Capítulo III — A Estrela Carmesim

2628 Words
            No meio do mar, a névoa era muito mais escassa. Algumas estrelas brilhavam o suficiente para serem vistas de onde Callie e Elwin estavam. O motor estava desligado, a âncora fincada na areia, o barco balançando ligeiramente com as ondas. A família Suvniru estava espalhada pela parte de fora, aproveitando o ar fresco que não era fácil de encontrar. Callie deitou-se no banco de cima, observando o céu azul escuro intenso. Elwin estava deitado na popa, junto de sua mãe, que experimentava uma fruta nova trazida do exterior.             — Não sabia que uma fruta poderia ser tão azeda — disse a mãe, lambendo os lábios enquanto contorcia o rosto. — Esqueci o nome dessa.             — É um Limão — Elwin respondeu, os olhos fechados, suspirando silenciosamente. Diversas veias em seu rosto latejavam, principalmente as mais próximas dos traços pretos em seu rosto, os sinais mais evidentes de sua doença.             — Ah, sim, verdade.             — Tem uma estrela nova no céu? — perguntou Callie, apoiando os cotovelos no colchão, maravilhada em perceber algo de diferente com as estrelas que o povo de Nyamie tanto adorava.             — É impossível aparecer uma estrela nova assim tão rápido, inteligência — retrucou Elwin, mas mesmo assim abriu os olhos para conferir por si mesmo.             A mãe virou-se na direção de Callie, observando a estrela avermelhada no céu. Era pequena, mais fraca do que as outras, mas possuía uma cor única de carmesim. Ela limpou a boca e jogou a casca da fruta na pequena lixeira.             — É a estrela Alethea.             Elwin franziu o cenho.             — Ela tem uma estrela agora?             A senhora negou com a cabeça, sua pele marrom brilhando com uma camada fina de suor.             — A bruxa Alethea não tem uma estrela. Diz a lenda que Alethea nasceu no mesmo dia que a estrela surgiu pela primeira vez, por volta de duzentos anos atrás. A mãe da bruxa resolveu dar à sua bebê o mesmo nome do astro. Os deuses se zangaram com tal audácia: nomear uma mortal inferior com o mesmo nome de uma imagem divina, e castigaram a pequena bebê Alethea com uma magia poderosa, o que a tornou imortal.             Callie encostou a cabeça de volta no travesseiro, levantando os dedos na direção da estrela como se pudesse pegá-la.             — É linda.             — Essa é só uma versão das imensas que existem sobre essa bruxa — lembrou Elwin, cruzando os braços.             A mãe se sentou na popa, puxando o lençól de seu corpo, aproveitando o calor raro da Nyamie.             — Já contei a vocês a história da Profecia de Sangue?             — Eu odeio profecias —respondeu ele.             — Não contou, mãe.             — Bom, eu vou contar, então. Era uma vez, muitos anos atrás...             — Ai ai ai...             Elwin virou de costas, observando a água. Seus músculos contraíam e relaxavam, o nó em sua garganta se apertando cada vez mais enquanto se aproximavam do palácio.             — Cinco estrelas individuais eram as únicas que brilhavam nos céus, uma delas era vermelha, como essa. Elas protegiam e serviam a todos em baixo de si, mas nunca juntas. Até que um dia, as cinco estrelas se alinharam pela primeira vez em séculos, mas as forças de cada uma eram grandes demais. Não aguentavam ficar alinhadas daquela forma. O vermelho passou de uma estrela para outra como sangue derramado, até que somente duas delas permaneceram brilhando firme e forte nos céus.             Elwin interrompeu.             — A estrela era contagiosa, é?             — Deixa ela falar — intrometeu Callie, se virando de barriga para baixo, os olhos atentos na mãe.             — As outras estrelas vermelhas eventualmente se apagaram e nunca mais apareceram para o olho humano. Essa é a Profecia de Sangue.             O jovem se pôs de pé, abrindo a porta da cabine.             — Bom, é uma profecia estúpida. Sequer faz sentido, nem tem uma lição de moral ou algo pra se tirar dela.             Callie revirou os olhos, encostando o rosto nos braços.             — Talvez a lição de moral seja "Não participe de agrupamentos se tem alguém doente no grupo".             A porta da cabine bateu, deixando somente o silêncio entre a mãe e filha. Callie repassava em sua mente as palavras de sua mãe: "nunca mais apareceram para o olho humano".             Até agora?             — Mãe...?             A senhora levantou o rosto para a luz avermelhada da estrela e inspirou profundamente o ar noturno, seu instinto materno lhe chamando atenção para o que estava logo debaixo do nariz dela.             — É melhor você entrar e dormir, Callie. Logo logo estaremos chegando no palácio.                                                                                                ~             Cortando a névoa como um arranha-céu, o castelo de mármore cristalizado se estendia até as nuvens. A parte debaixo tinha sido completamente engolida pelo ar denso, sendo impossível ver a entrada de longe. As cachoeiras menores que um dia existiram nos pés do castelo já tinham secado, mas as maiores se tornaram venenosas, a água assumindo um tom avermelhado barro. As pontes se estendiam por todo o horizonte, já sendo engolidas pela névoa.             Desde que começaram a visitar o castelo pela segunda vez, Callie e Elwin faziam apostas sobre em qual andar a névoa já estaria. Ela contava os andares pelas gárgulas em cada sacada. As considerava horrorosas: as orelhas pontudas e grandes, os olhos fechados pela cegueira, as bocas abertas despejando a magia do Rei e da Rainha, uma tentativa de purificar o ar do interior e despejar as impurezas para o exterior.             Elwin se aproximou da popa do barco, a máscara já cobrindo o nariz.             — Subiu?             Callie contou as gárgulas até o mais alto possível e engoliu em seco. Assentiu.             — Dezenove pisos.             A sra. Suvniru enfiou a cabeça para fora da cabine, os olhos ardendo com a súbita mudança de ambiente.             — Estamos checando, entrem aqui.             Perto de um dos pés das pontes havia uma área quadrangular marcada por luzes vindas debaixo da água. Callie e Elwin entraram de volta no barco, e a filha mais nova ajudou a estacionar o barco precisamente dentro do quadrado.             — Aqui vamos nós... — murmurou Elwin, pegando a lente amarelada no armário.             Colocando seu braço para fora, Elwin mandou o sinal de luz pela lente para os soldados na ponte, e em poucos segundos o sinal foi recebido e retribuido.             Ele recolheu o braço e fechou a janela, puxando a alavanca para selá-la.             — Eles vão nos puxar agora, fechem tudo — Elwin lembrou.            As portas e outras janelas foram seladas. Um sino ecoou três vezes, uma barreira azulada subiu das luzes no mar em formato de cúpula. O chão embaixo do barco se aproximava cada vez mais até restar somente alguns metros de distância.             Um zumbido alto ecoou pela cabine conforme a pressão do ar dentro da cúpula mudava, a magia extraindo a névoa tóxica e purificando o ar o melhor possível.             Callie caminhou até a janela, ajeitando os finos cachos soltos para trás da orelha. Tudo era exatamente como ela se lembrava da última vez que tinha visitado o castelo. A plataforma em que agora se encontravam seria puxada para cima, levando-os ao mesmo nível da ponte de pedra, onde eles encontrariam com soldados que os revistariam antes de ajudarem a trazer a mercadoria para dentro.             E dessa forma Callie pulou para fora do barco até a ponte, sua respiração quente contra a máscara grossa em seu rosto. Não havia sons. O exterior do palácio era silencioso como o vácuo, no entanto, tal ausência de sons era para Callie como a neblina soava. Aquilo não se identificava em nenhum outro lugar, por mais que a névoa estivesse por toda parte.             Ela se lembrava de ouvir todas as lendas e histórias da vila sobre o palácio da realeza e seu silêncio esmagador no exterior. Haviam diversos relatos de como uma das penas de morte era se jogar no oceano, completamente nu, exposto a névoa, e se render para todas as criaturas lá em baixo. Callie não conhecia ninguém que viveu para contar a história.             