Callie e Elwin organizaram uma fogueira, enquanto Donovan e Gael se certificaram de que havia espaço o suficiente para todos dormirem dentro da cabine do barco. Alethea deitou sua capa dobrada em um quadrado perfeito na areia, se sentando com as pernas cruzadas. Ela percorreu seu dedo indicador em volta de si, formando um círculo. O som do oceano lhe hipnotizando o ouvido, das folhas balançando de dentro da floresta, o cheiro de sal e pedra úmida, era naquilo que Alethea se concentrava conforme encaixava as velas em pontos específicos. Suas mãos delicadas então formaram linhas e curvas conectando todas as velas umas com as outras. No fim, havia um símbolo complexo. Um octógono de pontas duplas, e caracóis.
A bruxa cuidadosamente despejou o sal pelos pequenos caminhos que traçou na areia, tirando o dente da mochila de Donovan. Ela observou-o, duro e afiado o suficiente para partir dezenas de humanos de uma vez em uma dentada. Os resíduos de veneno e sangue nas fibras já haviam sido infectadas por fungos que, mesmo depois de Donovan ter limpado a superfície por meia hora.
Quando enfiado na areia dentro do octógono, Alethea se levantou, gentilmente pisando para fora, sua magia alaranjada afogando o sal e as velas em um selo mágico.
— Que as estrelas recebam meu sinal — ela murmurou, o sal absorvendo uma cor avermelhada como milhares de rubis deitados na areia.
Enquanto isso, Callie deixou Elwin encarregado de vigiar a fogueira, se aproximando da beira do mar, sentindo a água gélida batendo contra seus pés fazendo seus ossos estremecerem. Seus olhos castanhos se perderam naquele horizonte tão visível, até onde a clareira da névoa acabava. As ondas lhe acalmavam, acariciavam seus calcanhares quase como um carinho materno.
Seus pensamentos vagavam de seu irmão a alguns metros até sua mãe, que foi deixada com somente um recado de Elwin, explicando que os dois se meteram em uma “encrenca que precisavam resolver juntos”. Como se isso fosse tranquilizá-la de todo. Seu estômago revirava ao pensar em sua mãe e como ela deveria estar se sentindo. Desejava poder voltar imediatamente, escolher o caminho mais fácil.
— Não tá frio? — Donovan perguntou por trás de Callie, sem entrar na água, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco.
Ela olhou por cima do ombro, enterrando os dedos dos pés na areia macia.
— Surpreendentemente quente — ela respondeu, só então notando a temperatura estranha da água que há poucos minutos estava fria.
Agora, tão morna.
Donovan puxou os tênis e largou-os de lado perto das mochilas, puxando as calças para cima ao entrar na beira do mar, parando ao lado de Callie. Não disse nada, voltou a enfiar as mãos nos bolsos, olhando para o horizonte assim como ela.
— Eu não acho que vamos conseguir… — ela murmurou, a memória aterrorizante dos cadáveres debaixo d’água lhe atingindo como um soco no estômago.
Callie gesticulou com a cabeça para Alethea, sentada no convés do barco, junto de Gael. Os dois preparavam uma refeição para todos, antes de começarem a elaborar um plano.
— Ela derrubou um urso, mas os ursos não fazem o que essa serpente faz. Eles não conseguem partir um navio em metade.
Donovan inspirou profundamente, de forma audível, como se também se questionasse a mesma coisa.
— O que você acha dela? — ele perguntou, abaixando o seu tom de voz como se Alethea pudesse ouvir de tão longe.
— Um pouco intimidante — disse Callie relutantemente, lançando outro olhar de soslaio para a bruxa.
— Pra você tudo deve ser.
— O que você quer dizer com isso? — Ela estranhou, virando a cabeça para o ladrão.
A onda aumentou e bateu em suas pernas, mas ambos permaneceram de pé, firmes.
Ele deu de ombros, sem se incomodar em encará-la de volta.
— Você parece um pouco sensível.
— Emocional?
— Eu não disse isso.
— Muita gente diz isso — ela retrucou, imitando sua postura e deixando de encará-lo.
Como ele não disse nada, ela continuou.
— Acham que eu não sou racional o suficiente e me deixo levar pelas emoções o tempo todo.
— Quem?
— Pessoas — ela respondeu, encolhendo o corpo e abraçando a si mesma.
— E é verdade?
Ela contemplou por alguns segundos antes de responder.
— Acho que sim. Senão não teria vindo aqui pra começo de conversa.
— Justo.
Os dois se limitaram a assistir o horizonte, uma paisagem que nenhum deles estava acostumado a ver, mas suas atenções não estavam totalmente ali. Donovan se perguntava se sua família iria perceber sua ausência. Normalmente nunca percebiam, até porque ele passava muitas horas do dia fora de casa. Da noite também. Sua irmã era a única que, de vez em quando, sentia sua falta.
— Eu quis dizer quanto aos poderes dela, aliás — disse ele, desviando os pensamentos de sua família. Se pensasse neles demais, não iria conseguir fazer nada.
— Como assim?
— Confia nela? Tem tanta coisa estranha quanto àquela mulher.
