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1157 Words
Algumas horas se passaram. O quarto permanecia silencioso. A televisão continuava ligada bem baixinho. Dogão continuava sentado ao lado da cama. Em nenhum momento tinha ido embora. Segurava a mão de Ula enquanto observava ela dormir tranquilamente. De vez em quando fazia um carinho delicado com o polegar na mão dela. Como se quisesse ter certeza de que ela estava ali. Depois de um tempo... Ula começou a despertar. Abriu os olhos devagar. Piscou algumas vezes. Assim que viu Dogão sentado ao lado da cama, deu um sorriso fraco. Ele sorriu de volta. — Oi... — Oi... A voz dela saiu bem baixinha. Ela respirou fundo. Franziu um pouco a testa. — Acho... Ele imediatamente ficou atento. — O que foi? Ela fechou os olhos por alguns segundos. — Acho que a febre tá voltando... Ela levou a mão até a testa. — Minha cabeça... — Tá doendo muito. Dogão levantou na mesma hora. Encostou delicadamente a palma da mão na testa dela. Depois no pescoço. O semblante dele mudou. — Você tá quente. Ela respirava um pouco mais rápido. — Tá doendo muito... Ele apertou o botão para chamar a enfermagem. — Calma. — Já vão vir. Ela segurou a mão dele antes que ele se afastasse. — Não sai daqui... Ele voltou imediatamente para perto dela. Segurou a mão dela com firmeza. — Eu não vou a lugar nenhum. Poucos segundos depois, duas enfermeiras entraram rapidamente no quarto. — O que aconteceu? Dogão respondeu antes mesmo de Ula conseguir falar. — Ela acordou dizendo que a febre voltou. — Tá reclamando de muita dor de cabeça. Uma das enfermeiras colocou o termômetro enquanto a outra aferia a pressão. Depois de alguns instantes, a profissional olhou para a colega. — Trinta e oito vírgula nove. A outra enfermeira assentiu. — A pressão caiu um pouco também. Ela sorriu para Ula. — Calma. — Vamos medicar você. — O médico já está sendo chamado. Enquanto preparavam a medicação no acesso do soro, Dogão continuava ao lado dela. Sem soltar sua mão nem por um segundo. Ula apertou os dedos dele fraquinho. Os olhos estavam pesados por causa da febre. — Desculpa... Ele balançou a cabeça imediatamente. — Não pede desculpa. Ela fechou os olhos. Uma lágrima escorreu. — Eu odeio dar trabalho... Ele aproximou o rosto do dela. Falou baixo. — Você nunca deu trabalho. — Você só ficou doente. Ela respirou devagar. Sentindo a medicação começar a entrar pela veia. O médico entrou logo em seguida. Aproximou-se da cama e iniciou um novo exame. — Vamos controlar essa febre e reavaliar a dor de cabeça. — Em algumas infecções isso pode acontecer nas primeiras 24 horas de tratamento. — Mas vamos acompanhar de perto. Dogão permaneceu em silêncio. O olhar dele não saía de Ula. Nem por um segundo. A medicação já fazia efeito aos poucos. A febre começava a baixar novamente. Ula permanecia deitada, ainda com o rosto um pouco abatido. Dogão continuava sentado ao lado da cama, segurando a mão dela. Nenhum dos dois dizia muita coisa. Até que ela quebrou o silêncio. — Semana que vem... eu preciso sair do Rio. Ele virou o rosto imediatamente. — O quê? — Por quê? Ela respirou fundo. — Alguns fornecedores meus não querem mais entregar os produtos aqui no salão. Ele franziu a testa. — Como assim? — Disseram que não conseguem mais fazer entrega pra cá. — Então vou ter que buscar pessoalmente. Ele ficou sério. — E onde ficam esses fornecedores? — Em São Paulo. Na mesma hora, o semblante dele mudou. — São Paulo? Ela assentiu. — Vou precisar ir. — Não é um fornecedor só. — São vários. — Cada um fica em uma região diferente. — Vou ter que rodar bastante. — Acho que vou ficar uns vinte dias por lá. Dogão ficou alguns segundos em silêncio. Depois balançou a cabeça negativamente. — Não. Ela olhou para ele. — Como assim, não? — Você não vai. Ela sorriu de canto. — Dogão... — Eu preciso. — Não. A voz dele saiu firme. — É perigoso demais. Ela respirou fundo. — Eu sei. — Mas não tem outra opção. Ele passou a mão no rosto, claramente preocupado. — Você nunca foi pra São Paulo. — Não conhece a cidade. — Tem bairro que é tranquilo. — Mas também tem lugar muito perigoso. — Você pode entrar num aplicativo, pegar um táxi, seguir um GPS... — E acabar entrando numa área errada. Ela permaneceu ouvindo. — Você vai estar sozinha. — Muito longe daqui. — Muito longe de mim. Ela apertou de leve a mão dele. — O que eu vou fazer? — Eu preciso comprar as coisas do salão. — Se eu não buscar... — Meu estoque acaba. Ele respirou fundo. — Eu mando alguns dos meus homens com você. Ela negou imediatamente. — Não. — Claro que não. — Você mesmo acabou de falar que lá também tem facção. — Se reconhecerem algum homem seu... — Pode dar problema. Dogão fechou os olhos por um instante. — Droga... Passou a mão na nuca. — Caralho... Ela sorriu fraquinho. — Vai dar tudo certo, amor. Ele olhou para ela. — Não dá. Ela estranhou. — O quê? — Não dá pra eu ficar tranquilo. A voz dele saiu carregada de preocupação. — Você vai estar literalmente do outro lado do país. — E eu não vou conseguir saber se você tá bem. — Se comeu. — Se chegou. — Se entrou no hotel. — Se saiu. — Se alguém mexeu com você. Ele respirou fundo. — Eu queria poder ir junto. Ela sorriu, balançando a cabeça. — Nem vem. — Você não pode. — Você é o chefe do morro. — Se você sair daqui por quase um mês... — Você coloca tudo em risco. Ele abaixou a cabeça. Sabia que ela tinha razão. Mas isso não diminuía a angústia. — Então você vai sozinha... Ela assentiu. — Vou. Ele apertou mais forte a mão dela. — Eu odeio essa ideia. Ela fez um carinho na mão dele. — Eu também. — Mas às vezes a gente faz o que precisa fazer. Dogão ficou olhando para ela por vários segundos. Depois falou bem baixo: — Então me promete uma coisa. — O quê? — Me liga todos os dias. — De manhã. — À tarde. — À noite. — Compartilha sua localização comigo. — Não entra em lugar nenhum sem pesquisar antes. — Não aceita ajuda de desconhecido. — Não anda sozinha à noite. — E, se sentir que tem alguma coisa errada... Ele aproximou um pouco o rosto. — Você volta na mesma hora. Ula sorriu emocionada. — Tá bom. — Eu prometo. Mesmo assim, ele continuava inquieto. No fundo... A única vontade que tinha era encontrar outra solução. Porque a ideia de deixar Ula viajar sozinha por quase vinte dias era algo que simplesmente não o deixava em paz.
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