Depois que os primeiros medicamentos começaram a fazer efeito, Ula finalmente adormeceu.
A febre ainda era alta, mas a respiração já estava um pouco mais tranquila.
O soro pingava lentamente.
Dogão permanecia sentado ao lado da maca.
Sem soltar a mão dela.
Os olhos dele não saíam do rosto dela nem por um segundo.
A porta do quarto abriu devagar.
Orelha entrou.
Olhou para Ula dormindo.
Depois caminhou até o amigo.
Falou baixo, para não acordá-la.
— Chefe...
— Calma.
— Ela vai ficar bem.
Dogão respirou fundo, passando a mão no rosto.
Pela primeira vez em muito tempo, ele parecia completamente abatido.
— Tu falou com a Jéssica hoje?
Orelha assentiu.
— Falei.
— O celular dela quebrou de vez.
— Amanhã cedo vou comprar outro pra ela.
— O da dona Gracinha também tá dando problema.
— Parece que o carregador queimou.
— Vou mandar consertar.
— Se não tiver jeito, compro outro também.
Dogão apenas fez que sim com a cabeça.
Ficou alguns segundos em silêncio.
Depois olhou novamente para Ula.
A voz saiu baixa.
Pesada.
— Então foi por isso...
Orelha franziu a testa.
— O quê?
— A Ula tentou falar com elas...
— Não conseguiu.
— Preferiu ficar sozinha.
Ele abaixou a cabeça.
Apertou de leve a mão dela.
— Ela passou o dia inteiro passando mal...
— Sozinha...
A mandíbula dele travou.
— E eu...
— Eu nem imaginava.
Orelha colocou a mão no ombro dele.
— Tu não tinha como saber, chefe.
Dogão respirou fundo.
Os olhos começaram a ficar marejados, mas ele segurou.
— Eu acordei...
— Com a voz dela naquela ligação...
Ele engoliu seco.
— Cara...
— Nunca ouvi a Ula daquele jeito.
A voz falhou por um instante.
— Tava tão fraquinha...
— Tremendo...
Ele fechou os olhos.
— Caralho...
— Foi como se alguém tivesse dado uma porrada no meu peito.
Orelha permaneceu em silêncio.
Sabia que qualquer palavra naquele momento era pequena perto do que o amigo estava sentindo.
Depois falou calmamente.
— Ela vai melhorar.
— Tu chegou a tempo.
— Se ela ligou pra alguém...
— Foi pra pessoa em quem ela mais confiava naquele momento.
Dogão olhou para Ula dormindo.
Passou delicadamente uma mecha do cabelo loiro para trás da orelha dela.
— Ela podia ter ligado pra qualquer pessoa...
— Mas ligou pra mim...
Ele soltou um suspiro longo.
— E eu quase enlouqueci quando ouvi aquela voz.
Orelha sorriu de leve.
— Isso tem um nome, chefe.
Dogão nem respondeu.
Continuou apenas olhando para ela.
Segurando sua mão.
Como se, enquanto fizesse isso, pudesse impedir qualquer coisa r**m de acontecer.
E, pela primeira vez desde que chegou ao hospital, ele fez uma oração em silêncio.
Não pediu dinheiro.
Não pediu poder.
Nem proteção para o morro.
Só pediu que ela acordasse bem.
Porque naquele momento ele percebeu que perder Ula era a única coisa que realmente o apavorava.
O quarto voltou a ficar em silêncio.
O único som era o monitor cardíaco marcando os batimentos de Ula e o soro pingando lentamente.
Dogão continuava sentado ao lado da cama, sem soltar a mão dela.
Orelha observou a cena por alguns segundos.
Nunca tinha visto o amigo daquele jeito.
Respirou fundo e quebrou o silêncio.
— Chefe...
Dogão levantou o olhar.
— Assim que amanhecer...
— Eu vou direto na casa da Jéssica.
— Aviso ela e a dona Gracinha que a Ula tá aqui.
— Trago as duas pra cá.
Dogão assentiu devagar.
— Faz isso.
— Elas vão ficar desesperadas quando souberem.
Orelha concordou.
— Mas é melhor elas saberem por mim do que receber uma ligação do hospital sem entender nada.
Dogão passou a mão de leve sobre os cabelos de Ula.
Ela continuava dormindo profundamente.
— É...
— Ela tentou falar com elas antes de me ligar.
— Elas vão se culpar.
Orelha balançou a cabeça.
