Ela já m*l conseguia manter os olhos abertos.
Dogão, ainda segurando ela com um braço, abriu a gaveta do criado-mudo com a outra mão.
Procurou rápido.
Encontrou a bolsa.
Abriu.
Pegou a identidade, cartão do plano de saúde, CPF e colocou tudo dentro da bolsa novamente.
Olhou em volta do quarto.
Pegou também o celular dela e o carregador.
— Pronto...
Nesse instante o celular dele vibrou.
Era Orelha.
— Chefe, o carro já tá na porta.
— Tô descendo.
Dogão desligou.
Sem perder um segundo, voltou a pegar Ula no colo.
Ela estava completamente mole.
Os braços fracos passaram ao redor do pescoço dele.
A mão segurava de leve a camisa dele, quase sem força.
A cabeça continuava encostada no peito dele.
Ela tremia.
A respiração era curta.
— Vai dar tudo certo, tá?
Ela apenas fez um movimento quase imperceptível com a cabeça.
Ele saiu da casa carregando ela.
Assim que colocou o pé na rua, os vapores abriram passagem imediatamente.
Ninguém falou uma palavra.
Todo mundo percebeu que a situação era séria.
Orelha abriu a porta traseira da SUV.
— Vambora, chefe.
Dogão entrou primeiro.
Sentou no banco de trás.
Sem soltar Ula um segundo sequer.
Acomodou ela no colo, mantendo a cabeça apoiada no próprio peito.
Passou um braço por trás das costas dela e o outro segurou sua mão.
Ela continuava tremendo.
Os olhos fechados.
A boca entreaberta.
Respirando com dificuldade.
Dogão passou a mão devagar no cabelo dela.
— Ei...
— Continua comigo.
Ela abriu os olhos só um pouquinho.
— Tô...
A voz saiu quase inaudível.
Ele beijou de leve o topo da cabeça dela.
— Isso...
— Não dorme agora.
— Conversa comigo.
Ela respirou fundo, tentando obedecer.
Na frente, Orelha ligou o carro.
— Bora!
A SUV arrancou.
Na mesma hora, quatro motos do movimento saíram na frente.
Outras quatro ficaram atrás.
Os vapores iam abrindo passagem pelas ruas.
— Abre espaço!
— Hospital! Hospital!
— Sai da frente!
As motos aceleravam, limpando o caminho.
Dentro do carro só se ouvia a respiração fraca de Ula.
Dogão mantinha uma das mãos na nuca dela e a outra segurando seus dedos.
Sentia o corpo dela queimando de febre.
Aquilo fez o coração dele apertar.
Ele olhou para Orelha.
— Acelera essa p***a!
— Ela tá queimando de febre!
— Tô acelerando, chefe!
A SUV cortava as ruas em alta velocidade.
Dogão olhou novamente para Ula.
Os cabelos loiros estavam grudando na testa por causa do suor.
Ele afastou algumas mechas com extremo cuidado.
— Ei...
— Olha pra mim.
Ela abriu os olhos com dificuldade.
— Tô... tentando...
A voz era um sussurro.
Ele apertou a mão dela.
— Só mais um pouquinho.
— A gente tá chegando.
Ela respirou devagar e voltou a encostar a cabeça no peito dele.
Mesmo completamente debilitada, ainda segurava a camisa dele como se aquilo fosse a única coisa que a mantinha segura.
E Dogão apenas a abraçou mais forte, desejando, pela primeira vez em muitos anos, que pudesse trocar toda a força que tinha pela dor que ela estava sentindo.
Chegaram ao hospital em poucos minutos.
Assim que a SUV parou na entrada da emergência, Dogão nem esperou alguém abrir a porta.
Saiu com Ula nos braços.
Ela continuava completamente mole, respirando com dificuldade, a testa ardendo e o g**o já bem visível.
Os seguranças e a equipe da recepção olharam na mesma hora.
— Ela precisa de atendimento agora! — Dogão falou firme. — Tá com febre alta, muita dor de cabeça, caiu e bateu a cabeça.
Dois enfermeiros vieram correndo com uma maca.
— Senhor, coloca ela aqui.
Dogão deitou Ula com o máximo de cuidado.
Ela segurou a mão dele imediatamente.
Mesmo fraca, não queria soltar.
— Dogão...
Ele segurou a mão dela de volta.
— Eu tô aqui.
— Não vou sair daqui.
Enquanto levavam a maca pelos corredores, ele caminhava ao lado dela.
Orelha vinha logo atrás com a bolsa e os documentos.
Uma enfermeira perguntou:
— O senhor é o quê dela?
Dogão olhou para Ula por um segundo.
Depois respondeu sem pensar:
— Sou a pessoa responsável por ela.
A enfermeira apenas assentiu.
— Precisamos fazer uma avaliação rápida. Ela teve perda de consciência?
Dogão respondeu:
— Não quando eu cheguei. Mas tava muito fraca, tremendo, febre alta e caiu no banheiro. Bateu a testa com força.
— Certo.
Levaram Ula para uma sala de emergência.
Os enfermeiros começaram a medir pressão, temperatura, saturação e instalar um acesso na veia para hidratação.
Ela fez uma careta quando a agulha entrou.
Dogão deu um passo para frente.
— Calma...
Ela apertou a mão dele de novo.
A enfermeira sorriu discretamente.
— Ela pode continuar segurando sua mão. Parece que isso acalma ela.
Ele não respondeu.
Só permaneceu ali.
Minutos depois, um médico entrou.
Olhou rapidamente os exames iniciais.
Depois examinou a testa dela.
— Ela está com febre de quase quarenta graus.
Olhou para Dogão.
— Pela intensidade da dor de cabeça, dor na nuca e a febre alta, além da queda, precisamos investigar com urgência. Vamos fazer exames de sangue e uma tomografia para descartar lesões na cabeça e outras causas da febre.
Dogão assentiu.
— Faz tudo que precisar.
— Só cuida dela.
O médico respondeu:
— É isso que vamos fazer.
Ula abriu os olhos devagar.
Procurou Dogão.
Ele já estava ao lado dela.
Ela falou quase sem voz:
— Desculpa... dar esse trabalho...
Dogão passou a mão no rosto dela com carinho.
— Você ainda tá pedindo desculpa?
Ela fechou os olhos outra vez.
Ele abaixou a cabeça até perto dela.
— Escuta bem.
— Enquanto eu respirar...
— Você nunca vai enfrentar uma situação dessas sozinha.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
Mesmo sem forças para responder.
Na porta da sala, Orelha observava em silêncio.
Nunca tinha visto Dogão daquele jeito.
O homem que enfrentava guerra, operação e confronto sem demonstrar medo estava ali, completamente aflito, apenas esperando que a mulher que amava abrisse os olhos e dissesse que ia ficar bem.