O grande relógio no topo da sala de treino de Elinor tocou e tocou conforme as horas passavam, e a princesa desistiu de esperar por Alethea pouco tempo depois, treinando sozinha. Não precisava de muita supervisão de qualquer forma.
Ela manipulava e puxava a água com o seu poder, formando lâminas afiadas como estalactites de gelo. Aquela aula não era para luta, Alethea não ensinava à princesa tais métodos de violência, apenas a ajudava a entender e controlar a sua magia.
As aulas de luta eram muito raras, considerando o estado de saúde da princesa. No entanto, Elinor fazia questão de praticar escondido. Sua mãe estava certa, sim, conhecimento é uma das melhores armas.
Mas não há muito que conhecimento possa fazer quando sua própria pele é manipulada por outra pessoa, rasgando sua garganta como tecido em um segundo.
Elinor odiava cenas sangrentas, no entanto. Nunca havia praticado em um animal, muito menos elfo ou humano. Uma voz em sua cabeça dizia que deveria tentar e deveria se acostumar. Nunca se sabe quando precisaria realmente arrancar a garganta de alguém fora.
Alethea não tinha aparecido para sua aula diurna, muito menos para a noturna. Na manhã seguinte, ela também não apareceu. As cartas diárias que chegavam ao quarto de Elinor não traziam notícias sobre o paradeiro da bruxa, somente diziam que ela ainda não havia retornado para o seu santuário.
Não era a primeira vez que Elinor tinha fugido do castelo escondido, mas todas as vezes que o fez — duas ou três em sua vida inteira — tinha sempre muito custo para conseguir ser completamente despercebida. Ela não gostava de passar despercebida nem um pouco, mas reconhecia o perigo de sair com a coroa na cabeça.
Em uma carruagem escura, Elinor se sentava no fundo, com os olhos vidrados na janela. A última vez que tinha saído do palácio tinha sido há dois anos atrás, em uma viagem à cidade capital humana para lhe apresentar ao seu povo. Ela m*l se lembrava de como a cidade era, no entanto, a memória do santuário na montanha lhe queimava na cabeça desde sempre. Alethea morava ali, acima de todos os humanos, como se fosse superior. Como se comandasse os súditos de Elinor.
Selina se sentava logo à frente de Elinor, o corpo inteiro coberto de preto, com o capuz puxado por cima do lenço na cabeça e os dedos ansiosos inquietos no colo.
— Não acha que ela vai saber se entrarmos na casa dela? — Perguntou Selina, percebendo que talvez deveria ter-lhe feito aquela questão antes.
— Não vai trazer problemas para nós se ela souber — Elinor não tirou o olhar da janela. — O que ela pode fazer? Eu sou a princesa de Nyamie, filha dos deuses e salvadora do reino. Não vou ser punida por entrar em um santuário do meu próprio terreno.
A subida para o santuário foi, para Elinor, horrorosa. Ela não conseguiu subir até a metade antes de se sentir tonta, o estômago subindo para sua garganta, suando frio. O sentinela Yuk, que lhes acompanhava, carregou a princesa até o topo. Quando chegaram, Selina pediu para esperarem um pouco antes de entrarem, para Elinor se recompor.
A princesa se apoiou na pedra mofada, seu coração acelerado no peito. Nenhum dos aromas eram familiares, e aquilo só fazia seu peito pesar ainda mais com o medo do desconhecido. Ela se aproximou de Selina, segurando sua mão, para poder sentir seu cheiro melhor do que todos os outros.
Após alguns segundos, o guarda aguardava ambas garotas do lado de fora, e Selina foi quem abriu a porta para o santuário de Alethea. O salão principal era como uma igreja, muito mais longo do que aparentava ser do lado de fora, mas todos os bancos tinham sido empurrados para os lados. O chão estava empoeirado, sujo. No centro, logo abaixo da abóbada, havia um pequeno altar circular, pintado com estrelas e a lua na base. Elinor levantou o olhar para o teto, observando as pinturas desgastadas, os vitrais com peças faltando, todos contando uma história diferente sobre os deuses. Depois do altar, no fundo da igreja, um dos vitrais havia sido despedaçado, e já não havia nada naquela parede senão alguns resquícios.
