Alethea se lembrava perfeitamente da última vez que havia ouvido corvos. Poucos minutos antes de Aeter acordar de seu sono profundo e atormentar aquelas pequenas ilhas do sul até os dias de hoje, os corvos cortaram as núvens com desespero, pintando os céus de preto uma última vez.
Desde então, nenhuma outra ave chegou a atravessar os céus fatais de Nyamie e sobreviver. As crianças das vilas já não sabiam da existência de qualquer coisa que consiga voar naquela névoa venenosa.
Seus cabelos ruivos estavam presos para trás em um coque baixo e firme, os dedos nus acariciando os troncos secos de árvore conforme a bruxa caminhava naquele bosque que um dia tinha sido tão vivo. As folhas finas e contorcidas se quebravam e desmanchavam quando esmagadas contra a terra úmida.
O cheiro dos humanos era forte, o suor acumulado embaixo dos tecidos finos demais para o olfato de uma imortal como ela, misturado com o terrível odor de mofo. A bruxa os havia sentido em seu terreno há algum tempo, e esperou até o pôr-do-sol para lhes dar uma chance de irem embora sozinhos.
A fraca luz alaranjada caiu por trás dos morros, transformando o tom dos olhos de Alethea de caramelo para barro. Ela levantou o queixo, erguendo suas mãos na direção da estrada, pronta para expulsar os primeiros intrusos. Então, a presença de mais dois humanos lhe incomodou. O cheiro de metal e ervas atravessou toda a subida da montanha até o santuário, e ela torceu o nariz.
Os gritos ecoavam como em um grande salão poucos minutos depois, subindo o morro com lentidão. Alethea puxou seu capuz, descendo as escadas de pedra, a capa arrastando pequenos pedregulhos junto.
O santuário abandonado que existia no topo da montanha era o lugar favorito de Alethea. Longe, alto e demasiado exposto à névoa, o suficiente para manter mortais e imortais longe. Ainda sim, por vezes grupos de jovens atravessavam os portões de pedra no pé da montanha, desafiando uns aos outros a subirem até o topo.
Todos voltavam para a cidade vivos. Alethea se recusava a manchar o solo sagrado com sangue mortal.
Semi-escondida atrás de uma pedra ao alto, ela abaixou o olhar para os humanos a alguns metros de distância, mesclada dentro das sombras. Cinco, ela contou. Alethea reconheceu os três homens que estavam na ofensiva quanto aos outros dois jovens. Costumavam tentar invadir seu santuário constantemente, na tentativa de roubarem itens preciosos.
Ela sequer tinha itens preciosos para serem roubados.
Os dois jovens estavam machucados, caídos no chão enquanto os três homens armados os ameaçavam. Ela não os conseguia ouvir tão perfeitamente de longe, sua audição não era assim tão apurada. As gotas de sangue quente escorriam entre os grãos de terra, infiltrando o solo como ácido.
Alethea inspirou profundamente, virando o olhar para as estrelas, procurando algum sinal dos deuses. A luz do luar penetrou a névoa, brilhando diretamente para eles, como no dia do nascimento da princesa Elinor. Seu coração acelerou e ela apertou seus dedos contra a pedra.
Levantou sua mão até o rosto, os dedos brilhando cornalina escura conforme a magia cobria seu rosto com uma máscara preta. Seus olhos de barro fixaram nos três homens, e ela desceu os degraus de pedra lentamente.
— Você me prometeu meu dinheiro de volta, moleque — um dos homens rosnou, a faca apontada para o jovem de pele clara.
Ele respondeu, ofegante, com a voz trêmula:
— Ele tem- ele tem o dinheiro, ele pode te pagar — ele apontou para seu amigo no chão, o filho do ferreiro.
O homem se virou para Gael, se abaixando para ficar na mesma altura que ele.
— Eu quero as barras de ouro que você recebe do castelo real.
Gael engoliu em seco, o gosto do seu próprio sangue não era nada comparado com o quanto seu rosto queimava ali sem a máscara.
— Eu não vou pagar a dívida do Anakin — ele conseguiu responder entredentes, os dedos esmagando a terra embaixo de si.
— Eu não perguntei, filho da p**a. Eu quero meu dinheiro — o credor apertou a lâmina afiada contra a garganta do jovem ferreiro. — E eu quero agora. Então ou vocês vão me subir esse morro e roubar todas as riquezas dessa bruxa, ou a gente vai buscar nós mesmos na sua forja.
