Capítulo XIV - A Isca

1655 Words
A pequena loja da família Kovac era a única da cidade que permanecia aberta durante a madrugada. Donovan costumava furtar alguns dos produtos sempre que precisava fazer algum trabalho nas ruas, por isso, o ladrãozinho já não era bem vindo lá dentro. Por isso, Gael e Callie entraram pelas portas de madeira maciça, deixando Don do lado de fora. Era do tamanho de um quarto médio, algumas estantes nos cantos das paredes, três mesas redondas no meio com mais alguns produtos e a área do caixa, onde a jovem Kie Kovac atendia. Ou melhor, lia um livro, completamente distraída dos seus clientes. E então se dividiram, Gael indo atrás do sal e Callie atrás das velas. Alethea não tinha especificado que tipo de velas, por isso, ela pegou dois pacotes de dois tipos diferentes. Uma era alta e fina e a outra mais baixinha e cheia. Gael pagou o preço de tudo, os dois se retirando da loja. Donovan se desencostou da parede de tijolos, o capuz cobrindo os cabelos negros. — Temos tudo? — Só precisamos pegar um Brinket, mas não é preciso comprar nada pra isso — disse Callie, guardando as velas e o sal dentro da mochila de Gael. — O que exatamente é um Brinket? — perguntou o jovem ferreiro, passando os dedos levemente por cima da máscara, sentindo as pequenas bolhas das queimaduras. Apesar de que os efeitos anestésicos tinham passado poucos minutos depois que Gael e Alethea saíram do santuário, a dor já não era tão r**m quanto antes. Como se sua pele não fosse dele mais, dormente o suficiente para parecer um machucado alheio. — Sabe aquelas histórias que ouvimos o tempo todo quando somos crianças sobre algumas fadinhas entrando na nossa casa nos assombrar se a gente não fechar as janelas direito? — disse Donovan, guiando os dois de volta para sua casa. — Essas fadinhas dos mitos são os Brinkets, mas elas não são tão bonitinhas quanto a história faz parecer. Callie seguiu o comando de Donovan, enfiando as mãos de volta nos bolsos. — Você já viu algum? — Já, mas felizmente não estava sozinho. — As histórias embelezam um pouco as habilidades dos Brinkets — explicou Callie para Gael. — Dizem que eles plantam uma semente que vai atrair piores criaturas, o que é parcialmente verdade. Mas eles em si são fatais se não souber imobilizá-los. O jovem ferreiro engoliu em seco, um tanto perdido. Passava tanto tempo dentro da forja de seu pai, trabalhando, que m*l tinha conhecimentos do mundo exterior quanto Calliope ou Donovan. Pelo menos iria aprender. — O que eles fazem? O trio se aproximou da casa de Donovan, deixando os itens que Alethea havia pedido em cima da mureta de pedras. — Eles são como piranhas — disse Callie. — Mas no ar. Ela virou a cabeça na direção em que vieram, avistando um homem que se aproximava lentamente. Ele estava vestido completamente de preto, a capa subindo até o pescoço, o capuz tapando seus olhos. Donovan já estava de pé novamente, concentrado na pessoa que se aproximava. — O que você quer aqui? — ele perguntou alto e claro, seus instintos para proteger sua casa controlando seus movimentos cautelosos pelo pedregulho. O homem não respondeu. Andou um pouco mais para frente, e Callie percebeu que não era um homem, era um garoto. Elwin. Seu peito apertou, e Callie engoliu em seco, as palavras lhe fugindo da ponta da língua. Ele chamava pela sua irmã, aparentemente confuso, olhando através dos três jovens como se não os pudesse ver ali. A bruxa apareceu andando logo atrás dele, o capuz levantado, a moça de preto envenenando sua mente com as suas ilusões. — Ele tem sangue de Brinkets nas veias — disse ela assim que Elwin despencou no chão, inconsciente. — Elwin! — Disse Callie quase engasgada, se espremendo entre Gael e Donovan para chegar até seu irmão. Alethea inclinou a cabeça, confusa, observando a garota tentar acordá-lo. — Conhece ele? — É meu irmão! A bruxa assentiu, enfiando as mãos no bolso, sem remorso algum. — O que você fez com ele? — perguntou Gael, se aproximando com cautela. — O mesmo que fiz com o seu pai. — Ela ataca familiares, é? — perguntou Donovan, cruzando os braços. — Ele vai ser útil para nós. Callie balançava Elwin o suficiente para acordá-lo se estivesse dormindo normalmente, segurando o rosto quente de seu irmão, as veias negras pulsando embaixo de seus dedos. A jovem ofegou, abaixando a máscara de seu irmão por alguns segundos para sentir sua respiração. — Por que ele não acorda? — Dê alguns minutos. Donovan inspirou profundamente, voltando a cabeça para o plano. Seria mais fácil para todos se Elwin pudesse ajudar do que forem caçar um Brinket. Não só é irritante de matar, quanto se derramarem algum sangue, irá atrair outros bichos. Assim seria melhor. O ladrão considerou como poderia fazer aquela questão que ele tanto tinha em mente sem parecer muito apático. — Ele pode se juntar a nós, quando estiver consciente… — murmurou Donovan, as mãos enfiadas nos bolsos do casaco. — Seria melhor para todos. Callie sabia que Elwin não concordaria fácil em sequer deixar ela ir matar aquela serpente letal. Naquele momento, não sabia sequer se era mesmo uma ideia prudente. Sua mãe iria ficar destroçada se perdesse sua filha, ainda mais devastada se perdesse seus dois filhos ao mesmo tempo. Somente Calliope tinha visto o que tinha acontecido com os corpos debaixo d’água. Por que deveria acreditar que uma mulher aleatória com magia iria conseguir derrotar aquela b***a quando uma frota inteira não foi capaz? Aliás, seu pai morreu tentando defender sua mãe, Callie e Elwin de um elfo faminto pelo sangue do filho mais velho. A história não poderia se repetir mais uma vez. Ela segurou o pingente de jade no colar e negou com a cabeça, seu estômago revirando com as imagens vívidas dos cadáveres daqueles elfos e de seu pai. — Não vai ser melhor coisa nenhuma — Callie virou a cabeça para os outros. — Nós não vamos fazer isso. Eu tô fora. ~ Assim que a garota se pôs de pé, Donovan a arrastou para mais longe do grupo, para terem um pouco de privacidade. Calliope se desviou, os dedos gelados e tremendo. — Você não pode dizer que está fora assim do nada, a gente precisa de você — disse ele, olhando para Elwin de soslaio. — Eu não vou arriscar a vida do meu irmão nisso. Não adianta procurar uma cura pra ele se ele estiver morto! — Sendo mais sincero possível, quem muito provavelmente vai morrer é aquela mulher com magia. Qualquer coisa fugimos. — Você não viu o tamanho do rastro que a serpente deixou embaixo d’água mas você viu o tamanho do dente dela. Você acha mesmo que a gente consegue fugir? — ela disse, aumentando o tom de voz acompanhado com sarcasmo. — Não sei, mas qual outra chance você tem? Seu irmão vai acabar caindo morto bem cedo se você não encontrar a cura logo. Antes que seja tarde demais — ele adicionou. Os olhos de Callie arderam e ela engoliu em seco, a garganta presa, a culpa lhe corroendo por dentro. Precisava ser aquela salvadora para seu irmão como se fosse sua obrigação de vida. — Eu não quero arrancar sangue do meu irmão como se ele fosse um animal. — Isso não depende mais de você — Donovan disse, dando as costas para a garota, voltando até Elwin. A bruxa se manteve alguns metros de distância, observando o jovem inconsciente recuperar seus sentidos aos poucos. Ele abriu os olhos, expirando como se estivesse exausto, apoiando as mãos na terra. Callie se aproximou novamente, se abaixando na frente de seu irmão. — O quê- Callie? — ele chamou, estranhando ter acordado daquela ilusão. Acreditava estar seguindo sua irmã no meio da névoa densa. — Eu tô aqui. Elwin precisou de alguns segundos para se adaptar, percebendo os arredores onde estava. Sua irmã lhe ajudou a se colocar de pé mais uma vez, tentando explicar brevemente o que estava acontecendo, porque tinha ido embora. Gael foi o primeiro a guiar Donovan e Alethea para longe dos dois, para que possam ter espaço e privacidade para conversarem sobre aquilo. Donovan observou do canto, considerando se precisariam mesmo de Calliope de agora para frente. Talvez pudesse deixá-la de fora e incluir somente seu irmão. Don tinha uma suspeita de que Elwin aceitaria tal acordo, até porque manteria sua irmã fora de perigo. — Mas o que eu tô fazendo aqui? — ele perguntou, os olhos percorrendo o redor da casa com preocupação. — Precisamos voltar pra casa antes que nossa mãe se preocupe demais. — Eu preciso te explicar isso com calma, Elwin. Vamos… Vamos voltar pra casa e lá eu explico melhor. Elwin parou seus olhos negros como duas piscinas de obsidiana na bruxa, seu sangue pulsando violentamente por baixo da camada fina de pele. Alethea não desviou o olhar, tão intrigada quanto ele. — Você vai abandonar o grupo? — perguntou Gael, evitando um tom egoísta. Muito pelo contrário, demonstrando uma certa preocupação. — Eu preciso voltar, minha mãe deve estar ficando doida — ela murmurou a última parte. — Nós podemos te esperar. Alethea e Donovan encararam Gael quase ao mesmo tempo. — Não precisamos ir exatamente agora. Temos tempo. — Eu não sei se vou voltar — disse Calliope, encolhendo o queixo como se tivesse medo demais de se impor. — Nós precisamos de ajuda. Eu vi você carregando uma âncora inteira sozinha, é uma força que daria jeito no nosso grupo. A garota inspirou profundamente, apertando os dedos no punho. — Pelo menos pensa sobre isso, a gente pode esperar. O silêncio foi desconfortável e prevaleceu por um tempo até que Callie desviou o olhar, desistindo. — Eu volto com uma resposta em algumas horas.
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