A princesa caminhou hesitante pelo corredor longo, como se temesse que as paredes podres fossem despencar em cima delas. O santuário era tão silencioso como o universo, cada passo de Elinor ecoava por todo canto, fazendo a impressão de que haviam outras pessoas caminhando também.
Em nenhum dos murais havia qualquer menção de Alethea ou Elinor, o que a fez deduzir que esse santuário tinha sido construído há muito mais tempo do que ela imaginava. Não reconhecia ninguém nas imagens além das representações abstratas dos deuses.
— Esse lugar está caindo aos pedaços — ela murmurou, e Siena foi capaz de ouvi-la perfeitamente por causa do eco.
Isso incomodou seus ouvidos de elfo, e ela torceu o nariz, passando as mãos por cima das orelhas.
— Acho que ela não mora aqui, Eli.
Elinor subiu no altar, olhando para o teto mais uma vez. Quase se engasgou, o céu mais límpido do que alguma vez já tinha visto através do vidro. Conseguia ver as estrelas de perto, a lua brilhando tão forte, lhe recebendo com calor e entusiasmo.
— Por que não me curam? — Elinor perguntou para os céus. — Vocês podem fazer isso… Eu sei que podem.
Selina se aproximou em silêncio, mas os seus passos ecoavam pelo santuário inteiro, atrapalhando a reza da princesa.
— Quando preciso de vocês, vocês nunca me aparecem. Só aparecem para ela — Elinor cuspiu o nome de Alethea com desdém, abaixando a cabeça para observar a pintura do altar.
Runas estavam desenhadas em um círculo em volta da estrela vermelha no centro. Era ali onde Alethea praticava suas rezas.
— Eu sou a princesa. Eu devo salvar todos — ela se ajoelhou por cima da estrela vermelha, percorrendo os dedos frágeis pelas runas. — Por que não me ajudam?
O seu toque endureceu.
Por que eu não sou o suficiente para vocês?, ela pensou, e não conseguiu expressar tal pensamento na frente de Siena.
Os olhos de Elinor arderam, e ela parou os dedos na última runa. Puxando e manipulando o mármore com a sua magia, Elinor distorceu toda a pintura, desmanchando o altar precioso em somente um degrau tão destruído quanto o resto do santuário.
— Elinor! — disse Siena, com o queixo caído. Seus olhos subiram para o vidro, como se as estrelas fossem imediatamente cair em suas cabeças como punição.
A princesa se levantou e olhou para os deuses com os olhos avermelhados de choro. Fazia esforço para ficar com as costas erguidas, seus joelhos queriam falhar, os braços ossudos lhe doíam para levantar. Seu estômago sempre acordava com uma dança de facas que lhe davam um corte novo todos os dias, a cada hora. Sua garganta já conhecia muito bem o gosto de sangue, acostumada a vomitá-lo quase todas as noites.
Elinor esticou sua mão uma última vez.
Nenhuma estrela brilhou no céu, que cada vez mais ficava escuro para ela.
Então, ela desfez o vidro e puxou a pedra por cima da abóbada, tapando toda a visão dos deuses. Virou a cabeça por cima do ombro para que Siena não visse a lágrima escorrendo em sua bochecha, quando avistou uma cortina vermelha no fundo, ao lado do vitral despedaçado. Elinor limpou seu rosto e desceu do altar.
— Por que fez isso? — Siena sussurrou, seguindo a princesa.
