27

1308 Words
Depois que os primeiros medicamentos começaram a fazer efeito, Ula finalmente adormeceu. A febre ainda era alta, mas a respiração já estava um pouco mais tranquila. O soro pingava lentamente. Dogão permanecia sentado ao lado da maca. Sem soltar a mão dela. Os olhos dele não saíam do rosto dela nem por um segundo. A porta do quarto abriu devagar. Orelha entrou. Olhou para Ula dormindo. Depois caminhou até o amigo. Falou baixo, para não acordá-la. — Chefe... — Calma. — Ela vai ficar bem. Dogão respirou fundo, passando a mão no rosto. Pela primeira vez em muito tempo, ele parecia completamente abatido. — Tu falou com a Jéssica hoje? Orelha assentiu. — Falei. — O celular dela quebrou de vez. — Amanhã cedo vou comprar outro pra ela. — O da dona Gracinha também tá dando problema. — Parece que o carregador queimou. — Vou mandar consertar. — Se não tiver jeito, compro outro também. Dogão apenas fez que sim com a cabeça. Ficou alguns segundos em silêncio. Depois olhou novamente para Ula. A voz saiu baixa. Pesada. — Então foi por isso... Orelha franziu a testa. — O quê? — A Ula tentou falar com elas... — Não conseguiu. — Preferiu ficar sozinha. Ele abaixou a cabeça. Apertou de leve a mão dela. — Ela passou o dia inteiro passando mal... — Sozinha... A mandíbula dele travou. — E eu... — Eu nem imaginava. Orelha colocou a mão no ombro dele. — Tu não tinha como saber, chefe. Dogão respirou fundo. Os olhos começaram a ficar marejados, mas ele segurou. — Eu acordei... — Com a voz dela naquela ligação... Ele engoliu seco. — Cara... — Nunca ouvi a Ula daquele jeito. A voz falhou por um instante. — Tava tão fraquinha... — Tremendo... Ele fechou os olhos. — Caralho... — Foi como se alguém tivesse dado uma porrada no meu peito. Orelha permaneceu em silêncio. Sabia que qualquer palavra naquele momento era pequena perto do que o amigo estava sentindo. Depois falou calmamente. — Ela vai melhorar. — Tu chegou a tempo. — Se ela ligou pra alguém... — Foi pra pessoa em quem ela mais confiava naquele momento. Dogão olhou para Ula dormindo. Passou delicadamente uma mecha do cabelo loiro para trás da orelha dela. — Ela podia ter ligado pra qualquer pessoa... — Mas ligou pra mim... Ele soltou um suspiro longo. — E eu quase enlouqueci quando ouvi aquela voz. Orelha sorriu de leve. — Isso tem um nome, chefe. Dogão nem respondeu. Continuou apenas olhando para ela. Segurando sua mão. Como se, enquanto fizesse isso, pudesse impedir qualquer coisa r**m de acontecer. E, pela primeira vez desde que chegou ao hospital, ele fez uma oração em silêncio. Não pediu dinheiro. Não pediu poder. Nem proteção para o morro. Só pediu que ela acordasse bem. Porque naquele momento ele percebeu que perder Ula era a única coisa que realmente o apavorava. O quarto voltou a ficar em silêncio. O único som era o monitor cardíaco marcando os batimentos de Ula e o soro pingando lentamente. Dogão continuava sentado ao lado da cama, sem soltar a mão dela. Orelha observou a cena por alguns segundos. Nunca tinha visto o amigo daquele jeito. Respirou fundo e quebrou o silêncio. — Chefe... Dogão levantou o olhar. — Assim que amanhecer... — Eu vou direto na casa da Jéssica. — Aviso ela e a dona Gracinha que a Ula tá aqui. — Trago as duas pra cá. Dogão assentiu devagar. — Faz isso. — Elas vão ficar desesperadas quando souberem. Orelha concordou. — Mas é melhor elas saberem por mim do que receber uma ligação do hospital sem entender nada. Dogão passou a mão de leve sobre os cabelos de Ula. Ela continuava dormindo profundamente. — É... — Ela tentou falar com elas antes de me ligar. — Elas vão se culpar. Orelha balançou a cabeça. — Eu converso com