6- O chamado

1310 Words
Tudo na capela lhe trás paz , Grace reza ajoelhada sentindo o conforto dos cheiros e do silêncio. As madeiras lustradas com cera de abelha e seu cheiro característico, o odor das velas queimando e a penumbra lhe trazem conforto. Mais uma vez ela está ali em suas orações pedindo para sentir o chamado, desde que encontrou ali junto de sua tia o conforto espiritual após a morte de seus pais, Grace anseia por sentir o chamado para tomar o hábito. Mas agora as vésperas de terminar o colégio, nada ainda ... Ela jamais mentiria a madre superiora, mesmo sendo sua tia carnal. E nesse mesmo dia Irmã Dulce lhe disse para se candidatar a faculdade próxima do convento, Grace obviamente protestou. - Titi.... madre mas eu desejo tomar o hábito! - Você ainda não recebeu seu chamado, não tome o hábito de forma leviana, vá para a universidade curse algo do seu agrado, aqui continuará a ser sua casa. Mas até que receba o chamado, nada feito ! - E se eu nunca receber, ou se não perceber o chamado! - Se o receber filha, pode ter certeza que saberá! Se não for da vontade de Deus você precisa ter uma outra alternativa! Você não quer ser como as irmãs que vem com o coração turvo por estarem cansadas do mundo, quando vier e se vier, que seja de coração limpo e consciente da responsabilidade que é ser uma postulante e abraçar o sacerdócio! A tia lhe fala de maneira incisiva, as duas personalidades se fundindo, uma a madre superiora e a outra a tia que se preocupa com seu futuro. Tendo feito já o aspirantado, Grace anseia por ser logo uma das postulantes, mas sua tia e madre é inflexível em que vá para a faculdade. - Pense como você será mais útil tendo uma formação! A igreja precisa de gente capacitada! Ela fala jogando uma ideia que sabe pegará Grace, a moça sempre quis fazer a diferença, principalmente na área psicológica do ensino as noviças e a comunidade em si. Ela assente desanimada, somente o fato de Nina ir com ela para a faculdade parece animá-la. - Você e a senhorita Mambazo vão se divertir bastante, conhecer pessoas novas e quem sabe ... sua vida pode não ser aqui filha! Você tem só 18 anos, quatro anos passam rápido e se até lá você ainda quiser tomar o hábito.... ************************* - Eu não acredito! Nina grita empolgada quando Grace lhe fala que vai para a faculdade. Nina já se candidatou a várias, porém seu pai faz questão que seja uma das faculdades próximas do convento e que ela continue a morar lá até se formar. Uma grande soma foi repassada a instituição e a madre ficou mais do que satisfeita em cuidar da filha única do senhor Mambazo. - Calma nem sabemos se eu serei aceita em Colúmbia! - Deixe de idiotices Grace, eles seriam idiotas se não te aceitassem, e há ainda Fordham e Monroe! - Mas você vai para Colúmbia, eu queria conseguir ... - Você vai, pense positivo! ************************************* Naquela mesma semana após se candidatar Grace recebeu o comunicado em telegrama, todas as universidades para as quais ela se candidatou lhe ofereceram uma bolsa. E o melhor... todas na área que ela desejava cursar, psicologia! Uma vez que foi a escolha também de sua melhor amiga, o pai de Nina lhe pediu que fizesse teologia mas ela bateu o pé insistindo que psicologia seria interessante e afinal de contas teologia religiosa era uma das matérias opcionais do curso! Depois do que parecia uma guerra o senhor Mambazo concordou e Grace m*l pode esperar para contar para sua tia que recebeu somente respostas positivas. Ela e Nina estarão juntas em Colúmbia! ******************************* - Tenha cuidado querida, apanhe um taxi para voltar! Não quero você andando sozinha pela rua à noite! Recomenda irmã Dulce ao saber que a entrevista de Grace com o reitor será depois das 19 horas. - Eu vou ter algumas aulas a noite, a senhora precisa se acostumar! Ela fala tentando tranquilizar as preocupações da tia com o inevitável. - Mas quando as aulas começarem você terá a companhia de Nina, o pai dela recomendou que ela não poupe nada em sua segurança entre ir e vir para a faculdade! Sua tia lhe fala de forma teimosa, desde o acontecido com seus pais, o maior temor de Dulce era que quem fez aquela atrocidade voltasse para terminar o serviço ceifando a vida da sobrinha. Mas Grace sempre teve a certeza de que se a quisessem calar pelo crime, teriam feito no mesmo dia e não anos depois quando muito provavelmente os dois bandidos que assassinaram seus pais nem a reconheceriam. Por todos esse anos a polícia nunca conseguiu saber nada sobre quem fez aquilo, nenhuma digital foi encontrada na casa, embora Grace pudesse jurar que os malfeitores não estavam usando luvas! Nenhuma das câmeras da rua parecia estar funcionando no momento e somente a descrição de uma menina de onze anos não foi o suficiente para que os encontrassem. *********************** Grace aguarda sentada na imensa sala toda forrada de Carvalho, a secretária do reitor ocupada com seus afazeres não lhe dá a mínima atenção, enquanto ela aguarda ser chamada. Os minutos passam e já são quase 20hs quando a moça entediada pede que ela entre. - Boa noite senhorita..... Veneto. O senhor de aparência austera a cumprimenta sério, as palmas das mãos de Grace úmidas de nervoso. Ele lhe faz perguntas bem incisivas sobre sua motivação em cursar psicologia, Grace as responde de forma honesta e simples , enquanto o homem a sua frente avalia a moça de boas maneiras e um tanto quanto séria demais para uma mocinha de sua idade. Após ele perecer ter se dado por satisfeito com um sorriso e um gesto de mãos ele da por encerrada a entrevista. - Senhorita Veneto acredito que nossa universidade tem sorte de tê-la conosco, seja bem vinda a Colúmbia! Ele fala vendo a moça tímida sorrir de forma espontânea pela primeira vez desde que entrou em seu escritório, Tendo ele mesmo cursado psicologia, sempre era um prazer entrevistar os calouros principalmente os que resolveram engressar em sua competência acadêmica. As notas e o comportamento até antiquado da moça a sua frente, lhe deixando bem claro que não estariam perdendo nada em lhe ofertar uma bolsa. ******************** Grace sai apressada do prédio da reitoria, ao pisar na rua para sua sorte ela vê um taxi vazio e lhe faz sinal imediatamente. Agradecendo pelo milagre ela entra no carro, parando sua surpresa a motorista é uma bela moça. Ela puxa conversa com Grace e logo a simpatia da motorista a deixa a vontade, os menos de vinte minutos até o convento passam rápido. Ao descer ela se inclina para pagar, mas a motorista recusa o pagamento de forma rápida, seus olhos se fixam em Grace antes que ela se despeça com uma frase que faz Grace pensar que a mulher só pode ser louca. - De asas a sua curiosidade Grace, aproveite a hora para conhecer seu lar a noite ..... Ela fala antes de arrancar com o carro. Grace entra apressada ainda assustada, com encontrar logo em sua primeira noite fora de casa tão tarde, alguém que com certeza não bate bem da cachola. Ela passa rápido pelo escritório da madre avisando que chegou, logo correndo para seus aposentos dada a hora tão tardia. No caminho ela pensa na motorista, subitamente o corredor escuro que vai para a parte proibida do convento lhe parecendo convidativo, ela chega a se encaminhar, mas os anos de obediência lhe impedem... quando já está entrando em seu quarto um barulho vindo do porão a deixa em alerta... mas depois ela não escuta mais nada e é engolida pela curiosidade de Nina que a esperava acordada.
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