Gael apertou os olhos, o suor escorrendo pelo seu pescoço. Não conseguia pensar direito, a névoa fazia seus olhos arderem. Sequer era capaz de inspirar completamente.
— Ele tá chorando, olha — disse o outro credor, com um sorriso que atravessava qualquer máscara.
As gargalhadas ecoaram pela floresta silenciosa, mais sangue humano sendo derramado no solo.
O vento soprou, levantando a poeira e as folhas secas, e lá estava ela. Seus olhos eram o único resquício de pele exposta à névoa e aos homens.
— Chefe… olha — um deles sussurrou, cutucando o outro, apontando para a bruxa.
O credor se pôs de pé, olhando para ela de cima a baixo.
Uma moça de preto,
Duas estrelas vermelhas como sangue,
O colar em relevo,
O dragão ali preso, na moça de preto.
— Quem é você? — ele perguntou, a lenda se repetindo em sua cabeça vez atrás de vez.
Seus ouvidos zuniram, as vozes se aumentando, crianças cantando a canção da moça de preto. Sua visão se escurecendo, se focando na sombra que ali existia em sua frente. Não conseguia respirar. Ele abaixou a máscara, a faca escorregando de sua mão para o chão. Deitou a mão no peito, os joelhos fraquejando, lágrimas impedindo-o de olhar para a moça de preto. Subiu as mãos para a garganta e depois para os ouvidos, as vozes gritando em sua cabeça. Os olhos de barro o atormentando, o sangue pulsando em seus ouvidos.
Ele tossiu, apertando sua própria cabeça com as mãos. Os gritos e as canções se expandiam por cada músculo de seu corpo, urina escorrendo pelas suas pernas. Mais nada ali existia senão a moça de preto, que agora já se misturava com as sombras, somente as duas estrelas vermelhas como sangue restavam piscando para ele.
O barro se tornou carvão, e o homem despencou no chão.
— Chefe!
Ela deu um passo para frente, agora se voltando para os outros dois credores. A canção da moça de preto ecoou pela floresta. Gritando entre si, correram escada a baixo aos tropeços.
Já era tarde demais.
Alethea parou atrás dos homens e levantou sua mão agora desluvada. Seus dedos brilharam como cornalina mais uma vez, e ela observou os corpos caírem no chão como pesos mortos.
Gael subiu sua máscara de volta, ofegante, em demasiada dor para tentar fugir. Anakin se jogou de pé, tossindo sangue conforme tentava fugir para a direção oposta, para qualquer lugar onde a moça de preto não estaria.
Exceto que, naquele terreno, ela estaria em qualquer lugar.
As árvores se fecharam cada vez mais para o jovem ladrão, a floresta escurecendo, a névoa abaixando. Não tinha saída, estava preso.
Estava em pé no meio de uma clareira, mas estava preso, sufocando nos troncos largos e na esmagadora névoa.
— Para! — gritou Gael, a voz trêmula enquanto assistia seu amigo de infância perdendo a sanidade, vendo coisas que não existiam. — Nós não viemos roubar nada!
A luz do luar pulsou mais uma vez, e Alethea instantaneamente abaixou sua mão. Anakin despencou no chão, a respiração fraca contra a terra úmida.
A bruxa se virou para o jovem ferreiro, sua pele n***a brilhando prateado.
— Gael Nemetsk…
Ele envolveu os dedos na faca abandonada no chão, lentamente trazendo-a para perto de seu corpo. A bruxa soltou um discreto sorriso ao observá-lo se armar.
— Isso é muita ingratidão da sua parte — ela disse, a voz macia como veludo preenchendo os ouvidos de Gael, cantando uma canção que o fez fechar os olhos, relaxar a respiração e cair em um sono profundo.
~
O pequeno Gael estava deitado em sua cama, contando as bolinhas de gude que tinha ganhado em um jogo na escola. Ele não era muito sortudo ou experiente na estratégica do jogo, mas aquele dia tinha sido o vitorioso, levando mais de quinze bolinhas de gude para casa. As outras crianças sempre costumavam ganhar dele, particularmente porque Gael acabava por revelar suas apostas sem querer muitas vezes. Tinha ficado tão orgulhoso em mostrar toda aquela riqueza de criança para sua mãe, as duas mãos cheias com as bolinhas.
