Capítulo II — O Ferreiro

3057 Words
            Gael parecia ter trovões de dor nas costas, um raio que pulsava a cada cinco minutos atravessando o núcleo de sua nuca até os ombros. Desde que ele tinha começado a trabalhar na ferraria da família sentia aquelas dores no corpo. Seu pai nunca tinha pegado leve com ele. Meses depois que a mãe de Gael já não estava presente, a relação pai e filho mudou mais do que esperado.             Suor escorria pela sua pele marrom escura, a bandana cobrindo seu rosto o suficiente para ele se sentir sufocado. Não costumava sair muito da loja do pai a não ser para buscar os materiais da ferraria, mas mesmo assim, o dia estava anormalmente calor para ele. O único lado bom da névoa permanentemente presente no reino era o frio que também acompanhava.             Já faziam décadas que o povo de Nyamie tinha visto raios de sol ou sequer a luz do luar. Nada atravessava a névoa densa e mágica.             A carroça sacudiu, e o cavalo relinchou com o peso extra que ele carregava. Gael virou-se para trás, se deparando com Anakin sentado no banco da carroça. O jovem sorriu malandro, seu peito movimentando rapidamente pela falta de ar, ajeitando a máscara m*l colocada.             — Tava te procurando, Gael — disse Anakin, desviando os olhos para a lona de pano por cima dos bens da carroça.             — Você sabe onde me encontrar — ele respondeu, inspirando profundamente, continuando a cavalgar em direção a ferraria de seu pai.             — Verdade, mas quando eu cheguei na loja, você já não estava lá.             Gael conheceu Anakin pela primeira vez quando ambos tinham 15 anos. Ele apareceu na ferraria com o pai em busca de um emprego, com menino baixo e pálido ao lado dele. O dono da loja, educado com todos menos com o seu próprio filho, acolheu o homem e lhe deu um emprego direto na mesa de forja. Desde então, seria de se esperar que os dois jovens teriam virado melhores amigos já que moravam e trabalhavam juntos. Pelo contrário, Anakin sempre foi misterioso demais, arrumando encrencas por todos os lados do porto. Gael escolheu não se envolver com nada que poderia lhe prejudicar e decepcionar seu pai. Por consequência, sempre se manteve afastado de Anakin.             — Eu preciso de mais uma barra — Anakin continuou antes que Gael pudesse responder.             — Não posso te dar mais nada. Meu pai percebeu a última vez e não ficou nada bem.             Anakin passou as mãos pelos cabelos pretos, a respiração abafada e ofegante audível.             — Como ele percebeu?             — Ele pesa todas as barras e faz a contagem. Foi estupidez ter te deixado levar uma de qualquer jeito... — sussurrou Gael, negando com a cabeça.             — É só uma barra de cobre, caramba!             — Anakin, eu gostaria de poder te ajudar, mas não vai dar. Depois que meu pai percebeu que faltava uma, sobrou pra mim. Por que você quer esse dinheiro, aliás?             — Pra pagar umas dívidas, eu já te disse.             — Cobre não vende assim tão bem no mercado, especialmente uma barra. Prata é muito melhor — Gael se interrompeu e limpou a garganta. — E eu quero saber que dívidas.             Gael olhou por cima do ombro para Anakin, se lembrando das vezes que o viu pela cidade com um grupo de jovens compartilhando drogas importadas ou roubadas.             — É a última vez, prometo.             — Você mente tão bem — Gael se virou para frente de novo. — Não posso te dar uma barra.             Anakin encostou as costas no banco, tombando a cabeça para trás. A pele branca estava suja de suor e poeira, os olhos avermelhados, mas não por causa da névoa. Ele desviou o olhar para a lona mais uma vez e assentiu.             — Tudo bem.             — Vai vir comigo pra loja?             — Não. Vou descer agora.             Um tilintar soou antes de Anakin pular para fora da carroça. Gael acenou brevemente antes de continuar cavalgando até a ferraria, já que não poderia chegar atrasado novamente. Seu pai detestava quando finalmente permitia Gael sair da loja e ele ainda voltava depois do horário imposto.             Quando finalmente chegou na loja, Gael desceu do cavalo com facilidade, estranhando a quietude do lado de fora. A casa era embutida na ferraria, grande o suficiente para ambos morarem confortavelmente longe um do outro.             Antes do Reino de Nyamie ser atingido com as toxinas mágicas que assolavam a ilha, aquela casa era feita de madeira. No entanto, a névoa úmida causava muito mofo em todo lugar, e como uma medida de saúde, o Rei e a Rainha assinaram um decreto para demolirem todas as casas construídas de madeira. O pai de Gael se recusou a demolir a casa que tinha sobrevivido séculos na família Nemetsk, e tratou de reconstruir tudo a pedra, mantendo a planta original da residência.             