elas. — Explico direitinho que os celulares deram problema. — Que ninguém teve culpa. Dogão fez que sim. — Obrigado, irmão. Orelha sorriu de canto. — Precisa agradecer, não. — Ela é importante pra você. — Então também passa a ser importante pra mim. Dogão ficou alguns segundos em silêncio. Depois olhou novamente para Ula. — Cuida delas quando sair daqui. — Não deixa elas virem sozinhas. Orelha respondeu na hora. — Pode deixar. — Vou buscar as duas. — E trago em segurança. Dogão voltou a olhar para Ula. Apertou de leve a mão dela entre as suas. Falou tão baixo que parecia mais um pedido do que uma frase. — Aguenta firme, marrentinha... — Tua mãe e tua irmã já vão estar aqui com você. A madrugada foi passando devagar. Dogão não saiu da cadeira nem por um minuto. Sempre que a enfermeira entrava para conferir os sinais vitais, ela encontrava a mesma cena. Ele sentado ao lado da cama. Segurando a mão de Ula. Os olhos fixos nela. Já passava das cinco e meia da manhã quando a porta abriu novamente. Era o médico. Entrou com uma prancheta nas mãos. Dogão levantou na hora. — Doutor? O médico fez um gesto tranquilo. — Calma. — Ela está estável. Dogão soltou o ar que nem percebeu que estava prendendo. — A febre começou a responder aos medicamentos. — Os exames de sangue ainda estão sendo processados. — A tomografia não mostrou sinais de sangramento por causa da queda, o que é uma boa notícia. Dogão passou a mão na nuca. — Graças a Deus... — Mas... — Ela continua com uma infecção importante. — Precisamos descobrir exatamente a causa. — Ela vai permanecer internada em observação. Dogão assentiu. — O tempo que for necessário. O médico deu um leve sorriso. — Dá para perceber que ela está muito bem acompanhada. Assim que o médico saiu, Orelha olhou o relógio. — Já tá clareando. Dogão virou para ele. — Vai lá. Orelha assentiu. — Vou buscar as duas. Ele saiu do quarto. ... Enquanto isso... Na casa de Dona Gracinha. A mulher já estava de pé. Preparava o café quando ouviu alguém bater no portão. Jéssica saiu do quarto ainda sonolenta. — Mãe... — Tem alguém aí fora. Dona Gracinha abriu a porta. Assim que viu Orelha parado do outro lado, estranhou. — Meu filho... — Aconteceu alguma coisa? Orelha tentou manter a calma. Mas a expressão séria entregava tudo. Jéssica apareceu logo atrás. Ao ver o rosto dele, o coração acelerou. — Orelha... — O que houve? Ele respirou fundo. — Calma. — Antes de qualquer coisa... — A Ula tá viva. As duas prenderam a respiração. Dona Gracinha levou a mão ao peito. — Meu Deus... — O que aconteceu com a minha filha? Jéssica já estava com os olhos cheios de lágrimas. — Ela tá bem? Orelha falou com calma. — Ontem ela passou muito m*l. — Tentou ligar pra vocês. — Como não conseguiu... — Ligou pro Dogão de madrugada. — Ele levou ela pro hospital imediatamente. Jéssica começou a chorar. — Meu Deus... — Meu celular... — Se ele não tivesse quebrado... Dona Gracinha também chorava. — O meu carregador também estragou... — Minha filha ficou sozinha... Orelha se aproximou das duas. — Ei... — Ninguém tem culpa. — Ela tá sendo cuidada. — O chefe não saiu um segundo do lado dela. — Passou a madrugada inteira segurando a mão dela. Jéssica enxugou as lágrimas. — Ela tá consciente? — Dormindo agora. — Os médicos medicaram ela. Dona Gracinha já pegava a bolsa. — Vamos. — Eu quero ver minha filha. Orelha fez que sim. — O carro tá lá fora. — Eu trouxe vocês em segurança. As duas nem terminaram o café. Saíram praticamente correndo. Enquanto entravam no carro, Jéssica olhava pela janela em silêncio. E fazia apenas uma oração: — "Deus... deixa a minha irmã ficar bem..."
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD