28

1060 Words
O carro seguia pelas ruas ainda vazias daquela manhã. Ninguém dizia uma palavra. Dona Gracinha apertava um terço entre os dedos, rezando baixinho. Jéssica olhava pela janela, enxugando as lágrimas que insistiam em cair. Orelha dirigia em silêncio. Depois de alguns minutos, resolveu falar. — Ela chamou o Dogão por volta das duas da manhã. As duas olharam para ele. — Quando ele atendeu... a voz dela tava muito fraquinha. — Ela só conseguiu falar: "Preciso de você... vem pra cá." Jéssica levou a mão à boca. Os olhos encheram de lágrimas outra vez. Orelha continuou. — O chefe nem pensou. — Pegou a moto e desceu. — Quando chegou lá... ela tava com muita febre, tremendo, muito fraca... e já tinha batido a cabeça depois de cair no banheiro. Dona Gracinha fechou os olhos. — Meu Deus... — Minha filha passou por isso tudo sozinha... A voz dela embargou. — Ela tentou ligar pra senhora antes. — E pra Jéssica também. — Depois falou isso pra ele. Jéssica começou a chorar. — Se meu celular não tivesse quebrado... — Ela não teria ficado sozinha... Orelha balançou a cabeça. — Não faz isso com você. — Não foi culpa de ninguém. — Ela achou que ia melhorar. — Só ligou quando realmente não aguentava mais. Ele respirou fundo. — E eu nunca vi o Dogão daquele jeito. As duas prestaram atenção. — Eu conheço aquele cara há muitos anos. — Já vi confronto. — Guerra. — Operação. — Já vi ele tomar tiro de raspão e nem reclamar. — Mas ontem... Orelha deu um pequeno sorriso triste. — Quando ouviu a voz da Ula... — Parecia que arrancaram o chão dele. Dona Gracinha olhou para baixo. — Ele gosta mesmo da minha filha... Orelha respondeu sem pensar. — Gosta é pouco. — Eu acho que ele ama. — Só nunca teve coragem de falar. Jéssica sorriu entre as lágrimas. — Minha irmã também ama ele. — Só morre de medo desse mundo. Orelha assentiu. — O chefe me contou. — Ela falou isso pra ele ontem, antes da festa acabar. — Disse que o medo dela nunca foi dele. — Era o perigo da vida que ele leva. Dona Gracinha respirou fundo. — Eu conheço minha filha. — Quando ela ama... — Ama de verdade. — Mas ela pensa em todo mundo antes de pensar nela. O carro entrou no estacionamento do hospital. Orelha desligou o motor. Virou para as duas. — Ela ainda tá dormindo. — Vamos entrar com calma. — Não quero que ela acorde assustada. As duas assentiram. Desceram do carro quase ao mesmo tempo. Dona Gracinha segurou a mão de Jéssica. As duas caminharam apressadas pelos corredores do hospital. Quando chegaram à porta do quarto, Orelha abriu devagar. Lá dentro... Dogão continuava exatamente onde estava. Sentado na cadeira ao lado da cama. Ainda segurando a mão de Ula. Ele levantou os olhos quando ouviu a porta abrir. Ao ver Dona Gracinha e Jéssica, levantou-se imediatamente. A expressão dele era de cansaço. Os olhos vermelhos mostravam que ele não tinha dormido um minuto sequer. Sem dizer nada, apenas deu um passo para o lado. Dona Gracinha caminhou até a cama com as pernas trêmulas. Assim que viu a filha deitada, ligada ao soro, com um curativo na testa onde havia batido, as lágrimas desceram sem que ela conseguisse controlar. — Ai, minha filha... Ela acariciou os cabelos loiros de Ula com todo cuidado do mundo. — Que susto você deu na gente... Jéssica também se aproximou. Segurou a outra mão da irmã. Os olhos estavam completamente vermelhos de tanto chorar. — Me perdoa, irmã... — Me perdoa... — Se meu celular não tivesse quebrado... — Eu tinha ido correndo pra tua casa. Dona Gracinha também começou a se culpar. — O meu carregador... — Eu devia ter comprado outro... Dogão deu um passo à frente. Falou com a voz calma. — Não se culpem. As duas olharam para ele. — Ela mesma me contou que achou que ia melhorar. — Ela tomou remédio... — Tentou descansar... — Só me ligou quando realmente não aguentava mais. Jéssica abaixou a cabeça. As lágrimas caíam sem parar. Dogão continuou. — Vocês não têm culpa de nada. — O importante é que ela tá sendo cuidada. Nesse momento, Ula fez um pequeno movimento. Os dedos mexeram devagar. As pálpebras tremeram. Dona Gracinha segurou a mão dela. — Filha... Ula abriu os olhos lentamente. Demorou alguns segundos para enxergar direito. A primeira coisa que viu foi a mãe. Depois Jéssica. As duas chorando. Ela tentou sorrir fraquinho. — Mãe... A voz saiu rouca. Dona Gracinha beijou a testa dela com cuidado, desviando do curativo. — Não fala nada agora. — Só descansa. Jéssica sorriu entre as lágrimas. — Tu quase matou a gente do coração, marrenta. Ula respirou devagar. — Desculpa... Jéssica fez cara de brava. — Para de pedir desculpa. — Tu não fez nada de errado. Ula virou um pouco o rosto. Procurando alguém. Os olhos encontraram Dogão parado um pouco mais atrás. Ele sorriu de leve. — Bom dia. Ela sorriu fraquinho também. — Você... — Ainda tá aqui... Ele deu um passo à frente. — Falei que não ia sair. Ela olhou para ele por alguns segundos. Depois falou baixinho. — Obrigada... Dogão balançou a cabeça. — Não agradece. — Eu faria tudo de novo. O quarto ficou em silêncio. Até que Dona Gracinha olhou para Dogão. Os olhos dela também estavam marejados. Ela caminhou até ele. Segurou as duas mãos dele. — Meu filho... — Eu não tenho palavras pra agradecer. — Se você não tivesse atendido aquele telefone... A voz falhou. Ela respirou fundo. — Eu nem quero imaginar. Dogão apertou de leve as mãos dela. — Não agradece, dona Gracinha. — Eu só fiz o que qualquer pessoa faria. Ela sorriu emocionada. — Não... — Você fez muito mais. — Você salvou a minha filha. Dogão abaixou a cabeça, visivelmente sem jeito. Orelha, encostado na porta, apenas observava a cena em silêncio. No fundo, ele tinha certeza de uma coisa. Naquele quarto de hospital, já não existia mais apenas um chefe do morro e uma cabeleireira. Existia uma família que, aos poucos, estava sendo construída pelo carinho, pela confiança e pela certeza de que, quando um precisava do outro, ninguém media esforços para estar presente.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD