Logo Dogão se aproximou um pouco mais da cama.
Jéssica deu um passo para o lado, dando espaço para ele.
Ele segurou delicadamente a mão de Ula.
— Eu vou subir lá no morro rapidinho, resolver umas coisas, tomar um banho... e já volto, tá?
Ela assentiu de leve.
— Tá...
Ele fez um carinho com o polegar na mão dela.
— Descansa.
Ela olhou para ele com os olhos ainda cansados.
— Obrigada...
Fez uma pequena pausa.
— E... desculpa por te acordar de madrugada.
Ele balançou a cabeça na mesma hora.
— Nunca mais pede desculpa por isso.
A voz dele saiu baixa, mas firme.
— Se você precisar de mim às duas da manhã... às três... às quatro... ou a qualquer hora... me liga.
Ela sentiu os olhos marejarem.
Dogão sorriu de leve, passou a mão pelos cabelos dela com carinho e saiu do quarto.
Orelha se aproximou de Jéssica.
— Amor, eu vou com ele, tá?
Ela assentiu.
— Tá bom.
— Qualquer coisa, você me liga que a gente volta na mesma hora.
— Tá.
Ele sorriu.
— Vou aproveitar e passar na loja pra comprar teu celular.
Jéssica sorriu.
— Não precisava...
— Precisava, sim.
Depois olhou para Dona Gracinha.
— E o carregador da senhora eu vou mandar consertar. Se não tiver jeito... eu compro outro celular pra senhora também.
Os olhos de Dona Gracinha ficaram marejados.
— Obrigada, meu filho.
Ele sorriu.
— Que isso...
Depois segurou delicadamente o rosto de Jéssica.
Deu um beijo rápido nos lábios dela.
Sorriu.
Então olhou para Ula.
— Melhoras, minha cunhada.
Ela sorriu fraquinho.
— Obrigada, Orelha.
Os dois saíram.
A porta se fechou.
Ficaram apenas as três.
O silêncio tomou conta do quarto por alguns segundos.
Até que Dona Gracinha segurou a mão da filha.
— Me desculpa, minha filhinha...
Ula apertou a mão da mãe.
— A senhora não tem culpa de nada, mãe.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Eu passei o dia inteiro fraca...
— Muita dor de cabeça...
— Muita dor na nuca...
— Achei que fosse só uma gripe forte.
— Tomei remédio.
— Fiquei deitada o dia todo.
— Não fui pro salão.
— Não fiz esforço nenhum.
Os olhos dela ficaram distantes, lembrando da noite.
— Quando foi de noite... começou uma febre muito alta.
— Meu corpo queimava.
— Tomei outro remédio e tentei dormir.
Ela respirou devagar.
— Como eu não conseguia falar com vocês duas...
— Resolvi esperar amanhecer.
Jéssica abaixou a cabeça.
Ula continuou.
— Só que, perto das duas da manhã... eu acordei pior.
— Meu corpo inteiro tremia.
— Eu tava muito fraca.
— A dor na nuca aumentou demais.
— Levantei bem devagar pra tomar um banho...
A voz falhou.
— Mas eu caí.
Os olhos se encheram de lágrimas.
— Bati a testa no vaso.
Ela levou a mão até o curativo.
— Foi horrível levantar dali.
— Eu achei que não ia conseguir.
Dona Gracinha chorava em silêncio.
Jéssica também.
— Eu consegui levantar...
— Me troquei...
— Deitei de novo...
— Mas eu já não conseguia respirar direito.
— Tremia demais.
— Minha cabeça parecia que ia explodir.
Ela respirou fundo.
— Foi aí que eu liguei pra ele.
Dona Gracinha sorriu emocionada.
— Ele te ama, minha filha.
Jéssica sorriu também.
— Ama mesmo.
Ula abaixou os olhos.
Um sorriso tímido apareceu.
— Eu também amo ele.
As duas olharam para ela.
Dona Gracinha apertou a mão da filha.
— Então deixa esse medo de lado...
— E aceita esse rapaz.
Ula respirou profundamente.
— Eu preciso dar tempo ao tempo, mãe.
— Eu ainda não me sinto preparada.
— Mas...
Ela sorriu discretamente.
— Saber que ele me ama...
— Saber que ele saiu da cama de madrugada por minha causa...
— Que me carregou no colo...
— Que ficou comigo o tempo todo...
— Isso me deixa feliz.