Um dos guardas, quase o dobro do tamanho de Callie, permitiu que a família passasse. O outro trouxe um carrinho de transporte, onde Elwin depositou as caixas e caixas da mercadoria. Então, permanecendo em um silêncio total, caminharam até os portões de aço. Os passos pesados e úmidos ecoaram no vazio do ar.             Apesar de que as paredes eram totalmente fechadas, haviam sempre olhos para vigiar os funcionários e convidados. E como Callie já sabia disso, não conseguiu evitar encolher os ombros. O cheiro era intragável, forte e azedo.             Quando finalmente atravessaram os portões, haviam duas mulheres de pé, esperando a família Suvniru na entrada. A mais alta tinha os cabelos cacheados presos em diversas pequenas tranças desde a raiz de seu cabelo até um r**o de cavalo, deixando as orelhas pontudas expostas. Seus olhos eram graciosos, as íris marrons escuras como barro. Ela levantou suas mãos, uma magia esverdeada como jade escapando de seus dedos, percorrendo toda a entrada do salão.             A névoa foi empurrada para fora como uma barreira de ar, e os portões se fecharam mais uma vez com um estrondo que ecoou pelo salão da entrada.             Callie percorreu os olhos pelas paredes. Aquela era somente a entrada dos funcionários, mas era como uma parte de uma das mansões da cidade. As paredes por dentro eram de mármore preto polido, diversas lamparinas penduradas no teto como se estivessem de cabeça para baixo, se unindo em um lustre maior no centro. No entanto, ao contrário de um humano rico, não havia pintura nenhuma nas paredes, apenas esculturas decorativas. Pinturas eram obras principalmente humanas, já que os dryadalis não conseguiam enxergar cores. Sua visão era uma das piores de todos os tipos de imortais, menos precisa e aguda. No entanto, seus outros sentidos apurados os fizeram dominar acima dos outros.             — Me sigam — ordenou um dos guardas, saindo sem esperar uma resposta.             Callie pegou uma das caixas, ajudando Elwin a levar a mercadoria pelo corredor. Ela nunca havia passado muito tempo no castelo exceto por algumas vezes, quando sua mãe encontrava algum tipo de problema com a mercadoria junto dos guardas. Tais momentos aconteceram poucas vezes, principalmente na infância de Callie e Elwin, quando ambos eram pequenos demais para ajudar a mãe a conferir toda a mercadoria.             Em um desses dias, Callie avistou uma pequena criança de olhos brilhantes como a lua, orelhas pontudas para cima e um vestido não-acabado no corpo, espreitando para os pães frescos de um canto da cozinha, por baixo de uma mesa de madeira. A pequena menina humana se enfiou de fininho embaixo da mesa, seus olhos de mel encontrando os da criança misteriosa. Sua mão magra e comprida se estendeu para Callie, saindo das sombras.              — Você quer ver uma estrela? — ela tinha sussurrado, o sorriso expondo os dentes caninos.             Callie virou o rosto para sua mãe e Elwin na cozinha e voltou-se para a menina mais uma vez.             — Não posso — Callie tinha respondido. — O que você tá fazendo aqui embaixo?             — Shh, vão me descobrir!            A menina tapou a boca de Callie, que estremeceu com a temperatura gelada de sua mão. Era como se tivesse beijado uma barra de metal no inverno.             — Prometo que você vai gostar. Não vai demorar — ela repetiu, abaixando sua mão.             — Deixem a mercadoria aqui.             Calliope acordou de suas memórias, respirando fundo ao depositar o caixote em cima da mesma mesa de madeira. Ela passou a franja para trás da orelha, os olhos de mel descendo para aquele canto escuro.             — Vamos fazer a contagem — disse um dos funcionários da cozinha, secando suas mãos escamosas com um pano. — Fiquem aqui.             Elwin encostou o ombro na parede, cruzando os braços. Ele percorreu os olhos pela cozinha. Aqueles cabelos pretos tão familiares já ali não existiam mais. Com um silencioso suspiro, Elwin voltou a se concentrar na contagem da mercadoria.             Uma jovem baixa e pálida como a morte adentrou a cozinha às pressas.             — Sentinela Yuko? — ela chamou o guarda mais alto, o que trouxe a família Suvniru até a cozinha.             O elfo virou-se para a jovem, as orelhas trêmulas em atenção e cautela.             — O Rei ordenou que todos compareçam ao salão principal imediatamente.             — Todos?             — Todas as criaturas que existem nesse castelo, absolutamente todos — ela gaguejou, escondendo as mãos atrás do corpo.             Callie olhou para sua mãe, um nó na garganta se formando. Nada parecido já havia acontecido na presença deles no castelo, e humanos no meio de um caos imortal normalmente não acabaria bem.             O sentinela se virou para os únicos humanos naquela cozinha, e a mãe dos dois levantou o queixo, lentamente passando Callie para trás de si. Ela respirou fundo e conseguiu deixar as palavras escaparem:             — Já podemos ir embora agora. A contagem já terminou.             Elwin se descolou da parede, caminhando até sua irmã, os olhos atentos no sentinela. A jovem imortal intrometeu novamente:             — Ninguém pode sair no momento, temos que ir para o salão principal agora.             O sentinela estendeu o braço para o lado, pronto para conduzi-los até o salão. Callie percorreu o olhar pelo sentinela, reparando que a mão do imortal era maior que o rosto dela. A mãe tomou o primeiro passo, levando os dois juntos de si em silêncio. Não tinha coragem de continuar debatendo.             As escadas foram a pior parte para os três, mas principalmente para Elwin. Os imortais não se cansavam tão rapidamente quanto humanos, ainda mais um humano doente como ele. Quando finalmente chegaram no topo, Elwin encostou a mão no peito, a respiração sôfrega contra a máscara. Callie segurou seu braço, tentando oferecer algum suporte para seu irmão.             O sentinela continuou andando, pouco se importando com os mortais, apenas seguindo as ordens do rei.             O salão principal era enorme. Callie tinha certeza que ocupava todo o interior do castelo, porque o céu não parecia ter fim. Não haviam demasiadas cores espalhadas pelo salão, apenas alguns tons de amarelo e vermelho, que eram as únicas cores que os dryadalis conseguiam ver melhor. Havia um lustre caindo do teto n***o e esfumaçado, como se flutuasse do vácuo, diversas velas penduradas de cabeça para baixo, as chamas brilhando intensamente em cada uma.             As paredes eram decoradas com relevos em argila e concreto, alternando entre pedra cinza e mármore branco. Alguns detalhes pintados a vermelho nas rachaduras das pedras, descendo do rodapé até o chão, os traços de cor formavam desenhos no chão. Callie parou, os olhos arregalados presos no chão de vidro, onde diversos peixes mutantes nadavam numa água cinzenta. Olhos esbugalhados e dentes afiados como facas, alguns tinham rasgos nas laterais do corpo, carne e ossos expostos. Alguns eram maiores do que um humano comum. Em suas barbatanas haviam amarradas fitas douradas e vermelhas que flutuavam pela água conforme eles nadavam. Também não era possível ver o fim do chão.             Outro guarda atrás deles colocou sua mão nas costas da garota, e Calliope se encolheu ao sentir aquele gelo familiar, o coração acelerado com o medo de pisar naquele vidro, naquele salão. Ele a empurrou para continuar, e Elwin ajudou sua irmã andar logo para onde deveriam.             Só então Callie levantou os olhos para o salão. Nunca esteve na presença de tantos dryadalis como aquela vez. O local estava quase cheio com os nobres, funcionários e guardas. O cheiro característico dos imortais espalhado pelo ar como perfume.             Seus olhos de mel instantaneamente se trancaram com aqueles olhos brilhantes como a lua, em pé acima de todos, o queixo erguido, os cabelos castanhos enrolados para trás como uma coroa, as mechas caindo pelos seus ombros como uma cascata. Suas mãos magricelas repousavam a frente do corpo, os anéis de ouro cobrindo todos os seus dedos.             A princesa Elinor sustentou seu olhar e sorriu mais uma vez com seus dentes afiados de uma imortal.
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