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1075 Words
Dogão entrou na sede do morro ainda com a mesma roupa que tinha usado para levar Ula em casa. Tinha acabado de deixá-la descansando. Ela já estava melhor. A febre tinha passado. A pancada na testa ainda deixava um pequeno hematoma, mas, perto do susto da madrugada, aquilo parecia pequeno. Mesmo assim... Ele não conseguia ficar em paz. Entrou, acendeu um cigarro e ficou olhando a fumaça subir. Orelha e n***o perceberam na mesma hora. — E aí? — perguntou n***o. — Ela tá melhor? Dogão assentiu devagar. — Tá. — Deixei ela em casa. — Tá descansando. Fez uma pausa. Deu outro trago. — Mas tem uma p***a que não tá me deixando respirar direito. Orelha arqueou a sobrancelha. — O quê? — Vocês brigaram sem nem começar a namorar oficialmente? Dogão deu uma risada sem humor. — Não, p***a. — Muito pelo contrário. — A gente tá bem. — Até me chamou de amor sem perceber. Orelha abriu um sorriso. — Caralho... — Então tu ganhou mesmo. Dogão balançou a cabeça. — Não começa. — Não tô com cabeça pra isso. Os dois perceberam que o assunto era sério. Negão puxou uma cadeira. — Então senta aí e fala. Dogão sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos. Passou as mãos pelo rosto. Respirou fundo. — Ela vai ter que sair do morro semana que vem. Orelha franziu a testa. — Como assim? — Pra onde? — São Paulo. Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos. Foi n***o quem perguntou primeiro. — Fazer o quê? — Os fornecedores dela não querem mais entregar as mercadorias aqui. — Ela vai buscar pessoalmente. Orelha olhou imediatamente para n***o. Depois voltou para Dogão. — Ué... — Mas eles sempre entregaram. — O morro tá tranquilo. — Não teve operação. — Não teve guerra. — Estranho pra c*****o. Dogão assentiu. — Eu também tô achando. — Não sei se foi medo... — Se receberam ameaça... — Ou se simplesmente resolveram parar. — Mas o resultado é o mesmo. — Ela vai. Silêncio. Orelha passou a mão na barba. — Tu sabe que São Paulo também é complicado. — Tem lugar que ninguém entra. Dogão respondeu na hora. — Eu sei. — Foi exatamente isso que eu falei pra ela. Levantou da cadeira. Começou a andar de um lado para o outro. Visivelmente inquieto. — Eu pensei em mandar um dos nossos homens junto. — Mas ela não deixou. — Disse que, se alguém reconhecer um dos nossos lá... — Pode dar uma merda ainda maior. Negão concordou. — Ela não tá errada. Dogão chutou de leve a perna da cadeira. — Eu sei que ela não tá errada, c*****o! A voz saiu mais alta do que ele pretendia. Respirou fundo logo em seguida. — Desculpa... — Eu só... Passou as mãos na cabeça. — Eu não consigo aceitar essa p***a. Orelha levantou. — O problema maior nem é esse. — O problema é ela ir sozinha. Dogão parou de andar. — Exatamente. — Ela nunca saiu daqui. — Nunca. — Nem ela... — Nem a Jéssica. — As duas nasceram e cresceram aqui. — Como é que ela vai andar numa cidade daquele tamanho? — Como vai saber qual bairro pode entrar? — Qual não pode? — Qual aplicativo pegar? — Em quem confiar? A cada pergunta... A expressão dele ficava pior. A respiração mais pesada. — E se o GPS mandar ela entrar numa rua errada? — E se o táxi deixar ela num lugar perigoso? — E se alguém perceber que ela tá perdida? — E se alguém mexer com ela? — E se ela for seguida? Ele passou as mãos no rosto novamente. — Caralho... — Só de imaginar... Negão levantou também. — Então vai com ela. Dogão olhou para ele como se a ideia fosse impossível. — Tá maluco? — Tu sabe quem eu sou. — No momento em que eu pisar em São Paulo... — Não demora pra alguém descobrir. — A notícia corre. — O dono do morro tá fora da comunidade. — Aí vira problema aqui... — E pode virar problema lá. — Eu coloco ela em risco. — Coloco o morro em risco. — Coloco todo mundo em risco. Fez uma pausa. A voz falhou. — Mas deixar ela ir sozinha também tá me matando. Orelha colocou a mão no ombro dele. — Calma. Dogão balançou a cabeça negativamente. — Não dá pra ficar calmo. — Não dá. — Eu falei pra ela compartilhar localização. — Me ligar. — Mandar mensagem toda hora. — Mas de que adianta? Olhou para os dois. Os olhos estavam vermelhos de preocupação. — Imagina que ela me manda uma mensagem... A voz ficou baixa. — "Amor... acho que tem alguém me seguindo." Ele respirou fundo. — E eu aqui. Apontou para o chão. — Aqui. — No Rio. — O que eu faço? — Eu entro numa chamada de vídeo? — Eu mando áudio? — Eu peço pra ela correr? — Eu vou proteger ela como? Deu um soco na parede. Tum. Os dois se assustaram. Ele apoiou a testa na parede. Respirando pesado. — Pela primeira vez na vida... — Eu tô sentindo medo de um jeito que eu nunca senti. Ninguém respondeu. Ele continuou. — Em confronto eu sei o que fazer. — Em operação eu sei o que fazer. — Em guerra eu sei o que fazer. — Se tiver que morrer, eu morro lutando. Virou-se para os amigos. — Mas isso... — Isso eu não sei resolver. — Porque ela vai estar longe demais. — E eu não vou conseguir proteger ela. O silêncio tomou conta da sala. Negão olhou para Orelha. Depois voltou para Dogão. Falou firme: — Então ninguém vai resolver isso sozinho. — Nós três vamos pensar. — Vamos ligar pra esses fornecedores. — Vamos tentar negociar. — Ver se entregam em outro endereço. — No centro do Rio. — Em Niterói. — Em qualquer lugar. — A gente aluga um galpão. — Faz o que for preciso. — Mas antes de deixar ela atravessar o país sozinha... — Nós vamos esgotar todas as possibilidades. Dogão respirou fundo. Fechou os olhos por alguns segundos. Quando abriu, ainda havia preocupação estampada no rosto. Mas agora havia também uma pequena esperança. — Faz isso. — Por favor. — Porque, se existir qualquer jeito de evitar essa viagem... — Eu vou fazer de tudo pra ela não precisar ir sozinha.
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