— Eu converso com elas.
— Explico direitinho que os celulares deram problema.
— Que ninguém teve culpa.
Dogão fez que sim.
— Obrigado, irmão.
Orelha sorriu de canto.
— Precisa agradecer, não.
— Ela é importante pra você.
— Então também passa a ser importante pra mim.
Dogão ficou alguns segundos em silêncio.
Depois olhou novamente para Ula.
— Cuida delas quando sair daqui.
— Não deixa elas virem sozinhas.
Orelha respondeu na hora.
— Pode deixar.
— Vou buscar as duas.
— E trago em segurança.
Dogão voltou a olhar para Ula.
Apertou de leve a mão dela entre as suas.
Falou tão baixo que parecia mais um pedido do que uma frase.
— Aguenta firme, marrentinha...
— Tua mãe e tua irmã já vão estar aqui com você.
A madrugada foi passando devagar.
Dogão não saiu da cadeira nem por um minuto.
Sempre que a enfermeira entrava para conferir os sinais vitais, ela encontrava a mesma cena.
Ele sentado ao lado da cama.
Segurando a mão de Ula.
Os olhos fixos nela.
Já passava das cinco e meia da manhã quando a porta abriu novamente.
Era o médico.
Entrou com uma prancheta nas mãos.
Dogão levantou na hora.
— Doutor?
O médico fez um gesto tranquilo.
— Calma.
— Ela está estável.
Dogão soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo.
— A febre começou a responder aos medicamentos.
— Os exames de sangue ainda estão sendo processados.
— A tomografia não mostrou sinais de sangramento por causa da queda, o que é uma boa notícia.
Dogão passou a mão na nuca.
— Graças a Deus...
— Mas...
— Ela continua com uma infecção importante.
— Precisamos descobrir exatamente a causa.
— Ela vai permanecer internada em observação.
Dogão assentiu.
— O tempo que for necessário.
O médico deu um leve sorriso.
— Dá para perceber que ela está muito bem acompanhada.
Assim que o médico saiu, Orelha olhou o relógio.
— Já tá clareando.
Dogão virou para ele.
— Vai lá.
Orelha assentiu.
— Vou buscar as duas.
Ele saiu do quarto.
...
Enquanto isso...
Na casa de Dona Gracinha.
A mulher já estava de pé.
Preparava o café quando ouviu alguém bater no portão.
Jéssica saiu do quarto ainda sonolenta.
— Mãe...
— Tem alguém aí fora.
Dona Gracinha abriu a porta.
Assim que viu Orelha parado do outro lado, estranhou.
— Meu filho...
— Aconteceu alguma coisa?
Orelha tentou manter a calma.
Mas a expressão séria entregava tudo.
Jéssica apareceu logo atrás.
Ao ver o rosto dele, o coração acelerou.
— Orelha...
— O que houve?
Ele respirou fundo.
— Calma.
— Antes de qualquer coisa...
— A Ula tá viva.
As duas prenderam a respiração.
Dona Gracinha levou a mão ao peito.
— Meu Deus...
— O que aconteceu com a minha filha?
Jéssica já estava com os olhos cheios de lágrimas.
— Ela tá bem?
Orelha falou com calma.
— Ontem ela passou muito m*l.
— Tentou ligar pra vocês.
— Como não conseguiu...
— Ligou pro Dogão de madrugada.
— Ele levou ela pro hospital imediatamente.
Jéssica começou a chorar.
— Meu Deus...
— Meu celular...
— Se ele não tivesse quebrado...
Dona Gracinha também chorava.
— O meu carregador também estragou...
— Minha filha ficou sozinha...
Orelha se aproximou das duas.
— Ei...
— Ninguém tem culpa.
— Ela tá sendo cuidada.
— O chefe não saiu um segundo do lado dela.
— Passou a madrugada inteira segurando a mão dela.
Jéssica enxugou as lágrimas.
— Ela tá consciente?
— Dormindo agora.
— Os médicos medicaram ela.
Dona Gracinha já pegava a bolsa.
— Vamos.
— Eu quero ver minha filha.
Orelha fez que sim.
— O carro tá lá fora.
— Eu trouxe vocês em segurança.
As duas nem terminaram o café.
Saíram praticamente correndo.
Enquanto entravam no carro, Jéssica olhava pela janela em silêncio.
E fazia apenas uma oração:
— "Deus... deixa a minha irmã ficar bem..."