Mais tarde, o quarto do hospital estava completamente silencioso.
Jéssica tinha ido dar um pulo no salão.
Mesmo relutando, acabou cedendo depois que Ula insistiu muito.
— Vai, irmã.
— As meninas precisam de você lá.
— Tem cliente marcada.
— Eu tô bem.
— Qualquer coisa eu ligo.
Jéssica ainda fez cara de quem não queria ir.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Vai tranquila.
Depois foi a vez de Dona Gracinha.
— Eu também não quero te deixar sozinha, filha.
Ula sorriu.
— Mãe...
— A pensão tá cheia.
— O pessoal tá indo almoçar.
— A senhora acabou de reabrir.
— Não pode fechar por minha causa.
— Eu tô sendo muito bem cuidada aqui.
— Vai trabalhar.
— Depois vocês voltam.
Dona Gracinha beijou a testa da filha com cuidado, desviando do curativo.
— Qualquer coisa...
— Eu largo tudo e venho.
— Eu sei.
Ela sorriu.
— Agora vai.
As duas saíram.
A porta se fechou.
Pela primeira vez desde que tinha sido internada...
Ula ficou completamente sozinha.
O quarto estava calmo.
A televisão ligada bem baixinho passava um programa qualquer.
Ela nem prestava atenção.
Ficou olhando pela janela.
O céu estava claro.
Respirou fundo.
Ainda sentia o corpo fraco.
A cabeça doía um pouco.
Mas era uma dor muito menor do que na madrugada.
Levou a mão até o curativo na testa.
Soltou um pequeno suspiro.
— Que susto...
Murmurou para si mesma.
Alguns minutos depois...
A porta abriu devagar.
Ela virou o rosto pensando que fosse uma enfermeira.
Mas sorriu no mesmo instante.
Dogão entrou.
Já estava de banho tomado.
Usava uma camisa preta de manga curta, uma calça jeans escura e um boné.
Nas mãos, carregava uma sacola.
Assim que viu Ula acordada, abriu um sorriso aliviado.
— Oi...
Ela sorriu.
— Você voltou.
— Eu falei que voltava.
Ele caminhou até a cama.
Sentou na cadeira ao lado dela.
— Como você tá?
— Melhor.
— Ainda fraquinha...
— Mas bem melhor.
Ele assentiu.
— Que bom.
Colocou a sacola sobre a mesinha.
Ela olhou curiosa.
— O que é isso?
Ele sorriu de lado.
— Como eu imaginei que a comida de hospital não devia ser lá essas coisas...
Ela arqueou a sobrancelha.
Ele abriu a sacola.
— Pedi pra Dona Gracinha mandar uma canja.
Ela arregalou os olhos.
— Você fez isso?
— Fiz.
— Ela preparou rapidinho na pensão e mandou entregar.
— Também trouxe água de coco e umas frutas.
Ula sorriu emocionada.
— Você pensa em tudo...
Ele deu de ombros.
— Tô tentando aprender com você.
Ela abaixou a cabeça, sorrindo.
O quarto voltou a ficar em silêncio.
Mas agora...
Era um silêncio confortável.
Os dois apenas ficaram ali.
Assistindo televisão baixinho.
Sem precisar dizer muita coisa.
Porque, naquele momento...
A presença um do outro já dizia tudo.
Ula olhou para ele por alguns segundos.
Depois inclinou a cabeça de leve.
— Você comeu antes de vir?
Dogão sorriu.
— Comi.
Ela estreitou os olhos, desconfiada.
— Tem certeza?
Ele deu uma risadinha.
— Passei na pensão da tua mãe.
— Ela praticamente me obrigou a almoçar.
Ula sorriu.
— Imaginei.
— Ela não deixa ninguém sair de lá sem comer.
— Ainda mais você.
Ele deu de ombros.
— E tava bom pra c*****o, como sempre.
Ela riu baixinho.
O sorriso foi desaparecendo aos poucos.
Ela olhou para ele com carinho.
— Dogão...
— Hum?
— O morro precisa de você, sabia?
Ele ficou em silêncio, esperando ela continuar.
— Você não precisa passar o dia inteiro aqui comigo.
— Eu tô bem.
— O médico já falou que eu tô melhorando.
Ela fez um pequeno gesto apontando para o soro.
— Tem médico...
— Tem enfermeira...
— Minha mãe...
— Minha irmã...
— Todo mundo vem me ver.
Respirou fundo.
— Mas lá em cima...
— Tem um morro inteiro que depende de você.
Ele permaneceu olhando para ela.
Ela sorriu de leve.
— Eu não quero que você deixe suas responsabilidades de lado por minha causa.
Dogão abaixou um pouco a cabeça.
Ficou alguns segundos pensando.
Depois segurou delicadamente a mão dela.
— Posso te contar uma coisa?
Ela assentiu.
— Pode.
Ele apertou a mão dela de leve.
— O morro precisa de mim.
— Isso é verdade.
— Mas...
Ele olhou diretamente nos olhos dela.
— Ontem, de madrugada...
— Quem precisava de mim era você.
Os olhos dela marejaram na mesma hora.
Ele continuou, com a voz baixa.
— E, enquanto eu souber que você ainda tá aqui...
— Que ainda tá se recuperando...
— Minha cabeça não consegue ficar tranquila lá em cima.
Ela respirou fundo.
Ele sorriu de leve.
— Eu já organizei tudo.
— O Orelha tá tomando conta.
— O n***o também.
— Os meninos sabem exatamente o que fazer.
— Se acontecer qualquer coisa realmente importante...
— Eles me ligam.
Ela ficou olhando para ele em silêncio.
— Então...
Ele acariciou a mão dela.
— Pela primeira vez em muito tempo...
— Eu posso me dar ao luxo de passar algumas horas longe do morro.
Ela sorriu emocionada.
— Por minha causa?
Ele deu um meio sorriso.
— Por nossa causa.
O coração dela acelerou.
Ele percebeu.
Sorriu.
— Você sempre cuidou de mim.
— Sempre.
— Quando eu chegava todo travado...
— Era você quem tirava minha dor.
— Quando eu chegava cansado...
— Era você quem me fazia relaxar.
— Quando eu precisava colocar a cabeça no lugar...
— Bastava conversar cinco minutos com você.
Ele fez uma pequena pausa.
— Agora deixa eu cuidar de você um pouquinho.
Uma lágrima escorreu pelo rosto de Ula.
Ela não tentou esconder.
Apenas apertou mais forte a mão dele.
— Você é um babaca...
Ele riu baixinho.
— Por quê?
Ela sorriu entre as lágrimas.
— Porque toda vez que eu tento criar coragem pra manter distância...
— Você faz alguma coisa que me faz gostar ainda mais de você.
Dogão não respondeu.
Apenas levantou a mão lentamente e enxugou a lágrima que escorria pelo rosto dela com o polegar.
— Então não cria distância.
— Só melhora logo.
Os dois ficaram se olhando em silêncio.
Nenhum dos dois precisava dizer mais nada. O que existia entre eles estava ficando cada vez mais claro.