Ela olhou para as duas.
— Porque significa que eu sou importante pra ele.
— Que ele tá me escolhendo.
— E isso... por enquanto... já basta.
Dona Gracinha sorriu com os olhos completamente marejados.
Sentou-se na beira da cama e voltou a fazer carinho nos cabelos da filha.
— Sabe o que eu mais vi nos olhos dele hoje?
Ula olhou para a mãe.
— O quê?
— Medo.
Ela franziu a testa.
— Medo?
— Muito.
Jéssica completou baixinho:
— Quando a gente chegou aqui...
— Ele tava sentado exatamente onde tava agora.
— Segurando tua mão.
— Nem percebeu que a gente entrou.
— Ele só olhava pra você.
Dona Gracinha respirou fundo.
— Quando você abriu os olhos...
— Eu vi o alívio naquele rapaz.
Ula ficou em silêncio.
A lembrança da madrugada voltou inteira.
Ela lembrava do abraço dele.
Da voz calma dizendo que estava ali.
De ser carregada no colo.
Das mãos segurando as dela dentro do carro.
Do rosto dele completamente desesperado enquanto ela tremia.
E, principalmente, da frase que ele repetia o tempo todo:
— Eu tô aqui com você.
Sem perceber, uma lágrima escorreu.
— Eu nunca imaginei que alguém fosse cuidar de mim desse jeito...
Jéssica apertou a mão da irmã.
— Porque a vida inteira foi você quem cuidou de todo mundo.
— Da mamãe.
— De mim.
— Das clientes.
— Do salão.
— Você nunca deixou ninguém sozinho.
Ela sorriu emocionada.
— Dessa vez...
— Foi você quem precisou de alguém.
Ula enxugou as lágrimas.
— Foi...
Dona Gracinha falou baixinho:
— E Deus colocou a pessoa certa do teu lado.
Ula respirou fundo.
— Eu ainda tenho medo, mãe.
— Muito.
Ela fez uma pequena pausa.
— Mas...
— Quando eu acordei hoje...
— E vi ele aqui...
Ela sorriu.
Um sorriso verdadeiro.
— Pela primeira vez...
— Eu senti uma paz diferente.
Jéssica sorriu.
— Porque, no fundo...
— Você sabe que ele não vai embora.
Ula olhou para a irmã.
Depois sorriu.
— Acho que sei.
Nesse instante, bateram de leve na porta.
Era o médico.
Entrou com o prontuário nas mãos e sorriu ao vê-la acordada.
— Que bom ver você desperta.
Ela sorriu.
— Bom dia, doutor.
Ele fez algumas perguntas.
Examinou a testa.
Conferiu o curativo.
Mediu a pressão.
Olhou a temperatura.
Verificou o soro.
Depois fechou o prontuário.
Sorriu.
— A febre já diminuiu bastante.
As três prestaram atenção.
— Os exames não mostraram nada grave.
Dona Gracinha apertou a mão da filha.
O médico continuou.
— A pancada na testa provocou apenas um hematoma.
— Não há sinais de lesão mais séria.
As três respiraram aliviadas ao mesmo tempo.
Ele prosseguiu.
— O quadro foi causado por uma infecção associada a uma desidratação importante.
— Isso explica a fraqueza intensa...
— A febre...
— A dor de cabeça...
— A dor na nuca...
— E a queda de pressão que provocou a queda no banheiro.
Dona Gracinha perguntou aflita:
— Então ela vai ficar bem?
O médico sorriu.
— Vai, sim.
— Ela vai precisar descansar bastante.
— Beber muito líquido.
— Seguir a medicação corretamente.
— E nada de esforço pelos próximos dias.
Depois olhou para Ula.
— Se continuar evoluindo assim...
— Amanhã provavelmente você já poderá ir para casa.
Ela sorriu aliviada.
— Obrigada, doutor.
Ele retribuiu o sorriso.
— Agora nada de querer abrir salão antes da hora.
Jéssica começou a rir.
— Escutou, irmã?
— Porque eu conheço essa aí.
— Amanhã mesmo ela já vai querer atender cliente.
O médico também riu.
— Então vocês duas tratem de vigiar essa moça.
— Paciente teimosa costuma dar bastante trabalho.
As três acabaram rindo juntas.
Pela primeira vez desde a madrugada...
Aquele quarto deixou de ser tomado apenas pelo medo.
A esperança finalmente começava a ocupar aquele espaço.