Capítulo XV - A Lenda de Uma Jovem Gritante

1856 Words
Os dois irmãos caminhavam rua abaixo para o cais em um silêncio estranho e ansioso. Callie se recusava a começar a explicar até que chegassem no barco, onde teriam privacidade o suficiente para discutir um assunto tão importante. Enquanto isso, Elwin repassava em sua cabeça os acontecimentos desde que a mulher de preto tinha aparecido em sua frente. Ele não tinha certeza do que era realidade, não tinha certeza se Callie ao seu lado sequer era verdade. Ele esfregou a testa, fechando os olhos. Sua cabeça latejava, as memórias lhe acertando na mente como ondas em um vai e vem. Já não tinha nojo do sangue que corria em suas veias, mas desejava não tê-lo de todo. A mãe dos irmãos não estava no barco, mas Callie deixou para questionar aquilo depois. — Você tá bem? — disse ela, se permitindo desfrutar to conforto de seu sofá. — Eu que te pergunto. Quer me explicar o que tá acontecendo? — É complicado de explicar… — Mas você vai ter que explicar. Callie respirou fundo, desviando o olhar para as suas mãos geladas. — Eu queria te ajudar — ela começou. — Eu queria encontrar uma cura pra você. Elwin se sentou na mesinha de centro na frente de sua irmã, os olhos concentrados. — Donovan me disse que se conseguirmos encontrar o Lítio e entregar à realeza, ganharemos a recompensa e a graça da família real. Eles podem te ajudar, Elwin. Eles podem usar magia para te curar. Ele negou, enterrando o rosto nas mãos, percorrendo os dedos pelos cabelos. — Não dá, Callie. — Estamos perto de encontrar a pedra agora. A gente pode conseguir. — Não dá. — Não diz isso — ela umedeceu os lábios, a mandíbula tensa. — É provavelmente a nossa única chance, Elwin. Ela levantou os dedos hesitantes para encostar nos seus, as veias negras transparecendo por baixo de sua pele. — Isso não é perigoso? — A busca? — Sim. Callie assentiu em resposta à sua pergunta. — Não quero que você faça isso. Não posso perder você também. — Não podemos simplesmente ficar esperando a sua morte — argumentou Callie, se colocando de pé na cabine. — Eu não entendo porque você não quer essa cura tanto quanto eu! — O que te faz achar que eu não quero? — Você não tá fazendo nada pra conseguir, você já parou de tentar há anos! — Por que você acha isso, hein? — Elwin se levantou da mesa também, encarando sua irmã nos olhos. — Acha que é por simples preguiça? — Se eu não fizer nada, você vai acabar fazendo com a mamãe o que aconteceu com o papai! O silêncio foi instantâneo. Callie abriu a boca para tentar desviar do que tinha acabado de dizer, mas não conseguiu pensar em nada melhor para declarar. Elwin segurou o pingente de jade em seu colar e abaixou a cabeça, mordendo o interior de sua bochecha, os dedos gelados e doloridos. — Eu não vou deixar que isso aconteça com a mamãe, Calliope — ele murmurou com dificuldade, o nó em sua garganta já estava afiado. — Você era novo demais pra impedir aquilo — ela murmurou, o ódio por si mesma lhe corroendo o estômago. — Hoje a mamãe têm nós dois, somos crescidos o suficiente pra ajudar. E nossa chance é essa, Elwin. Encontrar um jeito de ter aquela magia ao nosso favor. Ele se afastou, descendo a mão para o peito, seus pulmões se esforçando para continuarem funcionando, seu corpo já cansado de carregar aquele peso. — Por favor, precisamos tentar. Pela mamãe, por mim. Elwin encostou a testa no vidro, sua respiração quente embaçando a janela. Callie já não sabia mais o que dizer, o silêncio lhe incomodava. Seu coração lhe pedia para implorar um pouco mais. Precisava daquilo, a família inteira precisava. — Qual é o plano? ~ Callie não conseguia acreditar que já estava de volta naquele barco roubado junto de Gael, Donovan e Alethea. No entanto, não foi nenhuma surpresa o quão dócil o jovem ladrão tinha sido ao receber Elwin, a bajulação pintada por trás dos seus olhos marrons. — Vamos fazer turnos pra conseguirmos dormir todos — sugeriu Gael, de pé no canto da cabine. Donovan, esparramado no sofá de veludo, calculou mentalmente a melhor forma de se dividirem. — O Elwin e a Callie têm que ficar em turnos diferentes, já que só eles sabem conduzir um barco. Alethea sequer tinha removido seu capuz, apoiada na parede ao lado de Gael, silenciosa como uma sombra. — Eu começo — disse Elwin para sua irmã, se aproximando do painel de controle. — Descansa um pouco. Dessa vez, resolveu não insistir e aceitou a proposta de seu irmão, tomando uma das camas do topo do beliche. Alethea travou os olhos em Donovan, que tinha concordado em ficar acordado no primeiro turno, e finalmente abaixou seu capuz. — Eu também fico. E assim, Callie e Gael adormeciam enquanto o sol nascia. Alethea puxou sua máscara e saiu da cabine, se sentando no convés. O céu variava de uma cor amarelada para laranja, um toque de rosa no meio daquela neblina tão cegante. Donovan resolveu interromper seu momento de solidão, as mãos atrás do corpo, a máscara cobrindo seu nariz. — Não gosta muito de socializar, né? Ela respirou fundo, sem se dar o trabalho de olhar para o garoto. — Você, aparentemente, gosta — disse ela, percorrendo os dedos pela mureta de madeira. — Não tenho um afeto particular à socialização — ele encostou as costas na mesma mureta, cruzando os braços, os olhos curiosos investigando