conseguir...
— A gente monta um plano.
Dogão franziu a testa.
— Que plano?
Orelha respondeu:
— Hotel escolhido por nós.
— Motorista de confiança.
— Roteiro inteiro planejado.
— Horários definidos.
— Chamada de vídeo sempre que trocar de lugar.
— Compartilhamento de localização vinte e quatro horas.
— Contatos de emergência.
— Tudo.
Negão completou:
— E, se precisar, a gente procura alguém de confiança em São Paulo que possa dar apoio sem envolver facção nenhuma.
Dogão ficou pensativo.
Era a primeira ideia que realmente fazia sentido.
Mesmo assim...
A angústia permanecia.
Ele olhou pela janela, na direção da comunidade.
Lembrou da imagem de Ula deitada no hospital.
Fraca.
Com a testa machucada.
Segurando sua mão.
E ouviu novamente, na memória, a voz dela:
"Vai dar tudo certo, amor."
Ele fechou os olhos.
Falou tão baixo que quase ninguém ouviu:
— Eu prometi que ia proteger você...
Respirou fundo.
— E eu vou cumprir.
Nem que eu tenha que virar São Paulo de cabeça pra baixo pra garantir que você volte pra casa em segurança.
Dogão permaneceu alguns segundos olhando pela janela.
A comunidade seguia a rotina.
Os vapores subiam e desciam.
As motos cruzavam as vielas.
Tudo parecia normal.
Mas, por dentro...
Ele estava longe de estar.
Respirou fundo.
Virou-se para Orelha e n***o.
— Tem outra coisa que tá me incomodando.
Os dois olharam para ele.
— Fala.
— Esses fornecedores.
Negão franziu a testa.
— O que tem eles?
Dogão cruzou os braços.
— Não faz sentido.
— Anos entregando.
— Nunca deu problema.
— Agora, de uma hora pra outra, todos resolvem que não entregam mais?
Orelha assentiu.
— Também achei estranho.
Dogão continuou.
— Eu quero saber o motivo verdadeiro.
— Porque, se alguém tá fazendo pressão neles...
— Eu preciso descobrir quem.
Negão falou:
— Pode ser só medo de entrar na comunidade.
Dogão balançou a cabeça.
— Sempre tiveram medo.
— E mesmo assim entregavam.
— Alguma coisa mudou.
Ele passou a mão na barba.
Pensativo.
— E eu não gosto quando as peças não encaixam.
Orelha respirou fundo.
— Então vamos investigar.
— Sem assustar a Ula.
Dogão assentiu.
— Exatamente.
— Ela acabou de sair do hospital.
— Não vou colocar mais preocupação na cabeça dela.
— Primeiro a gente descobre.
— Depois vê o que faz.
Negão pegou um caderno sobre a mesa.
— Assim que ela melhorar um pouco...
— Pede os nomes de todos os fornecedores.
— Endereço.
— Telefone.
— Tudo.
Dogão concordou.
— Eu mesmo vou pedir.
Houve alguns segundos de silêncio.
Até que Orelha sorriu de canto.
— Nunca pensei que ia te ver assim.
Dogão arqueou a sobrancelha.
— Assim como?
— Desesperado.
Ele soltou uma risada sem graça.
— Nem eu.
Orelha deu um leve sorriso.
— Tu enfrentou operação.
— Guerra.
— Tentaram te matar umas dez vezes.
— Nunca te vi perder o sono.
Dogão abaixou a cabeça.
Quando voltou a falar...
A voz saiu baixa.
— Porque nessas situações...
— Quem tava em risco era eu.
Olhou diretamente para os amigos.
— Agora é ela.
— E eu descobri uma coisa.
Os dois ficaram atentos.
— Eu aguento qualquer coisa acontecer comigo.
— Mas não aguento imaginar acontecendo com ela.
Orelha e n***o permaneceram em silêncio.
Dogão caminhou devagar até a mesa.
Pegou o celular.
Abriu a conversa com Ula.
Sorriu discretamente ao ver a última mensagem dela.
"Cheguei bem em casa. Vou descansar. ❤️"
Ele passou o polegar sobre a tela.
— Olha isso...
Mostrou aos dois.
— Ela ainda coloca coração.
Sorriu de leve.
Mas o sorriso desapareceu rapidamente.
— E daqui a alguns dias...
— Esse coração vai estar a quase quinhentos quilômetros de mim.
Negão corrigiu, tentando aliviar o clima.
— Bem mais que isso.
Dogão respirou fundo.
— Pior ainda.
Guardou o celular.
— Eu nunca fui de rezar muito.
Os dois olharam para ele.
— Mas, desde aquela madrugada...
— Toda vez que eu deito...
— Eu peço pra Deus cuidar dela.
Orelha sorriu discretamente.
— Acho que isso já diz tudo.
Dogão olhou novamente pela janela.
— Eu só quero que ela fique segura.
— Se ela voltar bem...
— Eu não peço mais nada.
Naquele instante, um dos vapores bateu na porta.
— Chefe.
Dogão virou.
— Fala.
— Tem um rapaz aí embaixo querendo falar contigo.
— Diz que trabalha com transporte de cargas.
Dogão e n***o trocaram um olhar rápido.
Orelha franziu a testa.
— Transporte de cargas?
Dogão sentiu algo diferente.
— Manda subir.
Talvez...
A primeira pista para resolver o problema da viagem de Ula estivesse prestes a entrar pela porta.