Ela não tinha demonstrado muita reação, no entanto. Desviou da conversa e arrastou o menino para casa. Não precisou nem fecharem a porta para os pais começarem a discutir. Anakin sentado no canto da forja, seu pai trabalhando, Khamal gesticulando com agressividade para a esposa, apontando para o caderno de economias e despesas. Ela respondia na mesma moeda, e assim os dois gritavam cada vez mais. Gael correu para o quarto e bateu a porta, na tentativa de mostrar o quão chateado estava. Não pôde nem mostrar suas bolinhas de gude.
E tinha certeza que aquilo tinha passado despercebido para os pais, muito concentrados em sua própria discussão. Gael não sabia porquê, mas seu pai estava muito mais irritado naquele mês, e sempre que aquelas discussões aconteciam, a mãe saía para caminhar e clarear a cabeça.
E então vinham os passos na direção de seu quarto. Ele parou de contar as bolinhas de gude, ouvindo seu pai gritando com ele dessa vez. Ele saltou para fora da cama, enfiando as bolinhas no saco de pano. Na pressa, muitas caíram fora. Sua respiração estava fraca e curta, e ele se jogou debaixo da cama, tentando fugir de seu pai.
A porta se abriu.
Seu coração acelerou ao abrir os olhos, logo se deparando com a jovem bruxa. Ela estava recostada na poltrona de couro desidratado, as mãos finas e imaculadas agilmente traçando a linha pelo tecido. Seu foco estava totalmente no pedaço de bordado, os cabelos presos para trás em um r**o de cavalo improvisado, as bochechas rosadas em contraste com as orelhas redondas pálidas. A iluminação alaranjada vinha da lareira atrás dela, a pintando como uma obra de arte, seus cabelos ruivos se comparavam a perfeitos fios de cobre.
Ele então percorreu o olhar pelo cômodo, sem mover um músculo. O quarto era totalmente fechado, não haviam sequer janelas seladas. Apenas grandes cortinas pretas nas paredes, mantendo o cômodo escuro. As pequenas aranhas no teto aproveitavam bastante para se camuflarem. O chão era coberto com um tapete de uma pele de um animal, o que Gael acreditava ser uma Ursa-Mãe, pelo tamanho. Não, três ursas-mães.
Além de poucas estantes com quase livros nenhuns, a cama onde ele se deitava era o último móvel. Era macia, para sua surpresa, os cobertores felpudos e lençóis de seda. Nunca tinha dormido em uma cama assim tão chique.
O cheiro do quarto, no entanto, era forte. Gael não sabia identificar do que, mas tinha certeza que mofo e pedra molhada também causavam aquele odor.
A bruxa levantou seus olhos de caramelo para o jovem, pousando as mãos no colo. Ele travou a respiração, incerto do que fazer, se apoiando na cama para tentar se pôr de pé. Seu corpo já não rugia a cada movimento, desencadeando dores musculares em todo canto onde tinha sido chutado e espancado.
— Eu não levantaria se fosse você — disse Alethea.
— Eu não estaria aqui se dependesse de mim — ele conseguiu dizer, a voz trêmula, os olhos de carvão trancados na bruxa. — Você é…?
A cortina preta se abriu, revelando a vista de toda a cidade e da vila a partir do santuário, da maior montanha daquela ilha. A iluminação não mudou em nada no quarto, manteve-se naquele breu. Gael não conseguia respirar, a máscara parecia ainda mais um peso do que qualquer vez em todos os seus anos de vida a usando. Franziu a testa, tentando enxergar toda aquela névoa que sempre existiu. Ele nunca tinha conseguido ver o fim e começo da cidade, o que agora o fez perceber como são todos tão pequenos e não importantes ali em baixo.
— A bruxa de Nyamie — ela murmurou.
O quarto logo se escureceu para Gael de novo.
— E você é Gael Nemetsk, o filho do ferreiro.
— O que você quer comigo?
Alethea deixou o bordado na mesinha de centro e se levantou, caminhando até a cama. O vestido cor de esmeralda n***a ofuscava qualquer brilho vindo da lareira.
— Eu preciso de um humano.
— Pra?
Ela soltou seu cabelo, deixando o laço em seu pulso. Virando sua atenção para a lareira, ela observou as chamas farfalharem e dançarem entre si em uma competição para descobrirem qual delas irá queimar mais forte.
— Para fazer uma busca. Recentemente nossas Majestades acharam uma solução para a doença da nossa princesa salvadora Elinor.
Ele arregalou os olhos, agora ainda mais ansioso. A família real havia dizendo por anos que quando encontrassem uma forma de curar a doença da princesa, ela conseguiria salvar todos eles daquela miséria, colocando a alma de Aeter em paz. Tal ritual expulsaria a névoa e os venenos do solo de Nyamie, finalmente contribuindo saúde e paz para os cidadãos. De acordo com a profecia.
