Era madrugada O telefone vibrou alto demais no silêncio do quarto.
Dogão já estava meio apagado, jogado na cama, sem camisa, o braço cobrindo o rosto. A cidade lá fora tinha acalmado, o morro também.
Até o celular tocar.
Uma vez.
Duas.
Na terceira ele abriu o olho na hora, como se o corpo já soubesse que não era normal.
Pegou o aparelho.
— Fala.
Do outro lado veio uma voz quebrada.
Baixa.
Fraca demais.
— Do… Dogão…
Ele sentou na cama na hora.
O tom dele mudou completamente.
— O que houve?
Silêncio curto.
Respiração falhando.
— Pre… preciso de você… vem pra cá…
A voz dela vinha fraca, arrastada, como se cada palavra doesse.
Dogão já tava em pé antes dela terminar a frase.
— Onde você tá?
— Ula, fala comigo.
Mais silêncio.
Um som de tentativa de respirar.
— Em casa…
Ele já tava vestindo a primeira roupa que achou.
Calça.
Sem pensar.
Sem esperar.
— Fica na linha.
— Não desliga.
— Eu tô indo agora.
Ele saiu do quarto já gritando pelo corredor.
— Orelha!
Nada de resposta.
— ORELHA!
Um dos vapores apareceu assustado.
— Chefe?
— PEGA A MOTO. AGORA.
Em minutos, o barulho tomou o morro inteiro.
Moto sendo ligada, chave girando, passo acelerado.
Dogão já tava descendo a rua como se o mundo tivesse ficado pequeno demais.
Na cabeça dele, só uma coisa:
“ela não pode estar sozinha assim.”
Enquanto isso, no quarto dela, Ula estava deitada de lado, o corpo tremendo leve.
A testa ardendo do impacto no banheiro.
O g**o já inchando.
A dor na nuca puxando tudo.
A luz do celular iluminava o rosto pálido.
Ela tentou respirar fundo, mas o peito não obedecia direito.
Fechou os olhos.
— Só… vem… — ela murmurou, quase sem voz.
Do outro lado da porta, o silêncio da casa parecia maior ainda.
Até que…
um barulho.
Moto.
Cada vez mais perto.
E então:
freio.
porta de casa.
passos rápidos.
fortes.
Dogão não esperou ninguém.
Empurrou a porta já entrando.
— ULA!
O grito ecoou dentro da casa.
E quando ele entrou no quarto e viu ela daquele jeito — fraca, tremendo, com a mão na testa e o rosto sem cor — o mundo dele travou por meio segundo.
Mas só meio.
Porque no segundo seguinte ele já estava ali.
Se ajoelhando na frente dela.
Segurando o rosto dela com cuidado, como se quebrasse fácil.
— Ei… ei…
— O que fizeram com você?
Ela tentou falar, mas a voz não saía direito.
Ele passou a mão devagar no cabelo dela, olhando a testa machucada.
A expressão dele fechou.
Pesada.
Perigosa.
Mas a voz continuou baixa.
Controlada.
— Você me liga assim… desse jeito…
— E acha que eu vou demorar?
Ela tentou sorrir fraco, mas não conseguiu.
Ele levantou um pouco, pegando ela no colo com cuidado absoluto.
— Não fala nada.
— Eu tô aqui agora.
Ela encostou a cabeça no peito dele, tremendo.
E pela primeira vez a noite inteira, o corpo dela parou de lutar sozinho.
Porque ele tinha chegado.
E ali, naquele silêncio pesado dentro do quarto escuro, Dogão já não era mais o chefe do morro.
Era só o homem que tinha recebido uma ligação que mudou tudo em segundos.
Dogão segurava ela com cuidado, mas a expressão no rosto dele não era mais só preocupação.
Era alerta.
Real.
Ele olhou pra ela de cima, ainda com ela nos braços.
— O que aconteceu?
Ula respirou com dificuldade, a voz saindo fraca, quebrada.
— Eu… eu tô o dia todo… fraquejando…
— Muita dor de cabeça…
Ela fechou os olhos por um segundo, encostando mais o rosto no peito dele.
— Tomei remédio… mas não passava…
— Tentei ligar pra minha mãe… pra minha irmã… mas não consegui falar…
A respiração dela falhava entre as palavras.
— Então eu tentei dormir…
Dogão apertou a mandíbula.
— Por que não me ligou?
Ela abriu os olhos devagar.
— Eu pensei que ia melhorar…
— Eu achei que era só… cansaço…
A voz dela falhou mais.
— Acordei agora…
— Fui tomar banho…
Ela engoliu seco.
— Caí no banheiro…
— Bati a testa no vaso…
Na hora ele olhou pra testa dela de novo, vendo o inchaço.
O maxilar dele travou.
Mas a voz dele continuou baixa.
Controlada.
— Tá.
— Tá.
Ele passou a mão devagar no cabelo dela.
— Não fala mais nada agora.
Ela tremia mais forte, o corpo fraco demais pra sustentar qualquer coisa.
Encostada nele, murmurou quase sem som:
— Des… desculpa… te acordar…
Dogão fechou os olhos por um segundo.
Aí respirou fundo.
E encostou a testa dele na dela com cuidado.
— Não fala isso, tá?
— Eu tô aqui com você.
Ele segurou ela firme, ajustando melhor o colo, como se fosse impossível deixá-la cair.
Com a outra mão, pegou o celular.
Ligou direto.
— Orelha.
Do lado de fora, a voz veio imediata.
— Fala, chefe.
— Manda descer um carro.
— Agora.
— Vou levar ela pro hospital.
Silêncio curto.
— Já tô indo.
Dogão desligou.
Olhou pra Ula de novo.
Ela ainda tremia, a cabeça encostada no peito dele, a boca entreaberta tentando respirar melhor.
Ele passou o polegar de leve na mão dela.
— Tá ouvindo?
Ela assentiu fraquinho.
— Isso aqui não vai demorar.
— Eu tô contigo.
Ela tentou abrir os olhos.
— Des… desculpa…
Ele interrompeu na hora, mais firme agora, mas ainda baixo:
— Para com isso.
— Não tem desculpa nenhuma.
Ele ajustou melhor o corpo dela nos braços, já se preparando pra sair.
— Você não vai sozinha pra lugar nenhum.
— Não hoje.
Lá fora, o som da moto já começava a aumentar.
O morro inteiro parecia em alerta sem ninguém precisar falar.
Mas dentro daquele quarto, tudo o que existia era ele segurando ela firme contra o peito — como se, se dependesse dele, nada no mundo encostaria nela até ela melhorar.