Elinor abriu a cortina, as escadas levando para o que parecia ser um segundo andar. Sem responder a Siena, ela subiu degrau por degrau, apertando a garganta para não vomitar mais uma vez. Quando chegou ao topo, se deparou com o que realmente era o lar de Alethea. Aquele quarto aconchegante, as cortinas cobrindo todas as paredes, a lareira apagada, uma cama grande demais para somente uma mulher. A mesa ainda bagunçada com livros e papéis. Na poltrona, tinha largado uma capa que estava a costurar, ainda com a linha na agulha.
A princesa soltou o ar devagar, como se tivesse medo de despencar se o fizesse muito rápido, inspecionando o quarto.
— Eu sei que é uma questão um pouco atrasada pra se fazer, mas por que a gente tá aqui?
— Alethea não apareceu em três das minhas aulas e não responde minhas cartas. Ela não pode fazer isso.
— Acho que invadir o santuário dela é um pouco demais-
— Esse santuário não é dela. Ou para ela. É meu, da minha família, para os nossos deuses.
— Acho que pertence aos deuses, na verdade — Siena cruzou os braços, olhando em volta no quarto.
— Claro — disse Elinor com ironia, caminhando diretamente para a estante de livros.
Muitos livros tinham as cores misturadas, o que confundia Elinor, já que tudo que ela conseguia ver era preto, branco, vermelho e dourado.
É quase como se ela não quisesse que eu lesse algum desses livros.
Os exemplares que eram perfeitamente legíveis eram sobre histórias reais ou fictícias, a maioria deles antigos.
— Acha que eles vão te punir por ter destruído o altar de Alethea?
Elinor sorriu para um livro de romance impossível que se passava antes do dragão Aether atacar. Ela deixou o livro de volta na estante e virou-se para Siena.
— Não sei. Se ela pedir, eles com certeza vão. Nada que eu não possa lidar.
Siena a encarou em desaprovação.
— O quê?
— A punição dos deuses é severa, Eli. Não acho que consiga lidar com isso.
— Eu sou mais forte do que eles — ela murmurou e sorriu mais uma vez, suas veias pulsando com aquele encanto que precisava emanar. — Eu sou uma deusa, eu mesma.
— Eli…
— Pelo simples fato de eu existir.
— Você não acha que eles existem? — Foi a vez de Siena de quase engasgar.
— Claro que não — ela balançou a cabeça. — Existem. Mas lá em cima, no próprio mundinho deles. Do que adianta? Eu estou aqui e eu posso fazer a diferença.
Elinor passou os olhos pelo quarto até encontrar um desenho rústico de Alethea e um humano perto de sua cama.
— Ela… Ela tem que desaparecer — disse Elinor, os olhos vidrados naquelas orbes de cornalina no desenho. — As pessoas a vêem como a deusa, não eu.
— Você não é uma deusa, Elinor — Siena retrucou, ficando de frente a princesa. — Eu sou sua melhor amiga, e tenho que ser sincera com você. Você tem um dom, mas não é um deles — ela apontou para o céu. — Não tente fazer inimigos com Alethea. Ela faz parte de um deles.
Elinor olhou além de Siena completamente para os papéis na mesa e se sentou, olhando um por um lentamente.
— O que pretende encontrar aqui?
— Qualquer coisa. Alethea não costuma sair desse cubículo, o fato de que ela não está aqui, nem no castelo, é suspeito.
Siena respirou fundo, deixando de lado a conversa que as duas estavam tendo há um segundo, enquanto Elinor mexia em todas as gavetas e pastas.
— Acha que alguma coisa pode ter acontecido? Ela ter sido atacada…?
Elinor riu por metade de uma respiração.
— Eu não me preocupo nada com isso. Não acho que haja nada que Alethea não encontre um jeito de se livrar hoje em dia — Elinor passou os dedos por uma folha em branco, o relevo estranho embaixo de seus dedos.
A princesa franziu a testa e pediu para Siena aproximar a vela. Elinor levantou uma das folhas contra a luz, percebendo algumas escrituras.
— Ela é uma mulher de muitos truques.
Doença. Vidro. Ritual.
As palavras fizeram os dedos de Elinor fraquejarem.
