Capítulo XVIII - As Memórias Ofuscantes

1453 Words
Donovan, Callie e Gael tinham voltado mais cedo, com pouca informação, além de que apesar de que tinham ouvido sons estranhos entre as árvores apertadas, a ilha parecia completamente abandonada. Na clareira da praia, os três se sentaram em volta da fogueira, Donovan virando o rosto para as runas desenhadas no chão em volta do dente da serpente. — Por que Elwin tem sangue de brinket? — ele perguntou para Callie, cruzando as pernas. — Imagina se ele fosse uma garota, todo mês ia atrair algum bicho diferente. Callie torceu o nariz, segurando o pingente do colar em seus dedos quentes. — Não sei porque, ele sempre foi assim… Gael tirou o casaco, deixando-o no chão como um tapete para se sentar em cima. — Eu já vi Callie na cidade, mas nunca te vi — disse ele para Donovan. — Eu não costumo sair muito de dia, mas eu já te vi por aí. — Não estudamos todos na mesma escola? É surpreendente que a gente não se conheça — disse Callie, sua voz pairando em volta deles como uma brisa noturna. — Nossa cidade é grande, fico surpreso é de lembrar de ver vocês por aí — respondeu Donovan.  Callie levantou a sobrancelha quando uma dúvida lhe atingiu a mente, e ela se endireitou, se dirigindo a Gael. — Eu já sei porque Donovan tá aqui, mas e você? Por que você quer a pedra? — Não era suposto eu estar aqui. Alethea salvou minha vida e fiquei em dívida. Estou ajudando ela. — Nobre — murmurou Donovan com desconfiança. — E vocês? O ladrão permaneceu em silêncio, raspando um galho fino na areia, desenhando formas aleatórias. — Eu quero ajudar meu irmão a se curar — disse Callie, tomando a iniciativa da resposta. — Talvez a família real possa ajudar ele. Ou a própria bruxa. Ninguém sabe mais de magia do que ela. Gael desviou o olhar para a floresta, como se pudesse ver Alethea através de todas aquelas árvores e morros. — Espero que consiga ajudar seu irmão — ele respondeu finalmente. — Obrigada. Gael olhou para Donovan, esperando sua explicação. A pele do ferreiro estava brilhando com suor, a ilha surpreendentemente mais quente do que a capital. — Eu quero sair de Nyamie — Don respondeu. — Quero pegar o dinheiro e levar minha família pra fora daqui. — As fronteiras são as áreas mais perigosas… Ninguém consegue atravessar. — Boatos — ele deu de ombros. — Dizem as lendas que as fronteiras são cercadas com magia, mas os elfos que as vigiam também têm magia. Um pouco de suborno deve ser mais do que o suficiente. Callie inspirou fundo, se lembrando de Elwin. — Acha que eles vão demorar muito? Ela se pôs de pé, como se aquilo a ajudasse a ver mais longe na tentativa de avistar a dupla ao longe. Donovan largou o galho na areia, se levantando também. Batendo nas pernas para se limpar, ele caminhou até o barco, enfiando as mãos nos bolsos. — É melhor que não demorem, temos um plano pra elaborar. ~ Alethea evitou contato visual com Elwin enquanto voltavam para a praia. No entanto, ainda estava curiosa. Somente tinha visto pessoas como ele algumas vezes em suas centenas de anos viva e somente uma havia se destacado em sua memória.  — De onde você tirou sua… magia? — ele perguntou, se apoiando em um tronco para descer de uma pedra. — Eu sempre a tive. — E foi sempre forte ou…? — Eu fui aperfeiçoando com o tempo. — Sozinha? — Sim. Alethea sempre tinha estado sozinha, os deuses eram seus pais, amigos e no geral companheiros. — Deve ter sido difícil. A bruxa deu de ombros, sem se incomodar em se virar para ele. — Já enfrentei coisas mais difíceis. Sua resposta tinha soado mais esnobe do que ela esperava, mas deixou para se concentrar nos três jovens que se sentavam em volta da fogueira, esperando ansiosos por ambos. — Finalmente — murmurou Callie, examinando Elwin da cabeça aos pés, para garantir que estava tudo bem. Os cabelos loiros escuros de Elwin estavam sujos, assim como seus ombros e braços, como se tivessem passado por cantos apertados e lamacentos. — Encontraram alguma coisa? — Ele perguntou, se sentando ao lado de sua irmã. — Não tem muito nessa ilha e a gente evitou subir a montanha já que não temos nenhuma preparação pra isso — Donovan respondeu, raspando um graveto fino com o seu canivete. Alethea se sentou no mesmo tronco deitado na areia que Gael estava, ajeitando seu vestido. — Não precisamos ir tão longe. — Então… o que fazemos? — Perguntou Callie depois que todos ficaram em silêncio por tempo demais. — Eu consigo matar a serpente, mas preciso que ela não esteja se rastejando na minha direção na velocidade da luz. O que significa que vamos precisar distraí-la e desacelerá-la. — Alguma ideia de como? — Donovan perguntou, sem levantar os olhos do graveto. Ninguém queria dizer o que todos estavam pensando, então a bruxa continuou. — Só tem uma coisa que vai atraí-la melhor do que qualquer outra. Sangue de brinket. Callie engoliu em seco e endireitou as costas. — Não vamos usar meu irmão como isca — disse ela, a voz fraca sem impor nada. Elwin abaixou a cabeça, como se estivesse aceitando que aquela seria a única opção do grupo.  — Não quero dizer ele inteiro. Só precisamos do sangue dele. Podemos… fazê-lo sangrar em um pano, e aí sim quem carregar o pano vai ser a isca. — Não adianta nada, um de nós vai estar em tremendo risco — Gael comentou, olhando para Alethea de soslaio. — Por isso precisamos encontrar uma forma de desacelerar a serpente enquanto nossa isca a atrai até mim. — Ninguém aqui consegue correr mais rápido do que um monstro gigante — disse Callie. Donovan torceu o nariz como se discordasse, mas ainda cheio de suas próprias dúvidas. — É uma serpente marítima, não vai estar tão acostumada com o mundo terrestre. Temos uma vantagem. Alethea levantou o olhar até o ladrão. Ela sentia seu pescoço arder com calor, mas se recusava a tirar o casaco por cima do vestido. — E se ela agarrar a isca e puxar de volta pro mar? — questionou Gael, os olhos curiosos navegando entre cada um deles. — Ela não vai fazer isso — disse Alethea. — Colocaremos mais um pouco de sangue de brinket comigo, assim, ela vai continuar a ser atraída pras profundezas da ilha. Elwin levantou a mão como se estivessem em uma sala de aula, e Donovan escondeu o riso breve ao abaixar a cabeça. — Mas assim que o meu sangue estiver em contato com a superfície, iremos acabar atraindo todo tipo de criatura nessa ilha. — Verdade — disse a bruxa. — Mas vamos tentar reduzir os riscos por atrair a serpente de dia. Estaremos mais seguros. O grupo não adicionou nada. O silêncio se assentou sobre eles ao ponto do desconforto. Gael levantou, batendo as mãos nas pernas. — Vamos comer e continuamos pensando sobre o plano. ~ Alethea foi a primeira a se retirar depois da refeição, se deitando no sofá da cabine do barco, os olhos pesados e as costas doloridas. Precisava entrar em contato com os deuses logo, sua energia desvanecia aos poucos sempre que se distanciava muito de seu santuário. Não haviam decidido nada de importante quanto ao plano, mas a bruxa tinha uma dor de cabeça forte demais para tentar pensar no assunto. Ela puxou seus cabelos de cobre para cima, desabotoando o casaco, deixando sua pele respirar. Seus olhos se fecharam, e sua mente divagou de volta para alguns cem anos atrás, para a humana que um dia tinha sido dona daquele corpo. Quando Alethea era nada além de uma alma perdida no ar, antes de carregar todo o peso e culpa da quase-destruição de um reino inteiro, tudo que a bruxa queria era poder viver. Agora, tudo que ela queria era voltar a ser uma alma perdida. Não o poderia fazê-lo enquanto não terminasse sua missão na terra. Os deuses não a aceitariam de volta enquanto Alethea não se redimisse. A pedra… A bruxa virou-se e encostou a testa na parede gelada, suspirando pesado. Seu peito estava apertado e pesado, respirar era doloroso. Algo estava errado. Seu santuário, mesmo nas suas memórias, não parecia seguro. A sua magia alaranjada brilhou em seus dedos, projetando a imagem de uma janela familiar em sua mente. A janela da cozinha daquela humana, por onde Alethea a observava cozinhar e limpar. E ali ficou pelas próximas horas, acalmando o coração aflito com algumas de suas memórias mais calorosas.
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