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1050 Words
Mais tarde, o quarto do hospital estava completamente silencioso. Jéssica tinha ido dar um pulo no salão. Mesmo relutando, acabou cedendo depois que Ula insistiu muito. — Vai, irmã. — As meninas precisam de você lá. — Tem cliente marcada. — Eu tô bem. — Qualquer coisa eu ligo. Jéssica ainda fez cara de quem não queria ir. — Tem certeza? — Tenho. — Vai tranquila. Depois foi a vez de Dona Gracinha. — Eu também não quero te deixar sozinha, filha. Ula sorriu. — Mãe... — A pensão tá cheia. — O pessoal tá indo almoçar. — A senhora acabou de reabrir. — Não pode fechar por minha causa. — Eu tô sendo muito bem cuidada aqui. — Vai trabalhar. — Depois vocês voltam. Dona Gracinha beijou a testa da filha com cuidado, desviando do curativo. — Qualquer coisa... — Eu largo tudo e venho. — Eu sei. Ela sorriu. — Agora vai. As duas saíram. A porta se fechou. Pela primeira vez desde que tinha sido internada... Ula ficou completamente sozinha. O quarto estava calmo. A televisão ligada bem baixinho passava um programa qualquer. Ela nem prestava atenção. Ficou olhando pela janela. O céu estava claro. Respirou fundo. Ainda sentia o corpo fraco. A cabeça doía um pouco. Mas era uma dor muito menor do que na madrugada. Levou a mão até o curativo na testa. Soltou um pequeno suspiro. — Que susto... Murmurou para si mesma. Alguns minutos depois... A porta abriu devagar. Ela virou o rosto pensando que fosse uma enfermeira. Mas sorriu no mesmo instante. Dogão entrou. Já estava de banho tomado. Usava uma camisa preta de manga curta, uma calça jeans escura e um boné. Nas mãos, carregava uma sacola. Assim que viu Ula acordada, abriu um sorriso aliviado. — Oi... Ela sorriu. — Você voltou. — Eu falei que voltava. Ele caminhou até a cama. Sentou na cadeira ao lado dela. — Como você tá? — Melhor. — Ainda fraquinha... — Mas bem melhor. Ele assentiu. — Que bom. Colocou a sacola sobre a mesinha. Ela olhou curiosa. — O que é isso? Ele sorriu de lado. — Como eu imaginei que a comida de hospital não devia ser lá essas coisas... Ela arqueou a sobrancelha. Ele abriu a sacola. — Pedi pra Dona Gracinha mandar uma canja. Ela arregalou os olhos. — Você fez isso? — Fiz. — Ela preparou rapidinho na pensão e mandou entregar. — Também trouxe água de coco e umas frutas. Ula sorriu emocionada. — Você pensa em tudo... Ele deu de ombros. — Tô tentando aprender com você. Ela abaixou a cabeça, sorrindo. O quarto voltou a ficar em silêncio. Mas agora... Era um silêncio confortável. Os dois apenas ficaram ali. Assistindo televisão baixinho. Sem precisar dizer muita coisa. Porque, naquele momento... A presença um do outro já dizia tudo. Ula olhou para ele por alguns segundos. Depois inclinou a cabeça de leve. — Você comeu antes de vir? Dogão sorriu. — Comi. Ela estreitou os olhos, desconfiada. — Tem certeza? Ele deu uma risadinha. — Passei na pensão da tua mãe. — Ela praticamente me obrigou a almoçar. Ula sorriu. — Imaginei. — Ela não deixa ninguém sair de lá sem comer. — Ainda mais você. Ele deu de ombros. — E tava bom pra c*****o, como sempre. Ela riu baixinho. O sorriso foi desaparecendo aos poucos. Ela olhou para ele com carinho. — Dogão... — Hum? — O morro precisa de você, sabia? Ele ficou em silêncio, esperando ela continuar. — Você não precisa passar o dia inteiro aqui comigo. — Eu tô bem. — O médico já falou que eu tô melhorando. Ela fez um pequeno gesto apontando para o soro. — Tem médico... — Tem enfermeira... — Minha mãe... — Minha irmã... — Todo mundo vem me ver. Respirou fundo. — Mas lá em cima... — Tem um morro inteiro que depende de você. Ele permaneceu olhando para ela. Ela sorriu de leve. — Eu não quero que você deixe suas responsabilidades de lado por minha causa. Dogão abaixou um pouco a cabeça. Ficou alguns segundos pensando. Depois segurou delicadamente a mão dela. — Posso te contar uma coisa? Ela assentiu. — Pode. Ele apertou a mão dela de leve. — O morro precisa de mim. — Isso é verdade. — Mas... Ele olhou diretamente nos olhos dela. — Ontem, de madrugada... — Quem precisava de mim era você. Os olhos dela marejaram na mesma hora. Ele continuou, com a voz baixa. — E, enquanto eu souber que você ainda tá aqui... — Que ainda tá se recuperando... — Minha cabeça não consegue ficar tranquila lá em cima. Ela respirou fundo. Ele sorriu de leve. — Eu já organizei tudo. — O Orelha tá tomando conta. — O n***o também. — Os meninos sabem exatamente o que fazer. — Se acontecer qualquer coisa realmente importante... — Eles me ligam. Ela ficou olhando para ele em silêncio. — Então... Ele acariciou a mão dela. — Pela primeira vez em muito tempo... — Eu posso me dar ao luxo de passar algumas horas longe do morro. Ela sorriu emocionada. — Por minha causa? Ele deu um meio sorriso. — Por nossa causa. O coração dela acelerou. Ele percebeu. Sorriu. — Você sempre cuidou de mim. — Sempre. — Quando eu chegava todo travado... — Era você quem tirava minha dor. — Quando eu chegava cansado... — Era você quem me fazia relaxar. — Quando eu precisava colocar a cabeça no lugar... — Bastava conversar cinco minutos com você. Ele fez uma pequena pausa. — Agora deixa eu cuidar de você um pouquinho. Uma lágrima escorreu pelo rosto de Ula. Ela não tentou esconder. Apenas apertou mais forte a mão dele. — Você é um babaca... Ele riu baixinho. — Por quê? Ela sorriu entre as lágrimas. — Porque toda vez que eu tento criar coragem pra manter distância... — Você faz alguma coisa que me faz gostar ainda mais de você. Dogão não respondeu. Apenas levantou a mão lentamente e enxugou a lágrima que escorria pelo rosto dela com o polegar. — Então não cria distância. — Só melhora logo. Os dois ficaram se olhando em silêncio. Nenhum dos dois precisava dizer mais nada. O que existia entre eles estava ficando cada vez mais claro.
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