a bruxa. Seu rosto estava mais rosado, seu cabelo mais ruivo do que ele já tinha visto antes. Ela parecia mudar de aparência para ele. — Quando você descobriu que tinha esses poderes? — Muito tempo atrás — ela respondeu, sua serenidade se dissipando ao perceber que precisava manter seu disfarce. — Como você pode ser humana e ter poderes? Em algum canto de sua mente, uma voz perversa sorriu. Eu não sou humana. — Dentre todos os tipos de coisas absurdas que existem, eu ser humana e ter poderes não é o que mais me impressiona. Donovan assentiu. — Justo. Mas ainda é curioso. Você até tem um nome incomum — ele inclinou a cabeça inocentemente para o lado. — Talvez eu tenha sido abençoada por exatamente esse motivo. — Você sabe de uma história engraçada que aconteceu lá perto da minha casa? — disse Donovan, continuando antes que ela pudesse responder. — Tinha uma garota que não acreditava na lenda de que se você chamar o nome da bruxa Alethea três vezes na frente da montanha dela, ela iria aparecer e te matar. Essa garota foi testar a lenda, pra provar pros seus amigos que era besteira. Alethea permaneceu com os olhos pousados na água mais escura que o céu noturno. — Ela chegou no pé da montanha e sussurrou… Alethea, Alethea, Alethea — disse ele, lentamente, sussurrando para o ar. — A cada chamada, mais um passo pra frente. Os amigos dela não ousaram passar dos portões, mas também não fizeram nada enquanto ela avançava. — Nunca se sabe se essas lendas são realmente verdade — disse ela, sua mente repassando as memórias das pessoas que haviam entrado em seu terreno. Já houveram muitas garotas. Quem poderia ser? — Quando ela já estava longe demais da vista dos meninos, por entre as árvores, eles ouviram ela gritar e gritar sem parar. Nem mesmo os guardas quiseram entrar para ajudar. Ninguém gritava daquele jeito de lá, todas as mortes eram silenciosas. A memória surgiu em sua mente. Uma garota alta, morena, cabelos cacheados, uma tatuagem de um pássaro na lateral de seu pescoço. — Você já ouviu essa história? — ele ajeitou seu capuz, o que chamou a atenção de Alethea para a pele anormalmente exposta na sua garganta. Na lateral direita de seu pescoço, havia uma tatuagem de um pássaro com as asas e bico abertos. Ela sentiu sua garganta travar por alguns segundos, incerta de qual era o significado daquele desenho. — Não, na verdade. Ele acompanhou seu olhar, e um certo nojo oscilou em seus olhos ao perceber como ela não encarava qualquer outra coisa. — É, não ficou muito conhecida na parte de cima da cidade. A garota era pobre, não importante. Até teve um filho alguns meses antes desse acontecimento. Alethea assentiu, endireitando os ombros, virando o rosto para o oceano. — Parecia uma garota irresponsável. A lenda sendo verdadeira ou não, é senso comum não cruzar caminhos com a bruxa — ela olhou para Donovan de soslaio. O jovem ladrão se afastou da beirada do barco, caminhando até a cabine. — Espero que seus poderes anormais funcionem quando precisarmos. A bruxa m*l se moveu, mas continuou observando ele pelo canto do olho. — Não se preocupe, vai funcionar — ela sussurrou para si mesma. ~ O radar do navio apitou quando identificou a ilha rastreada. Quem tinha sugerido aquele lugar tinha sido a bruxa, alegando que seria longe o suficiente da cidade e das fronteiras, para evitar rebuliços. Além de ser uma ilha abandonada. O ar era mais limpo, a neblina rastejava por cima do mar e afundava com ele, sem chegar aos pés da terra. Um terreno montanhoso e quase tropical, as árvores sufocavam umas às outras, como uma fronteira. A areia parecia açúcar mascavo, desmanchando-se a cada extensão das ondas. — Por que ninguém veio morar aqui? — perguntou Gael quase imediatamente ao remover sua máscara, ansioso para provar daquele ar puro. Alethea puxou seu capuz, afogando o ruivo de seus cabelos no preto do tecido. — Ninguém teve coragem. Coloque sua máscara de volta — ela alertou, descendo do barco alguns segundos após atracarem. Gael encarou Donovan, o nó travando em seu estômago. O ladrão respirou fundo, dando de ombros. Se apoiando na mureta com uma mão, pulou para fora do barco. — Não façam muito barulho. Vamos circular a área e preparar um plano. Não vamos conseguir matar a serpente gigante na força bruta. Preciso que ela esteja no meu campo de visão para usar minha magia — explicou Alethea. — Magia? — Elwin olhou para a bruxa rapidamente. Donovan deu um tapinha no ombro do jovem, passando por ele sem olhar. — Você tá muito desatualizado — Donovan deu um tapinha no ombro do jovem, passando por ele sem olhar. — Precisamos encontrar uma forma segura de ter a serpente no campo de visão da Alethea, mas não o contrário. Ou pelo menos o suficiente pra ela usar a magia primeiro. A bruxa avaliou a ilha, exatamente como ainda se lembrava. A vegetação era densa o suficiente para impedir que as profundezas entre as montanhas e morros pudessem ser vistos. — É melhor que acampamos na praia e dentro do barco. Não é muito seguro ficarmos expostos assim. — Vamos dormir aqui? Alethea ajeitou a capa que arrastava naquela areia tão familiar, levantando os olhos de cornalina para os céus. — Iremos sumonar a serpente de noite, quando as estrelas brilharem acima de nós.
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