A parte da varanda ainda existia, que anos atrás era onde a família forjava armas e armaduras, quando todos ainda podiam sobreviver ao lado de fora. Nos dias de hoje, a varanda era fechada por uma lona transparente, mais grossa que um cobertor de pele.             Gael guiou o cavalo até o pequeno estábulo ao lado da casa, acariciando sua crina.             — Muito bom, garoto. Descansa.             O grande cavalo preto bufou como resposta, aliviado por também estar livre de sua máscara. Gael puxou o portão de madeira para se fechar e voltou para a entrada de sua casa, onde seu pai já puxava as caixas da carroça para dentro.             — Você recebeu outra cesta da sua admiradora nada secreta — disse o sr. Kamahl, os músculos contraindo conforme ele carregava a caixa cheia de barras de cobre e ferro.             Gael olhou em direção da casa, enfiando as mãos nos bolsos.             — Imagino que você tenha deixado ela em paz, ao invés de encher o saco dela.             — Não sei porque essas garotas são obcecadas contigo, mas não tô reclamando. Comida de graça. Vê se na próxima consegue fazer ela trazer frutas também. Aí sim, um presente e tanto — Kamahl entrou na casa e bateu a porta.             Ele seguiu seu pai, imitando-o ao fechar a porta atrás de si, puxando a bandana do rosto.             — Não são "garotas", é só uma e eu nunca pedi pra ela trazer nada.             — Pois deveria, tá perdendo uma ótima oportunidade.             — Massa e pão não é fácil de conseguir, pai. A padaria Marivaldi não pode ficar desperdiçando mantimentos com a gente. Comigo.             — Ninguém tá desperdiçando nada, Gael — Kamahl disse, largando a caixa no chão da forja.             — De qualquer forma, ela deveria ter parado de mandar isso... — Gael percorreu os olhos pela casa, caminhando até a cozinha, avistando a cesta de pães no meio, coberta por um pequeno pano. Ele levantou o tecido com delicadeza, avistando os pães entre pequenos doces, laços rosados nos cantos da cesta. — Nenhum cartão dessa vez?             — Ah, não, tinha um cartão, mas era tão vergonhoso que eu joguei fora — o pai de Gael gritou da forja, contando as barras de cobre em cima da balança, o mineral tintilando um contra o outro.             — Já te pedi pra não jogar as minhas coisas fora.             Ele revirou os olhos, abaixando o pano novamente. A cesta tinha vindo da terceira filha da família Marivaldi, Krisdove. Kris e Gael estudaram juntos desde pequenos e até chegaram a se envolver em um relacionamento casual há alguns anos atrás. Kris, depois de poucos meses, terminou com Gael porque tinha se apaixonado por outro garoto. Tal garoto nunca a tratou bem, totalmente o contrário do seu último namoro. Agora, ela tinha se convencido que nunca realmente deixou de amar Gael e que o queria de volta.             — Vou devolver essa cesta. Não é certo tirar proveito disso, nem quero.             — Gael! — Kamahl gritou, marchando de volta para dentro da casa. — Você encomendou noventa barras de prata como eu mandei?             O coração de Gael acelerou no peito ao ouvir o grito do pai.             — Sim, encomendei exatamente noventa. Por quê?             Antes que Kamahl pudesse responder, Gael repassou mentalmente todos seus passos até aquele momento, se lembrando de Anakin pulando na carroça. O estômago de Gael afundou, um nó se formando em sua garganta.             — Vieram oitenta e cinco barras!             O maldito não só roubou uma, mas levou cinco.             A cabeça de Gael estava um caos. Não sabia se deveria dizer a verdade ou mentir, considerando que da última vez que isso tinha acontecido, não tinha adiantado dizer a verdade, ele ficou com diversos hematomas como lembrança das consequências do que aconteceria se ele repetisse tal estupidez.             — Mas que merda, você me acha i****a, não é, Gael?! Acha que de pouquinho em pouquinho vai conseguir tirar meus materiais e eu não vou perceber?!             Kamahl agarrou Gael pelo colarinho, o arrancando do chão.             — Não, eu fui roubado! Eu juro! Foi o Anakin que levou as barras!             — E você deixou ele levar?! — Kamahl gritou de volta, empurrando o menino contra a parede.             A porta da loja abriu, a névoa adentrando a casa com o vento. Kamahl virou-se para a garota ali parada e gritou que fechasse logo a porta. Gael respirou fundo, ajeitando os ombros na tentativa de se mostrar inafetado.             