— Não sei… Não fico pensando muito sobre isso.
Porque você é ingênua, ele pensou imediatamente e ficou grato por não ter deixado escapar.
— Eu não confio nela — ele murmurou.
— E você confia em mim?
Pela primeira vez, ele a encarou. Os olhos confusos tentando ler a expressão de Callie. Novamente, como ele não disse nada, ela continuou.
— Se você tá me dizendo isso deve ser porque confia em mim.
— Eu não presumiria nada se fosse você.
— Uuu, todo misterioso — ela brincou, mas para Donovan era mais como um deboche.
Ele sorriu.
— Eu escolhi você pra ser minha parceira por uma razão.
— Sim, e a razão é que todos os outros navegadores já te odiavam.
— Ei.
— Você mesmo disse — ela deu de ombros. — Não veio até mim por causa da minha beleza fatal.
Outro deboche.
— Definitivamente não.
~
Gael nunca tinha cozinhado antes. Normalmente seu pai preparava ou comprava toda refeição que tinham na casa, e o jovem apenas ajudava com algumas coisas. Por isso, assumiu o papel de assistente de Alethea enquanto ela fazia a maioria do trabalho.
— Temos mesmo comida o suficiente? Parece tão pouco — ele murmurou, sentindo sua barriga rugindo de fome. Poderia comer toda aquela porção sozinho.
— Temos o suficiente pra cinco humanos, não pra uma b***a — respondeu ela, torcendo o nariz quando sua franja caiu em seus olhos mais uma vez.
— Tô morrendo de fome…
— Vai demorar um pouco, então aguenta um pouco mais.
Ele parou de descascar a pequena batata em sua mão, distraído com o entretenimento de assistir a bruxa se irritar com o seu cabelo caindo no rosto. Gael pegou o pano que ambos usavam para secar as mãos e se levantou, se posicionando atrás dela.
— Minha mãe costumava cobrir o cabelo dela pra não atrapalhar assim. Hm… Posso?
Alethea olhou por cima do ombro, franzindo a testa, surpresa com a audácia dele de querer encostar nela daquele jeito. Quando ele tinha criado a coragem para aquela i********e? Talvez o toque físico não seja nada demais para ele, ela pensou.
— Pode… — ela murmurou, sem estar completamente feliz com a ideia, mas disposta a dar uma chance.
Gael cuidadosamente passou seu cabelo de cobre para trás, e seus dedos eram macios e quentes.
— Ela fazia assim também por causa dos cachos, mas vai te ajudar também — disse ele, cobrindo o cabelo dela com o pano e amarrando-o de leve atrás com um laço.
Alethea permaneceu imóvel, sem ter sequer certeza de que respirava. Não tinha se preparado psicologicamente para sentir o toque de outra pessoa daquela forma. Quase dois séculos de vida e ainda reagia do mesmo jeito.
— Pronto — disse ele, se sentando ao lado da bruxa novamente.
Ele sorriu ao vê-la, soltando o começo de uma risada ao perceber que tinha deixado algumas mechas de fora. Alethea odiou aquilo, achava que ele estava rindo dela.
Gael se inclinou para frente, ajeitando as mechas ruivas de volta para dentro do pano, e a bruxa não reagiu de todo, tinha seus olhos trancados no rosto dele.
— Assim tá melhor — disse ele, a poucos centímetros do rosto dela. — Antes parecia meio bagunçado.
Alethea soltou a respiração lentamente, como se não quisesse que ele sentisse o ar quente contra sua pele e se afastou, hesitante.
— Precisamos terminar isso — ela murmurou, seu coração batendo acelerado na garganta. Sua testa, nos locais onde ele tinha encostado, parecia arder e pinicar.
— Certo.
Ele virou-se de volta para as batatas, pegando a faca novamente. Alethea olhou de soslaio para as mãos do jovem ferreiro. Tão grosseiras e calejadas. Como era possível que seu toque era tão delicado e suave?
— Acha que consegue matar a serpente?
— Eu já matei um dragão — ela murmurou, concentrada no seu próprio trabalho.
— É, mas infectou o reino inteiro- — ele mesmo se interrompeu ao perceber que ela havia hesitado por alguns instantes. — Desculpa.
— Não. É justo.
Alethea voltou a mergulhar a carne crua na água fervente.
— Como… Como você derrotou o dragão? — Ele perguntou com curiosidade, os olhos inquietos oscilando do seu próprio trabalho para o rosto dela.
— Não tem toda uma lenda pra isso?
— Cada história tem um final diferente.
— Qual final você acha que é o mais verdadeiro?
Gael parou para pensar, soltando um longo “hmm”.
— Tem cada coisa tão absurdamente extraordinária que eu nem sei direito. Uns dizem que você cravou a espada por baixo da garganta do dragão e saiu pelos olhos — disse ele, fazendo uma careta ao imaginar a cena.
Alethea sorriu de lado, pacientemente ouvindo.
— Outros dizem que seus olhos lançam magias fatais e o dragão morreu pouco depois de te encarar. Ou que você foi abençoada pelos deuses na última hora e ganhou a habilidade de lutar com uma espada. Em toda pintura tem uma espada.