— Uma pedra frágil, que quando transformada em estado líquido, resolverá todos os nossos problemas — disse ela, um breve sorriso azedo surgindo em seus lábios. — Lítio. Não existe essa pedra em Nyamie e nunca existiu, mas nossas Majestades fizeram um acordo com um reino estrangeiro, Amerie. Só que para a nossa grande infortuna, o barco foi saqueado no meio do mar.
Ela virou seu rosto para Gael novamente, seus olhos escurecendo do tom de caramelo para barro novamente.
— E o cristal foi perdido.
Gael umedeceu os lábios, finalmente reunindo coragem para se sentar, a coberta deslizando do seu peito para seu colo.
— E você quer que eu encontre?
— Quero a sua ajuda — ela corrigiu, mais serena do que qualquer pantera.
— O que você possivelmente poderia ganhar com a minha ajuda? Você não é simplesmente uma das cinco criaturas mais poderosas dessa ilha? Por que precisa de um humano mortal?
— Mesmo a minha magia tem suas restrições. E você me deve. Derramou seu sangue no meu solo e salvei sua vida debaixo dos olhos dos deuses. Você era o mais apto para o papel dentro dos outros.
Ele engoliu em seco ao se lembrar de Anakin, a garganta apertando com a insegurança de perguntar o que ela tinha feito com ele.
— Se está preocupado com a sua segurança, não fique. Eu irei te proteger enquanto estiver me ajudando.
— E o Anakin? — Ele perguntou, ignorando-a.
— Ah, ele já deve ter acordado a essa hora. O deixei na sarjeta da cidade.
Gael respirou fundo, levando suas mãos até o rosto, sua pele voltando a arder por causa da exposição à névoa mais cedo. Percorrendo seus dedos calejados pela bochecha, as pequenas e rígidas bolhas de queimadura se formando.
— Tire os dedos, se não quiser ter o rosto inteiro sangrando — disse ela, apoiando a lateral da cintura na cama.
— Eu não posso te ajudar com a sua missão. Isso é claramente preocupação dos imortais e dos elfos.
— Pelo contrário, é uma preocupação de todo cidadão de Nyamie. Gosta de viver do jeito que vive?
— Não, mas isso não é nossa culpa. Vocês brincam de magia e destroem tudo em volta de nós, e quem mais morre não são os culpados. Você não tem ideia do que os humanos indefesos passam aqui nas ruas enquanto vocês se trancam num castelo protegido.
Alethea endireitou o queixo, apertando os dedos no tecido da saia.
— Realmente, não havia muito que um humano sozinho possa fazer para toda a população. Agora existe uma chance. Agora todos temos as mesmas responsabilidades e capacidades. Precisamos encontrar o cristal, e o mais rápido possível. Alguns peixes mutantes apareceram do lado de fora do castelo, o que significa que as águas estão sendo infectadas também.
Ele já tinha ouvido sobre isso. Era o novo desespero da cidade, todos abaforados para comprarem e estocarem os alimentos marinhos porque não muito tarde todos os peixes seriam incomestíveis.
— Não me parece encaixar nessas suas fortes morais voltar para a cidade e fingir que humanos não podem ajudar. O veneno de Aeter é c***l para os elfos também, não se esqueça disso.
Gael permaneceu calado, os olhos caídos em seu colo, contemplando tudo que havia acabado de acontecer. O silêncio era quase constrangedor. Alethea, no entanto, estava pronta para responder qualquer pergunta, falaria quando ele falasse primeiro.
— Por que eu? — Ele perguntou, genuinamente curioso, levantando a atenção de volta para a bruxa. — Tenho certeza que aqueles credores seriam melhores ladrões do que eu.
— Com certeza. Exceto que eu odeio pessoas como ele.
Gael levantou as sobrancelhas ligeiramente, surpreso que a grande bruxa de Nyamie teria um tipo de humano que ela gostasse.
— Por que está me olhando assim? — Ela perguntou, se ajeitando na cama.
— Que… tipo de pessoa ele é? — Perguntou Gael, seu coração um pouco acelerado por não conseguir ver a bruxa Alethea de antes, a moça de preto. Ela parecia uma pessoa comum. Talvez fosse isso que ela queria que ele acreditasse.
— Pessoas que agem como se fossem as melhores e mais fortes por simplesmente pisarem em pessoas fracas demais para reagirem.