A garota bronzeada olhava de Gael para seu pai, assustada por terem gritado com ela assim que entrou.             — Eu vim buscar a âncora que minha mãe encomendou — a voz ansiosa dela ecoou pela sala anormalmente silenciosa.             Gael não ousaria abrir a boca primeiro, e Kamahl ainda estava se acalmando para tratar a cliente como deveria ser tratada.             — Ah, se não é Calliope. A âncora está feita e pronta. Como está sua mãe? — ele perguntou, desapertando os punhos, ajeitando a camisa conforme se aproximava de Callie.             — Ela está bem. Temos uma grande entrega pra fazer agora, então preciso levar isso o mais rápido possível.             Ela abaixou a máscara, revelando um sorriso gentil e ansioso. Os cabelos cacheados estavam amarrados em um r**o de cabelo alto pela praticidade, acentuando seu rosto redondo, as maçãs do rosto cheias e rosadas por causa do calor.             — Quanto te devo?             Kamahl olhou para Gael, apontando com a cabeça para a conta em cima da mesa.             — Grande entrega? Para quem?             Calliope manteve as mãos atrás do corpo.             — Para a realeza, na verdade. Eles estão planejando uma festa enorme. Vamos atravessar o mar e entregar as nossas melhores coletas.             — Realmente, de grande importância... Não sabia que a realeza apreciava tanto comida marinha — disse ele, cruzando os braços.             — A Rainha detesta, mas é a comida preferida da Princesa e do Rei. Então... Bom pros negócios — Callie deu de ombros.             Gael retornou com a conta em suas mãos trêmulas.             — Aqui.             A garota enfiou a mão no bolso, contando as moedas uma por uma até ter a quantia certa. Ela estendeu a prata para Gael. Kamahl pegou as moedas da mão dela, verificando a autenticidade e guardou-as no bolso.             — Gael vai te ajudar a levar a âncora. Você não vai conseguir levá-la sozinha.             Calliope transferiu o olhar das mãos de Gael para Kamahl.             — Não preciso de ajuda. Me mostre onde está a âncora, e eu a levarei. Obrigada.             Kamahl riu, cruzando os braços novamente, olhando para Callie de cima a baixo.             — Não tem como você levar a âncora sozinha, menina.             — Consigo. Eu faço isso há um tempo já.             Gael inspirou, apontando para a forja.         — Está por aqui.             A garota assentiu, seguindo o jovem para a forja. Ela percorreu os olhos pela sala antes de entrarem na ferraria. Era aconchegante, até. A lareira acesa no fundo da casa, emanando um cheiro forte de pinheiro. As lâmpadas brilhavam mais fortes na casa de Gael do que nas outras, e havia uma único desenho pendurado na parede da lareira. Era uma pintura de um cenário, montanhoso e sem neblina alguma. A cidade parecia a mesma de Nyamie, as casas altas de dois andares, apertadas em pequenos bairros e as mansões de mármore da Alta.             Gael apontou para onde a âncora em cima de uma mesa de metal, pronta para ser levada. Callie se aproximou e ajeitou suas moedas no bolso, posicionando os dedos calejados no metal frio, levantando a âncora da mesa. Gael franziu o cenho, quase boquiaberto.             — Muito bem, obrigada pelo serviço de vocês.             Callie atravessou a sala sem pressa até a saída, onde abaixou, deixou a âncora no chão com cuidado, subiu sua máscara, abriu a porta e acenou para os ferreiros. Levantando o metal mais uma vez, ela saiu da casa.             Atravessando as ruas úmidas, Calliope seguiu para o porto, os olhos divagando pela multidão, pesados com cansaço e sono. Não havia conseguido dormir bem na última noite, e acordar às quatro da manhã para pescar foi mais difícil do que o esperado. Callie jogou os ombros para trás, apertando os dedos contra o metal frio.             O porto estava tão cheio que quase ninguém reparou na garota alta atravessando com uma âncora no colo. A névoa rastejava pelas lonas de segurança, infiltrava na pele de todos do lado de fora, entrando no caminho das luzes até mesmo dos postes. Não era tão r**m quanto no passado. Poucos anos depois da morte do Dragão-Rei, o ar era irrespirável. Milhares de habitantes de Nyamie morreram após passarem cinco minutos fora de suas casas, seus pulmões dissolvendo por dentro. A magia derivada da decomposição do cadáver era venenosa demais para qualquer humano.             No entanto, não era incomum avistar pessoas desmaiando no meio das ruas. Às vezes por causa do calor, às vezes por causa das doenças ou da própria magia no ar.             — Finalmente você chegou — disse o irmão de Callie, revirando os olhos e saltando para fora do barco. —Demorou, hein?             