— Continue segurando a vela aí — pediu Elinor, quase sem conseguir ser ouvida, sua voz fraca ao ler o que restava do texto já antigo.
Recitar… do ritual… maldição… estátua de vidro viva.
Primeiro… resultado: … rato não…
Segun… morte imedia…
Conclusão: doença irreversível… morte absoluta.
Siena aguardou pacientemente até Elinor levantar os olhos da folha, mas quando a princesa o fez, tinha o peito acelerado e os olhos vermelhos, lacrimejando.
— O que foi?
— Aquela vagabunda — Elinor murmurou, apertando o papel em seus dedos, se engasgando na própria dificuldade de respirar, as lágrimas escorrendo involuntariamente.
— Eli? — Siena se abaixou na frente dela, segurando seus joelhos com carinho.
— Ela fez isso comigo — Elinor disse mais para si mesma do que para Siena, colocando a mão no peito, onde sua pele de vidro se expandia cada vez mais, seu estômago preso na garganta, o coração acelerado.
— Do que você tá falando?
Elinor não conseguia ouvir Siena, demasiadas perguntas se passavam pela sua cabeça. Gritos de socorro e dor, ela gritando para a imagem de Alethea:
Por que você fez isso comigo? Eu só queria ajudar o reino, ela berrava em sua mente, que virou um quarto escuro cujas paredes se aproximavam dela cada vez mais.
Ela se lembrou da primeira vez que sua pele de vidro apareceu. Ela tinha seis anos, e correu o mais rápido que pôde para fora dos seus aposentos para o quarto de sua mãe, gritando: “mamãe, eu consigo ver meu coração!”. A Rainha Eliope resmungou por ter que sair da cama no meio da noite, mas não brigou com a sua filha, que pulava no colchão, desabotoando a camisola branca como a neve.
E lá estava, a primeira mancha transparente no meio de toda a palidez da princesa. Eliope entrou em pânico e trouxe todos os melhores médicos do reino para examinarem sua filha. Por último, Alethea foi obrigada a ajudar também. Elinor adorava a bruxa naquela época, dizia que iria ser como ela, forte e imortal. Ela recusou mostrar a mancha para sua mestre por alguns dias, com medo de que ela se decepcionasse e a abandonasse.
A princesinha abriu o vestido para a bruxa, mostrando a mancha do tamanho de uma azeitona, os olhos cheios de lágrimas.
— Por que está chorando? — Alethea tinha perguntado, se ajoelhando na frente da menina.
— O papai tá bravo comigo… Ele gritou com a mamãe também — ela tinha murmurado de volta, fungando alto, perdendo a postura de princesa que Eliope tanto insistia na menina. — Eu não queria ter ficado doente, eu juro, tia Alethea.
— Não é sua culpa — Alethea tinha pousado a mão por cima de sua mancha, e Elinor lembrava que aquilo tinha ardido mais do que ela esperava. — O destino é c***l.
— Você não tá brava?
— Não.
A Elinor de seis anos desejava que Alethea dissesse mais, lhe desse conforto. Sua mãe não lhe abraçava mais, com medo de sua doença ser contagiosa. Seu pai não falava nada, e as outras crianças no castelo nunca quiseram encostar em Elinor mesmo — por ela ser tão especial e importante. Sua mestre era a única pessoa além dos médicos que havia encostado diretamente na mancha, sem medo de adoecer também.
Agora ela sabia porque.
Agora, Elinor tentava repassar o que havia acontecido antes dela adoecer. Se lembrava de qualquer coisa? Não conseguia lembrar do momento que tinha sido amaldiçoada, se é que tinha percebido qualquer coisa na época. Talvez esse seja o propósito, não ser percebido.
Elinor iria morrer logo se não encostasse naquela pedra de Lítio. O reino não seria salvo se a pedra não caísse nas mãos da princesa.
O que ela não fazia ideia era que Alethea estava atrás daquela pedra naquele exato momento.