Alethea percorreu os dedos pelo cobertor de pelos, o anel com o sangue de dragão passeando dentro do vidro, uma pequena bolha de ar ali trancada por séculos.
— Por quê não você? Entraste no meu terreno para proteger seu amigo de infância, mesmo ciente de que ele tentaria cometer a estupidez de tentar me saquear e te colocaria em risco. Quando os credores chegaram, não o abandonaste e inclusive ajudou a lutar uma luta que não era sua. Mesmo quando eu cheguei e você estava naquele estado deplorável, ainda tentou pegar a faca para me atacar e fugir seguro com o seu amigo. Não se encontra um humano decente assim em qualquer lugar. E os deuses me sinalizaram. Eles desejaram que eu agisse naquele momento para te salvar.
Gael riu com a última parte, o que provocou um olhar torto de Alethea.
— Eu sou o escolhido, então?
— Os deuses teriam escolhido alguém melhor se fossem escolher, não se anime tanto — ela rebateu, insatisfeita com o certo ceticismo dele.
— Eu não tenho muitas habilidades.
— Você tem as que eu preciso. Temos um trato?
— Eu não disse que sim.
— Por isso eu perguntei.
Humanos…, ela pensou.
Gael se esforçou para se pôr de pé, grunhindo quando seus joelhos lhe imploraram para voltar para a cama. O chute lateral que havia levado lhe podia ter deslocado o joelho.
— Posso… Quero ver a cidade de novo — disse ele, puxando a cortina para o lado.
Alethea permaneceu imóvel sentada na cama conforme Gael se deparava com uma parede de pedra desgastada, e nenhuma janela. Ele piscou três vezes, passando os dedos pela parede, que logo se transformou novamente na vista que ele tinha tido antes.
Dessa vez, no entanto, um nó se formou em sua garganta, os olhos ardendo com lágrimas. Não era real.
— Por que eu consigo ver a cidade… como se a névoa não existisse?
Alethea se levantou e a imagem se tornou borrada por alguns segundos.
— Porque vês o que eu quero que veja. Escutas o que eu quero que escute. Faz parte dos meus poderes — ela se aproximou da janela inexistente. — Eu controlo seus sentidos.
Ele não queria admitir ou demonstrar, mas pânico lhe preencheu o estômago. Então tinha sido assim que ela teria assassinado o credor na frente dele, o fazendo perder a sanidade com seja lá o que ela o tivesse feito ver.
— Para — ele murmurou, os ombros tensos ao lado da bruxa.
Como se somente agora tinha percebido quem ela realmente era.
— O que disse? — Alethea perguntou, virando o rosto angelical para o ferreiro.
— Por favor, para. — Ele repetiu.
A visão logo se esvaneceu, e ambos estavam novamente de frente para aquela parede antiga e mofada. Ela fechou as cortinas lentamente, cautelosa como se ele fosse um gato assustado.
— Você me pediu para ver a cidade — disse ela em um tom baixo.
— Antes de eu saber que você manipula mentes — Gael praticamente rosnou como resposta de seu pavor, se afastando da imortal.
Ela colocou as mãos atrás do corpo, mantendo seu rosto neutro na tentativa de acalmá-lo pelo menos um pouco. Talvez não deveria ter sido tão direta ao lhe contar o que poderia fazer com seus poderes, mas se os dois fossem trabalhar juntos, ele precisaria saber.
— Achava que meus poderes era um conhecimento comum.
— Para os elfos — ele cuspiu, apertando a madeira da cabeceira da cama.
— Não é preciso tanta hostilidade comigo. Se eu fosse te machucar, já o teria feito. Se eu fosse te usar, não estaria tentando te convencer a me ajudar humanamente.
— Nada em você é humano. Essas orelhas suas também são uma ilusão que você põe na minha cabeça? Aposto que deve ser igual àquelas criaturas depois do mar.
Alethea levou uma mão até a curva redonda de sua orelha.
— O único sentido que não consigo alterar é o tato — ela explicou, se aproximando lentamente.
Quando estava a um braço de distância, segurou o pulso de Gael com delicadeza. Suas mãos eram quentes em contraste com as mãos gélidas dos elfos, a pele era macia como a de uma princesa. Ela encostou seu dedo em sua orelha, traçando-o pelo lóbulo.
— Não é mentira.
— Como eu posso saber que não pode controlar o tato?
Alethea suspirou, soltando seus dedos e se afastando mais uma vez.
— Não pode. Terá que confiar em mim.