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999 Words
Era madrugada O telefone vibrou alto demais no silêncio do quarto. Dogão já estava meio apagado, jogado na cama, sem camisa, o braço cobrindo o rosto. A cidade lá fora tinha acalmado, o morro também. Até o celular tocar. Uma vez. Duas. Na terceira ele abriu o olho na hora, como se o corpo já soubesse que não era normal. Pegou o aparelho. — Fala. Do outro lado veio uma voz quebrada. Baixa. Fraca demais. — Do… Dogão… Ele sentou na cama na hora. O tom dele mudou completamente. — O que houve? Silêncio curto. Respiração falhando. — Pre… preciso de você… vem pra cá… A voz dela vinha fraca, arrastada, como se cada palavra doesse. Dogão já tava em pé antes dela terminar a frase. — Onde você tá? — Ula, fala comigo. Mais silêncio. Um som de tentativa de respirar. — Em casa… Ele já tava vestindo a primeira roupa que achou. Calça. Sem pensar. Sem esperar. — Fica na linha. — Não desliga. — Eu tô indo agora. Ele saiu do quarto já gritando pelo corredor. — Orelha! Nada de resposta. — ORELHA! Um dos vapores apareceu assustado. — Chefe? — PEGA A MOTO. AGORA. Em minutos, o barulho tomou o morro inteiro. Moto sendo ligada, chave girando, passo acelerado. Dogão já tava descendo a rua como se o mundo tivesse ficado pequeno demais. Na cabeça dele, só uma coisa: “ela não pode estar sozinha assim.” Enquanto isso, no quarto dela, Ula estava deitada de lado, o corpo tremendo leve. A testa ardendo do impacto no banheiro. O g**o já inchando. A dor na nuca puxando tudo. A luz do celular iluminava o rosto pálido. Ela tentou respirar fundo, mas o peito não obedecia direito. Fechou os olhos. — Só… vem… — ela murmurou, quase sem voz. Do outro lado da porta, o silêncio da casa parecia maior ainda. Até que… um barulho. Moto. Cada vez mais perto. E então: freio. porta de casa. passos rápidos. fortes. Dogão não esperou ninguém. Empurrou a porta já entrando. — ULA! O grito ecoou dentro da casa. E quando ele entrou no quarto e viu ela daquele jeito — fraca, tremendo, com a mão na testa e o rosto sem cor — o mundo dele travou por meio segundo. Mas só meio. Porque no segundo seguinte ele já estava ali. Se ajoelhando na frente dela. Segurando o rosto dela com cuidado, como se quebrasse fácil. — Ei… ei… — O que fizeram com você? Ela tentou falar, mas a voz não saía direito. Ele passou a mão devagar no cabelo dela, olhando a testa machucada. A expressão dele fechou. Pesada. Perigosa. Mas a voz continuou baixa. Controlada. — Você me liga assim… desse jeito… — E acha que eu vou demorar? Ela tentou sorrir fraco, mas não conseguiu. Ele levantou um pouco, pegando ela no colo com cuidado absoluto. — Não fala nada. — Eu tô aqui agora. Ela encostou a cabeça no peito dele, tremendo. E pela primeira vez a noite inteira, o corpo dela parou de lutar sozinho. Porque ele tinha chegado. E ali, naquele silêncio pesado dentro do quarto escuro, Dogão já não era mais o chefe do morro. Era só o homem que tinha recebido uma ligação que mudou tudo em segundos. Dogão segurava ela com cuidado, mas a expressão no rosto dele não era mais só preocupação. Era alerta. Real. Ele olhou pra ela de cima, ainda com ela nos braços. — O que aconteceu? Ula respirou com dificuldade, a voz saindo fraca, quebrada. — Eu… eu tô o dia todo… fraquejando… — Muita dor de cabeça… Ela fechou os olhos por um segundo, encostando mais o rosto no peito dele. — Tomei remédio… mas não passava… — Tentei ligar pra minha mãe… pra minha irmã… mas não consegui falar… A respiração dela falhava entre as palavras. — Então eu tentei dormir… Dogão apertou a mandíbula. — Por que não me ligou? Ela abriu os olhos devagar. — Eu pensei que ia melhorar… — Eu achei que era só… cansaço… A voz dela falhou mais. — Acordei agora… — Fui tomar banho… Ela engoliu seco. — Caí no banheiro… — Bati a testa no vaso… Na hora ele olhou pra testa dela de novo, vendo o inchaço. O maxilar dele travou. Mas a voz dele continuou baixa. Controlada. — Tá. — Tá. Ele passou a mão devagar no cabelo dela. — Não fala mais nada agora. Ela tremia mais forte, o corpo fraco demais pra sustentar qualquer coisa. Encostada nele, murmurou quase sem som: — Des… desculpa… te acordar… Dogão fechou os olhos por um segundo. Aí respirou fundo. E encostou a testa dele na dela com cuidado. — Não fala isso, tá? — Eu tô aqui com você. Ele segurou ela firme, ajustando melhor o colo, como se fosse impossível deixá-la cair. Com a outra mão, pegou o celular. Ligou direto. — Orelha. Do lado de fora, a voz veio imediata. — Fala, chefe. — Manda descer um carro. — Agora. — Vou levar ela pro hospital. Silêncio curto. — Já tô indo. Dogão desligou. Olhou pra Ula de novo. Ela ainda tremia, a cabeça encostada no peito dele, a boca entreaberta tentando respirar melhor. Ele passou o polegar de leve na mão dela. — Tá ouvindo? Ela assentiu fraquinho. — Isso aqui não vai demorar. — Eu tô contigo. Ela tentou abrir os olhos. — Des… desculpa… Ele interrompeu na hora, mais firme agora, mas ainda baixo: — Para com isso. — Não tem desculpa nenhuma. Ele ajustou melhor o corpo dela nos braços, já se preparando pra sair. — Você não vai sozinha pra lugar nenhum. — Não hoje. Lá fora, o som da moto já começava a aumentar. O morro inteiro parecia em alerta sem ninguém precisar falar. Mas dentro daquele quarto, tudo o que existia era ele segurando ela firme contra o peito — como se, se dependesse dele, nada no mundo encostaria nela até ela melhorar.
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