Dogão entrou na sede do morro ainda com a mesma roupa que tinha usado para levar Ula em casa.
Tinha acabado de deixá-la descansando.
Ela já estava melhor.
A febre tinha passado.
A pancada na testa ainda deixava um pequeno hematoma, mas, perto do susto da madrugada, aquilo parecia pequeno.
Mesmo assim...
Ele não conseguia ficar em paz.
Entrou, acendeu um cigarro e ficou olhando a fumaça subir.
Orelha e n***o perceberam na mesma hora.
— E aí? — perguntou n***o. — Ela tá melhor?
Dogão assentiu devagar.
— Tá.
— Deixei ela em casa.
— Tá descansando.
Fez uma pausa.
Deu outro trago.
— Mas tem uma p***a que não tá me deixando respirar direito.
Orelha arqueou a sobrancelha.
— O quê?
— Vocês brigaram sem nem começar a namorar oficialmente?
Dogão deu uma risada sem humor.
— Não, p***a.
— Muito pelo contrário.
— A gente tá bem.
— Até me chamou de amor sem perceber.
Orelha abriu um sorriso.
— Caralho...
— Então tu ganhou mesmo.
Dogão balançou a cabeça.
— Não começa.
— Não tô com cabeça pra isso.
Os dois perceberam que o assunto era sério.
Negão puxou uma cadeira.
— Então senta aí e fala.
Dogão sentou, apoiando os cotovelos nos joelhos.
Passou as mãos pelo rosto.
Respirou fundo.
— Ela vai ter que sair do morro semana que vem.
Orelha franziu a testa.
— Como assim?
— Pra onde?
— São Paulo.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos.
Foi n***o quem perguntou primeiro.
— Fazer o quê?
— Os fornecedores dela não querem mais entregar as mercadorias aqui.
— Ela vai buscar pessoalmente.
Orelha olhou imediatamente para n***o.
Depois voltou para Dogão.
— Ué...
— Mas eles sempre entregaram.
— O morro tá tranquilo.
— Não teve operação.
— Não teve guerra.
— Estranho pra c*****o.
Dogão assentiu.
— Eu também tô achando.
— Não sei se foi medo...
— Se receberam ameaça...
— Ou se simplesmente resolveram parar.
— Mas o resultado é o mesmo.
— Ela vai.
Silêncio.
Orelha passou a mão na barba.
— Tu sabe que São Paulo também é complicado.
— Tem lugar que ninguém entra.
Dogão respondeu na hora.
— Eu sei.
— Foi exatamente isso que eu falei pra ela.
Levantou da cadeira.
Começou a andar de um lado para o outro.
Visivelmente inquieto.
— Eu pensei em mandar um dos nossos homens junto.
— Mas ela não deixou.
— Disse que, se alguém reconhecer um dos nossos lá...
— Pode dar uma merda ainda maior.
Negão concordou.
— Ela não tá errada.
Dogão chutou de leve a perna da cadeira.
— Eu sei que ela não tá errada, c*****o!
A voz saiu mais alta do que ele pretendia.
Respirou fundo logo em seguida.
— Desculpa...
— Eu só...
Passou as mãos na cabeça.
— Eu não consigo aceitar essa p***a.
Orelha levantou.
— O problema maior nem é esse.
— O problema é ela ir sozinha.
Dogão parou de andar.
— Exatamente.
— Ela nunca saiu daqui.
— Nunca.
— Nem ela...
— Nem a Jéssica.
— As duas nasceram e cresceram aqui.
— Como é que ela vai andar numa cidade daquele tamanho?
— Como vai saber qual bairro pode entrar?
— Qual não pode?
— Qual aplicativo pegar?
— Em quem confiar?
A cada pergunta...
A expressão dele ficava pior.
A respiração mais pesada.
— E se o GPS mandar ela entrar numa rua errada?
— E se o táxi deixar ela num lugar perigoso?
— E se alguém perceber que ela tá perdida?
— E se alguém mexer com ela?
— E se ela for seguida?
Ele passou as mãos no rosto novamente.
— Caralho...
— Só de imaginar...
Negão levantou também.
— Então vai com ela.
Dogão olhou para ele como se a ideia fosse impossível.
— Tá maluco?
— Tu sabe quem eu sou.
— No momento em que eu pisar em São Paulo...
— Não demora pra alguém descobrir.
— A notícia corre.
— O dono do morro tá fora da comunidade.
— Aí vira problema aqui...
— E pode virar problema lá.
— Eu coloco ela em risco.
— Coloco o morro em risco.
— Coloco todo mundo em risco.
Fez uma pausa.
A voz falhou.
— Mas deixar ela ir sozinha também tá me matando.
Orelha colocou a mão no ombro dele.
— Calma.
Dogão balançou a cabeça negativamente.
— Não dá pra ficar calmo.
— Não dá.
— Eu falei pra ela compartilhar localização.
— Me ligar.
— Mandar mensagem toda hora.
— Mas de que adianta?
Olhou para os dois.
Os olhos estavam vermelhos de preocupação.
— Imagina que ela me manda uma mensagem...
A voz ficou baixa.
— "Amor... acho que tem alguém me seguindo."
Ele respirou fundo.
— E eu aqui.
Apontou para o chão.
— Aqui.
— No Rio.
— O que eu faço?
— Eu entro numa chamada de vídeo?
— Eu mando áudio?
— Eu peço pra ela correr?
— Eu vou proteger ela como?
Deu um soco na parede.
Tum.
Os dois se assustaram.
Ele apoiou a testa na parede.
Respirando pesado.
— Pela primeira vez na vida...
— Eu tô sentindo medo de um jeito que eu nunca senti.
Ninguém respondeu.
Ele continuou.
— Em confronto eu sei o que fazer.
— Em operação eu sei o que fazer.
— Em guerra eu sei o que fazer.
— Se tiver que morrer, eu morro lutando.
Virou-se para os amigos.
— Mas isso...
— Isso eu não sei resolver.
— Porque ela vai estar longe demais.
— E eu não vou conseguir proteger ela.
O silêncio tomou conta da sala.
Negão olhou para Orelha.
Depois voltou para Dogão.
Falou firme:
— Então ninguém vai resolver isso sozinho.
— Nós três vamos pensar.
— Vamos ligar pra esses fornecedores.
— Vamos tentar negociar.
— Ver se entregam em outro endereço.
— No centro do Rio.
— Em Niterói.
— Em qualquer lugar.
— A gente aluga um galpão.
— Faz o que for preciso.
— Mas antes de deixar ela atravessar o país sozinha...
— Nós vamos esgotar todas as possibilidades.
Dogão respirou fundo.
Fechou os olhos por alguns segundos.
Quando abriu, ainda havia preocupação estampada no rosto.
Mas agora havia também uma pequena esperança.
— Faz isso.
— Por favor.
— Porque, se existir qualquer jeito de evitar essa viagem...
— Eu vou fazer de tudo pra ela não precisar ir sozinha.