— Bom, eu empunhei uma espada, então… Faz sentido.
— Você sabe lutar?
— Não, não mais. Treinava há muito tempo, mas parei depois do Aeter. Nunca mais toquei numa espada.
— Por que não? Parece ser tão… massa. Na forja fazemos espadas o tempo todo… E sendo sincero, eu já passei tempo demais brincando com algumas.
Ele tem mesmo dezessete anos.
— Não se brinca com espadas. Ou facas. Sua mãe nunca te ensinou isso?
— Ensinou sim.
— Então?
Gael deu de ombros.
— Não resisti a tentação.
— Então você derrotou o Aeter com uma espada?
— E magia. Não lutei sozinha, ao contrário do que as lendas dizem… Levei todo o crédito por tudo aquilo, não por opção.
— Deve ter sido bom, por um lado. Pelo menos todos os elfos te adoram hoje… Os humanos já têm outras opiniões.
Alethea balançou a cabeça.
— Muito pelo contrário. Levei muito tempo sendo culpada por todas as mortes que vieram durante a luta e depois, com a névoa e o veneno. Quase fui decapitada duas vezes.
Gael arregalou os olhos, virando-se para ela como uma criança interessada em histórias.
— Sério?
— Demorei muito tempo para ser aceita. E ao contrário do que você pensa, muitos elfos não gostam de mim, mas a maioria acredita nos deuses, e se virar contra mim é se virar contra os deuses.
Ele ficou quieto e assentiu, ainda intrigado com o passado da bruxa.
— Você acredita neles?
— Nos deuses?
— Sim.
— Isso é mais uma coisa dos imortais do que nossa — disse Gael, hesitante.
— Eu sei disso.
— Aliás, isso não te ofende? Ter gente que não acredita nos deuses.
— Eu não me importo com crenças individuais — disse ela, dando de ombros. — Isso é insignificante. Os deuses existem, é um fato. Basta olhar pro céu.
— Eles não ajudam muito os humanos.
Alethea encarou Gael por alguns segundos, o brilho em seus olhos pretos desaparecendo aos poucos.
— Destinos são destinos. Não podem impedir toda morte de acontecer.
— Mas pelo menos algumas das atrocidades eles podiam ajudar a prevenir.
Esse é o meu trabalho, ela pensou.
— A carne já tá pronta — disse ela, respirando fundo e se levantando. — Coloca as batatas na água também. Vou chamar os outros.
~
Em pouco tempo, os cinco já exploravam os arredores da ilha a fim de formarem um plano de luta. Já que claramente não conseguiriam vencer contra a serpente em uma competição de rapidez ou força, precisavam vencê-la na inteligência.
Eles se dividiram em dois grupos: Gael, Callie e Donovan; Alethea e Elwin. Gael havia passado quarenta minutos entalhando um apito de madeira para os dois grupos usarem se precisarem de socorro. Alethea decidiu que seria melhor para os três jovens saudáveis ficarem juntos para se ajudarem, e ela cuidaria de si mesma e do adolescente moribundo.
Adentrando pela floresta, Elwin se sentia cada vez mais claustrofóbico. As árvores se tornavam finas e abarrotadas, com pouco espaço para correr se necessário. Ele colocou uma mão no peito, suas veias latejando na garganta e testa.
— Nunca vi um humano com sangue de imortal antes — disse Alethea, se apoiando em um tronco para subir uma pedra grossa enfiada na terra.
— Sangue de monstro, você quer dizer… — ele murmurou.
Elwin seria como uma jóia rara no mundo dos elfos. Ter as veias expostas como as dele era extremamente atraente e chamativo: a principal razão do porque a rainha tinha tatuagens brancas traçando suas veias na clavícula e pescoço. Além disso, Elwin tinha o corpo de um jovem que eles adorariam. Magro demais, quase esquelético, como a própria princesa.
— Você nasceu assim?
Ele não sabia exatamente se queria responder, mas estava até surpreso que ela puxava assunto. Achava que aquela caminhada seria terrivelmente silenciosa.
— Não.
— Então?
— Minha mãe, de nascimento — ele esclareceu. — Não era muito estável. Ela fez isso comigo.
Elwin havia simplificado bastante o que aconteceu quando ele era pequeno. Como poderia explicar que sua mãe havia lhe banhado a força em sangue de brinket após ter-lhe aberto feridas no corpo inteiro sem deixar a conversa desconfortável?
Alethea assentiu, respirando fundo para recuperar o fôlego da subida.
— Algumas pessoas não deveriam ser pais.
— Concordo… — ele murmurou, seguindo a bruxa sem se perguntar para onde iam. — Aquilo é uma caverna?
Ela desabotoou o casaco, o calor lhe queimando o torso.
— Sim.
— A gente vai entrar…?
— Sim — ela respondeu com simplicidade, deixando o casaco em cima de um tronco caído.
— Você não disse que essa ilha é perigosa? Não vi nada aqui assim tão terrível.
A bruxa olhou por cima do ombro e seus olhos alaranjados de cornalina brilharam com magia.
— Eles se escondem nas sombras. Viemos de dia por um motivo.