Calliope depositou a âncora no barco com cuidado.             Aquele barco era o orgulho da família. Tinha sido a primeira compra luxuosa que fizeram após as vendas começaram a fazer sucesso, e desde então tinha se tornado o lugar favorito de Callie. A madeira era grossa, protegida por placas de ferro para evitar desgastes. Havia uma pequena cabine no meio, dois lugares para se sentarem em cima e a popa, espaçosa o suficiente para caber todas as mercadorias que traziam.             — Não espere que eu venha com pressa trazendo uma âncora no colo. Poderia derrubar no pé de alguém — Callie respondeu, pulando na popa.             Puxando as calças, ela se ajoelhou.             — Kamahl cobrou mais caro dessa vez, você devia parar de deixar as nossas âncoras caírem no mar, Elwin.             — Foi sem querer, vai ficar me culpando pra sempre, é? — Elwin resmungou, passando as mãos enluvadas pelos cabelos pretos.             Ele se abaixou, ajudando a prender as cordas da âncora na popa do barco.             — Não tô jogando culpa em você, só... Me deixa cuidar da âncora dessa vez? Já é a segunda vez que você deixa uma cair.             — Segunda vez em quantas mil vezes que eu faço isso? Não. Cuidar da âncora é trabalho meu. — Elwin apertou a corda e se levantou novamente. — A mãe foi comprar alguns mantimentos, ela já já volta.             Callie assentiu, enfiando as mãos nos bolsos, observando a paisagem. Não havia muito para ver. Ela desejava conseguir ver o castelo dali. Todo ano no aniversário da princesa, eles atravessavam o mar para a ilha onde a família real habitava. Elwin parou ao lado dela, abaixando a máscara, virando a garrafa de água na boca.             — Bebe isso lá dentro, Elwin.             — Não faz assim tanta diferença. Acho que não pode piorar.             Ela observou a pele pálida e rachada de Elwin e engoliu em seco. A cada dia ficava um pouco pior e um pouco mais vermelho, mais traços negros atravessando o pescoço dele subindo até o maxilar.             — Não diz isso... — ela segurou sua máscara e a levantou com cuidado. — Então... O palácio, hein? — Com um sorriso forçado, Callie se virou para frente novamente, piscando repetidamente para aliviar a ardência nos olhos.             Elwin deixou a garrafa vazia de lado, se sentando devagar, os músculos pedindo um pouco de descanso.             — Não era suposto irmos para lá por mais uns bons quatro meses.             — Você nunca gostou de lá — Callie revirou os olhos, cruzando os braços. — Por quê?             — Eles não vão fazer nada por nós, Callie. Eu não quero mais ver você e a mamãe cometendo tentativas miseráveis de impedir o inevitável — a voz rouca de Elwin falhou, mantendo os olhos fixos no chão da popa.             Ela não sabia como responder. Já tinham tido aquela conversa tantas vezes. Tudo o que Callie desejava fazer às vezes era gritar com ele, sobre como ele não poderia desistir assim tão fácil. Não poderia fazê-lo, no entanto. Calliope acompanhou de perto o que Elwin teve de passar para sobreviver até os dias de hoje.             — Eu não vou desistir das esperanças ainda, Elwin — ela murmurou, esfregando a pequena meia-esfera de jade do pingente de seu colar.             Elwin fez o mesmo, segurando a sua metade da jade com força, pressionando-a contra os lábios cobertos pela máscara. Interrompido na menção de responder, a mãe subiu no barco com as caixas de mantimentos fechadas e prontas para a viagem.             — Meninos, ajudem aqui! — disse a pequena mulher, atravessando da popa para a cabine.             Elwin saltou do banco apesar da dor e tomou as caixas.             — Devia ter me deixado ir com você — disse ele, levando as caixas para a cabine do barco.             — Alguém tinha que vigiar o barco — ela virou-se para Callie. — Tudo pronto para partirmos?             — Sim, senhora — Callie assentiu com um sorriso, escondendo o colar de volta dentro de sua camisa. — Âncora presa, peixes nas caixas, temos combustível, o tempo tá limpo. Vai ser uma viagem tranquila.             A mãe levantou as mãos ao céus com um sorriso largo, os cabelos negros e longos trançados para trás.             — Que as estrelas te ouçam, minha filha. Então vamos sair daqui logo.             A senhora se encarregou de pilotar o barco como sempre, Callie e Elwin de soltarem as cordas que prendiam o barco ao porto. Assim, a família Suvniru navegava para longe da humanidade, direto para a casa dos não-humanos, para a realeza, onde a magia prevalecia e ariqueza era abundante. Onde a beleza e o tempo eram falsos 
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